Agentes soltam traficante tido como perigoso e estão presos

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Publicada em 27/12/2016 às 00:00:00

Gabriel Damásio

 

Dois agentes lotados no Complexo Penitenciário Antônio Jacinto Filho (Compajaf), no Santa Maria (zona sul de Aracaju), estão presos preventivamente desde o último final de semana, a pedido da Secretaria da Segurança Pública (SSP). Eles são investigados pelo episódio que resultou na liberação do detento Ronaldo dos Santos, o ‘Zé do Pantanal’, 29 anos, considerado de altíssima periculosidade e apontado como chefe da quadrilha que liderava o tráfico de drogas na Invasão do Pantanal, no bairro Inácio Barbosa (zona sul). Ele estava preso desde o dia 7 de novembro deste ano, quando a SSP deflagrou a ‘Operação Onça Pintada’ e prendeu mais 27 pessoas ligadas ao grupo. No entanto, Ronaldo foi solto na manhã da última quarta-feira.

O caso é apurado por um inquérito policial, aberto pela Coordenadoria de Polícia Civil da Capital (Copcal), e por uma sindicância administrativa instaurada pela Corregedoria da Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania (Sejuc). Segundo as assessorias dos dois órgãos, a investigação busca saber se houve ou não algum tipo de facilitação para a saída do detento. Até o momento, sabe-se que isso aconteceu no momento em que o responsável pelo cartório do presídio dava cumprimento a um alvará de soltura enviado para outro detento que dividia a cela com ‘Zé’. No momento em que o nome dele foi anunciado, Ronaldo se apresentou como esse preso. Em seguida, foram realizados os procedimentos de soltura e o detento saiu normalmente, pela porta da frente do presídio.

A fuga só foi constatada na sexta-feira, quando a Polícia Civil recebeu uma denúncia anônima sobre a possível volta de Ronaldo ao Pantanal e pediu uma recontagem dos presos à direção do Compajaf. Na chamada, o nome de ‘Zé do Pantanal’ foi anunciado e respondido pelo detento que seria liberado. Este interno, cujo nome não foi divulgado, foi preso e mandado para uma ala disciplinar do presídio. Em seguida, uma equipe da Copcal começou a ouvir depoimentos e pediu que a Justiça decretasse a prisão dos funcionários envolvidos, sendo uma agente penitenciária ligada à Sejuc e um agente de disciplina da empresa baiana Reviver, responsável pelo cartório da unidade, considerada de segurança máxima.

Tanto a Reviver como a Sejuc tratam o caso como um erro de procedimento dos servidores envolvidos. “A Sejuc lamenta o ocorrido, entende que foi um equívoco muito grande ter havido essa troca no cartório e apóia a investigação feita pela SSP”, informou a assessoria da secretaria. Já a empresa, por meio de seus advogados, disse que o procedimento de identificação dos detentos no Compajaf foi mudado depois do episódio, passando a ser exigida a identificação através de documentos com foto.

Por sua parte, a Polícia Civil desconfia de um possível esquema de facilitação de fuga. “A gente percebe indícios fortes de uma orquestração para que esse indivíduo de altíssima periculosidade fosse liberado. Foi criado o artifício do alvará de soltura de outro preso e ele foi liberado como se fosse essa pessoa”, declarou o delegado-geral Alessandro Vieira, em entrevista à TV Atalaia. Ele acrescentou ainda que outras pessoas envolvidas no suposto plano podem ser presas nos próximos dias. Ao JORNAL DO DIA, a assessoria da SSP disse que as investigações do caso seguem em sigilo.

Por meio de nota, o Sindicato dos Agentes Penitenciários (Sindpen) usou a fuga para criticar o modelo de cogestão entre a Sejuc e a Reviver, que existe desde a sua inauguração, em 2009. “O Compajaf nunca foi isento de rebelião e não é isento de fuga. A maioria das fugas que ocorreram lá foi cinematográfica, inclusive essa em que o detento saiu pela porta da frente. É algo inadmissível em qualquer tipo de gestão. Essa fuga coloca em dúvida todos os argumentos do Governo de que a terceirização e é melhor caminho para a administração do sistema prisional”, afirmou o diretor jurídico do Sindpen, Renato Câmara.

 

‘Onça Pintada’ – Ronaldo foi identificado nas investigações da ‘Operação Onça Pintada’ como o líder e articulador das ações da quadrilha baseada na Invasão do Pantanal. Segundo a polícia, era ele quem determinava a compra e distribuição de maconha, cocaína e crack no próprio Inácio Barbosa. As mercadorias vinham principalmente de São Paulo (SP) e Arapiraca (AL), sendo também repassadas a outras quadrilhas de traficantes. ‘Zé do Pantanal’ também é apontado como o que determinava a cobrança de dívidas e a prática de alguns assassinatos, sobretudo de usuários devedores e traficantes de outras regiões que tentavam revender no Pantanal.  

O grupo vinha sendo investigado desde março deste ano pelo Departamento de Narcóticos (Denarc), com o Batalhão de Policiamento de Radiopatrulha (BPRp) e o Comando de Operações Especiais (COE). Os mandados de prisão foram cumpridos nas cidades de Aracaju, Estância, Maruim, São Cristóvão, Barra dos Coqueiros, Itaporanga D’Ajuda e Nossa Senhora do Socorro. Entre os outros 27 presos, está Heraldo dos Santos, o ‘Arneu’, 27, irmão de Ronaldo, que segundo a polícia, também exercia o comando da quadrilha.