Sergipe corre risco de confrontos nos presídios

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 08/01/2017 às 07:55:00

Gabriel Damásio

 

O sistema penitenciário de Sergipe está entre os cinco estados com alta possibilidade de novos conflitos violentos em presídios, a exemplo dos massacres que deixaram quase 100 mortos na última semana em Manaus (AM) e Boa Vista (RR). Esta informação consta em um levantamento de núcleos de inteligência em segurança pública do governo federal. A informação foi divulgada neste sábado em uma reportagem do jornal ‘O Globo’, que cita ainda a existência de três facções criminosas atuantes nas cadeias sergipanas: a paulista PCC (Primeiro Comando da Capital), a baiana Comissão da Paz (CP), e a até agora desconhecida PCM (Primeiro Comando Metropolitano), que seria ligada a quadrilhas formadas na periferia de Aracaju.

O mesmo risco de conflito foi detectado nos estados de Rondônia, Mato Grosso, Ceará e Piauí. Esta tensão se deve à rivalidade ocorrida nacionalmente entre o PCC, alvo do massacre de Manaus e que se expandiu por todos os estados a partir dos presídios de São Paulo, e o CV (Comando Vermelho), baseado nas favelas do Rio de Janeiro e que controlava a entrada de maconha e cocaína a partir da fronteira com o Paraguai. Segundo investigações já realizadas pelo Ministério Público e pelas polícias estaduais, a entrada massiva do PCC nos outros estados acabou estimulando a formação de facções criminosas regionais, reunindo traficantes locais que temiam perder o controle da venda de drogas e de armas.

A rixa das quadrilhas nas ruas acaba, por sua vez, com risco de desaguar nos presídios sergipanos, cuja superlotação agrava ainda mais o problema. De acordo com dados atualizados nesta sexta-feira pela Secretaria Estadual de Justiça (Sejuc), estão atualmente com 4924 presos distribuídos em sete unidades penitenciárias com capacidade para 2.332 vagas. É um número de presos equivalente a mais de 190% acima da atual capacidade. A situação mais grave é a do Complexo Penitenciário Manoel Carvalho Neto (Copemcan), em São Cristóvão (Grande Aracaju), que apesar de ter vagas para 800 presos, está hoje com 2.739 e foi autorizado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a receber mais presos durante três meses, até chegar ao limite de 2.841 presos.

Outra unidade que está acima da capacidade é a Cadeia Pública Territorial de Nossa Senhora do Socorro, o ‘Cadeião’, que tem 160 vagas e 438 detentos. Os presídios regionais Senador Leite Neto (Preslen), em Nossa Senhora da Glória (Sertão), e Manoel Barbosa de Souza (Premabas), em Tobias Barreto (Centro-Sul), também estão bem acima de sua capacidade. Todos estes presídios já tiveram cerca de 210 presos fugitivos ao longo do ano passado, sendo alguns participantes de fugas em massa. Duas delas aconteceram no Copemcan, nos dias 9 e 23 de dezembro, resultando na saída de 58 presos. Os agentes penitenciários reclamam da falta de efetivo e de estrutura, mas o governo suspeita que houve facilitação nos escapes.

 

Mortes – Em Sergipe, não há um histórico de conflitos entre grandes facções, principalmente em presídios. No entanto, um sinal de alerta acendeu no mês passado, quando três detentos foram encontrados mortos em um intervalo de uma semana no Copemcan e no Complexo Antônio Jacinto Filho (Compajaf), no Santa Maria (zona sul). Um dos corpos foi encontrado na cela com marcas de agressão e perfurações de chuços, principalmente no pescoço, enquanto outro estava com perfurações de agulhas no braço e o terceiro não tinha marcas evidentes, mas foi registrado pelo Instituto Médico Legal (IML) como vítima de “morte por espancamento”. As mortes ainda são investigadas pela Sejuc quanto pela Polícia Civil, não havendo ainda comprovações sobre o motivo dos crimes.

Há ainda a suspeita da polícia de que os conflitos de facções e quadrilhas tenham aumentado nos últimos três anos, com a disparada do número de homicídios e a colocação do estado como o maior em número de mortes violentas intencionais (57,3 por 100 mil habitantes), segundo pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O maior número destes crimes, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública (SSP), está nos bairros Santa Maria e 17 de Março, onde duas quadrilhas rivais já investigadas pela ‘Operação Concórdia’, em 2015, protagonizam uma disputa pelo controle dos pontos de venda de drogas, com direito a vários assassinatos.

A polícia tem descoberto ainda que boa parte destas mercadorias ilegais são fornecidas por traficantes de outros estados, como São Paulo, Bahia e Alagoas, onde a presença das facções ainda é mais arraigada. O PCC e o CP, que se enfrentam diretamente em Salvador (BA), já tiveram integrantes descobertos e presos pela polícia em Sergipe. Um chefe da facção baiana, conhecido como ‘Zé Roberto’, foi preso em 2010 na saída de Aracaju, em uma operação do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope). Já a quadrilha paulista teria cerca de 170 integrantes em Sergipe, conforme um levantamento feito em 2015 pelo Ministério Público Estadual de São Paulo – e que o JORNAL DO DIA noticiou com exclusividade na imprensa local. 

 

-

boxe

 

A LOTAÇÃO ATUAL DOS PRESÍDIOS*

 

PRESÍDIO

LOTAÇÃO

CAPACIDADE

Copemcan (São Cristóvão)

2.739

800

Compajaf (Aracaju)

579

581

Cadeião de Estância

194

196

Cadeião de Socorro

438

160

Hospital de Custódia (HCTP)

85

72

Preslen (Nossa Sra. Glória)

326

177

Premabas (Tobias Barreto)

439

346

Cemep (tornozeleiras)

124

-

 

*- o balanço não incluiu o Presídio Feminino (Prefem), em Socorro

Fonte: Desipe/Sejuc

-