Ação contra desvio de cargas tem 22 presos

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Publicada em 10/12/2016 às 00:58:00

Gabriel Damásio

 

Na sua segunda operação deflagrada em menos de uma semana, a Polícia Federal prendeu 35 acusados de envolvimento com um esquema de desvio e receptação de cargas roubadas, comandado por um grupo baseado na região Sul de Sergipe e responsável por um prejuízo superior a R$ 15 milhões ao setor. A ‘Operação Canto da Sereia’ foi deflagrada na manhã de ontem, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), para o cumprimento de 84 mandados judiciais expedidos pelo Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE). Ao todo, foram 28 prisões preventivas, sete temporárias e 49 ordens de busca e apreensão em 14 cidades de Sergipe, Alagoas, Bahia, Goiás, Mato Grosso e São Paulo.

Apenas em Sergipe, foram 22 prisões, ocorridas nas cidades de Aracaju, Cristinápolis, Itabaianinha, Umbaúba, Boquim, Nossa Senhora do Socorro, Estância e Tobias Barreto. Alguns dos acusados chegaram a ser presos em flagrante, no momento em que desviavam as cargas. O único incidente grave aconteceu durante a madrugada em Rosário do Catete (Vale do Cotinguiba), onde um suspeito morreu após provocar uma troca de tiros com agentes da PRF. Segundo a superintendência do órgão, ele estava em um VW Gol vermelho, que acompanhava o transbordo de uma carga que seria receptada, e foi baleado depois de atirar contra as equipes policiais que cercaram os integrantes da quadrilha. O homem, cujo nome não foi divulgado, chegou a ser internado a hospital de Aracaju, onde morreu.

A investigação é um desdobramento da ‘Operação Subida da Torre’, deflagrada em dezembro de 2015 pelas duas polícias (PF e PRF) para desarticular uma quadrilha que assaltava caminhoneiros que passavam por um trecho da BR-101 entre Cristinápolis (SE) e Rio Real (BA). A nova investigação, iniciada no começo do ano, descobriu uma nova tática dos criminosos do ramo: o aliciamento dos caminhoneiros, que serviu de mote para o nome ‘Canto da Sereia’. “Essa organização tinha como prática o aliciamento, a cooptação de motoristas que transportavam cargas. A partir de uma opção remunerada, desviavam suas cargas aos receptadores, e a partir desses receptadores, eles pulverizavam essas cargas no comércio das cidades de Sergipe, Bahia e Alagoas, principalmente”, disse o delegado federal Robert Nunes, responsável pelo caso.

Ainda segundo as investigações, essas negociações eram realizadas sem o conhecimento das empresas transportadoras e fornecedoras, que ficavam com o prejuízo. Os que cediam aos apelos da quadrilha justificavam a perda prestando falsas queixas de assalto. “Via de regra, eles registravam um boletim de ocorrência falso, contando uma história fictícia, normalmente de roubo ou furto da carga, e via de regra em locais muito distantes de onde realmente houve o desvio. A gente tem, por exemplo, o caso de um desvio de carga que aconteceu aqui em Sergipe e o registro da ocorrência foi prestado em Teófilo Otoni, Minas Gerais”, ilustrou Robert, explicando que a prática dos desviantes procurava dificultar as investigações da polícia.  

 

Qualquer carga – Vários destes desvios aconteceram nas BRs 101, 116 e 316, nas divisas entre os estados de Sergipe, Bahia, Alagoas e Pernambuco. Os cerca de 300 policiais envolvidos nas buscas apreenderam caminhões e mercadorias subtraídas. Muitos dos lotes dados como roubados foram encontrados em lojas, mercearias e revendedoras das cidades envolvidas, as quais receptavam os mais variados produtos. “Não existia uma carga específica. A gente pode ver pelas apreensões de hoje. Encontramos pneus, fraldas descartáveis, eletrônicos... na operação do ano passado tinha até cosméticos. Eles pegam a carga, pegam o motorista e vão ver quem tem interesse. E começam a negociar aquela carga”, relatou o superintendente estadual da PRF em Sergipe, inspetor Robson Feitosa. Era o que os investigadores chamaram de ‘clinica geral’.

A operação da PF e PRF foi acompanhada pelo coronel Paulo Roberto de Souza, assessor de segurança da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC). Segundo ele, os crimes de roubo e desvio de cargas no Brasil já somaram mais de 19 mil em 2015, causando prejuízos de até R$ 2,2 bilhões. Todos os materiais encontrados, bem como os suspeitos presos em Sergipe, foram levados para sede da Superintendência Estadual da PF, no Siqueira Campos (zona oeste), cujo pátio ficou lotado.

Após o interrogatório, foram enviados em um ônibus da PRF para o exame de corpo delito no Instituto Médico-Legal (IML), seguindo de lá para o Complexo Penitenciário Manoel Carvalho Neto (Copemcan), em São Cristóvão (Grande Aracaju). Apesar de o presídio estar interditado, a transferência deles foi autorizada pela Justiça Federal de Sergipe (JFSE). Os outros 13 suspeitos da ‘Canto da Sereia’ foram presos nas cidades de Euclides da Cunha e Caldas do Jorro (BA), Porto Calvo (AL), Taubaté (SP), Rondonópolis (MT) e Aparecida de Goiânia (GO), permanecendo detidos em seus respectivos estados.

Todos os investigados devem ser indiciados pelos crimes de lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva, fraude à licitação, advocacia administrativa, falsa comunicação de crime e de organização criminosa. Somadas, as penas podem chegar a 700 anos de prisão.