Eleições e crime organizado

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Publicada em 17/08/2012 às 11:21:00

Cristian Góes
cristian@infonet.com.br

Nunca mais li nem ouvi na imprensa a menção sobre o "crime organizado". A expressão era empregada para designar um grupo criminoso que agia com inteligência, hierarquia, ousadia e possuía ampla ramificação social. Geralmente estava associado a grandes ações de tráfico de drogas, roubo de banco, sequestros, jogos e assassinatos. Mexia-se com muito dinheiro, mas a imprensa só noticiava prisão de pé-rapado. As grandes cabeças sempre intocadas. Bom, mas aonde foi parar o crime organizado Claro que ele não acabou, muito pelo contrário. De fato, alguns aparatos policiais e os órgãos de controle sofisticaram suas atividades e poucos membros do crime mais ou menos organizado andaram tombando aqui ou acolá. No entanto, isso não significa, em hipótese alguma, o recuo das organizações criminosas. Na verdad e, o que parece ter ocorrido efetivamente foi uma mudança de estratégia, uma alteração de rota e a implantação de um novo e mais seguro modus operandi.

O crime organizado se aperfeiçoou e tomou de assalto alguns partidos políticos, como uma espécie de trampolim para o exercício das atividades criminosas, agora de forma legal e pública. Em outras palavras, ele continua exercendo influência na sociedade, mas com muito mais inteligência, mais hierarquia, mais ousadia e ampliou extraordinariamente sua ramificação social, tanto para reforçar a participação de figurões no esquema, quanto para sedimentar importantes apoios à sua sustentação.

Muito provavelmente os cabeças do crime organizado perceberam que na nossa frágil democracia há um momento - o período eleitoral - em que ele pode atuar legalmente sem ser incomodado e tirar enorme lucros por muitos anos. Uma das razões dessa migração é o atual modelo de financiamento das campanhas. A participação do crime organizado que era inicialmente no financiamento de candidaturas, agora assume partidos, tem política, tem candidatos e fatia o poder do Estado para atender seus interesses.

O que aconteceu com os escândalos do Mensalão do PT e do DEM de Brasília, com o do Cachoeira e suas ramificações, e com tantos outros que sequer vão ganhar destaque midiático são amostras do que pode estar acontecendo nesse momento em muitos municípios, dos pequenos aos grandes. Verdadeiros bandos organizados em torno de partidos políticos que lançaram candidatos (e que serão eleitos) com o único objetivo de saquear - por longos anos e o quanto puder - os cofres públicos. Tudo dentro da "legalidade" democrática.

Impressiona é a ramificação, uma forte rede de influência e poder que o crime organizado estabelece em quase todas as áreas do Estado, passando pelo Executivo, mídia, tribunais, Legislativo, em suas várias esfer as. As organizações criminosas deixaram a ilegalidade à medida que passaram a controlar partidos políticos, onde tudo fica naturalizado, legalizado, justificado. Por isso, o sumiço da visibilidade do crime organizado como tradicionalmente se conhecia.

Claro que o banditismo não domina toda política. Há ilhas de exceção. Há partidos, pessoas e instituições sérias que não se renderam à lógica criminosa. Todos tentam desempenham uma tarefa essencial no labirinto da atual política: denunciar que a política partidária foi tomada por ações criminosas e anunciar que nada disso é natural e normal, que o cidadão/eleitor não pode compactuar com o crime. O financiamento das campanhas e a compra e a venda de voto e consciência são ações de um mercado dominado por organizações criminosas. Os graves problemas na educação, saúde, saneamento, etc vão continuar se esse quadro de banditismo legalizado e pactuado com os eleitores persistir.