Chacina em hotel abandonado na Atalaia deixa cinco mortos

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Publicada em 22/12/2016 às 00:00:00

Gabriel Damásio

 

Quatro homens e uma mulher foram encontrados mortos por volta das 10h30 de ontem, dentro de um hotel abandonado situado na Rua Coronel José Figueiredo Albuquerque, a uma quadra da Orla da Atalaia (zona sul de Aracaju). O crime foi descoberto depois que a vizinhança do local ouviu o som de tiros vindos do local e chamou a Polícia Militar. Até a noite de ontem, quatro vítimas foram oficialmente identificadas pelo Instituto Médico-Legal (IML): Rubens Quirino dos Santos, 37 anos, José Cássio Santos Reis, 20, Flávio França Sales dos Santos, 20, e Nataly Stefanny Santos Souza, 18.

A polícia ainda tem poucas informações, mas trabalha com a suspeita de que o crime esteja relacionado à própria rotina do antigo Hotel Brisa Mar, paralisado há quase 30 anos e usado atualmente como ponto de encontro de mendigos, usuários e traficantes de drogas. O cenário impressionou até os policiais que estiveram no local. Os corpos apresentavam marcas de tiros de pistola, principalmente no peito, nas pernas e nas costas. A mulher e um dos homens, supostamente seu companheiro, morreram deitados em um dos quartos do segundo andar do prédio, outros dois estavam no primeiro andar e o quinto homem estava caído no lado de fora da estrutura, com as pernas feridas, como se tivesse pulado para fugir dos assassinos.

As vítimas não portavam documentos, mas foram reconhecidas por pessoas que estiveram no antigo hotel em obras e se apresentaram como parentes. Os PMs também os reconheceram, mas como usuários que já foram abordados algumas vezes, em patrulhas e batidas já realizadas no hotel inacabado. “Todas as cinco pessoas que estão mortas tinham algum envolvimento com drogas, e isso a gente pode assegurar com toda a certeza, porque são pessoas que já tiveram passagens. Alguns deles já foram abordados neste mesmo local”, disse o coronel Vivaldy Cabral, comandante de Policiamento da Capital.

Peritos do IML e da Criminalística permaneceram no antigo Brisa Mar até o início da tarde, recolhendo vestígios do crime e principalmente cápsulas de pistola calibre ponto-40, encontradas próximas aos corpos. Desde a chegada da policia, o local foi isolado por fitas e depois por tapumes e tijolos. Os cadáveres foram recolhidos em seguida ao IML. Policiais civis do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) também compareceram e, em sigilo, já começaram a levantar pistas dos matadores, inclusive junto aos familiares das vítimas e a imóveis com câmeras de segurança. Dois freqüentadores do local chegaram a ser detidos como suspeitos, mas a participação deles no crime ainda não foi confirmada.

 

Cenário propício – O próprio comandante-geral da PM, coronel Marcony Cabral, esteve no antigo hotel e levantou a suspeita de ter havido uma questão entre as vítimas e os assassinos, motivada supostamente pelo consumo de drogas no local. “Nunca queremos encontrar uma cena como essa, mas por força de um envolvimento com o tráfico e o uso de drogas estando em um local abandonado, as pessoas ficam sujeitas a esse tipo de situação. Nos parece algo assim muito direcionado àquelas pessoas que ali estavam. Estamos inclusive levantando a vida pregressa [das vítimas], porque muitos já são conhecidos dos policiais da área”, reforçou o comandante.

Entre policiais e até alguns moradores da vizinhança, todos foram unânimes em apontar as ruínas do Brisa Mar, como uma “cracolândia” de livre acesso aos usuários e traficantes, sobretudo quando as ruas anteriores à Orla ficam desertas e mal-iluminadas. “O local é abandonado, aberto, e infelizmente as pessoas voltam a delinqüir no trafico de drogas aqui. Esse cenário aqui é próprio para o consumo de drogas e para crimes dessa natureza, principalmente à noite. Porque quem passa na rua, até mesmo a vizinhança, não consegue ver o que acontece lá dentro. Isso não é um trabalho só de polícia, mas não vamos deixar de fazer o nosso trabalho”, garantiu o coronel.

Avaliado em mais de R$ 7 milhões, o antigo Hotel Brisa Mar começou a ser construído em 1986, mas as obras foram paralisadas pela metade, depois de impasses financeiros e burocráticos envolvendo o Banco do Estado de Sergipe (Banese) e a Companhia de Turismo S/A, pertencente ao ex-prefeito de Aracaju Antônio Viana de Assis (1934-2010), que eram parceiros do empreendimento. O local chegou a ser ocupado duas vezes por movimentos de famílias sem-teto, mas teve a posse reivindicada pela família de Viana. Em 2012, a Justiça concedeu a propriedade do terreno ao Banese, que ganhou uma ação movida contra o espólio do ex-prefeito. Desde então, nenhuma decisão foi tomada sobre a continuidade das obras ou a demolição do que já foi construído.