O espanto e o riso de Zezé

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ZEZÉ ERA, TALVEZ, A MAIOR DESCOBERTA DE MINHA VIDA (ILUSTRAÇÃO: JOSÉ FERNANDES)
ZEZÉ ERA, TALVEZ, A MAIOR DESCOBERTA DE MINHA VIDA (ILUSTRAÇÃO: JOSÉ FERNANDES)

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Publicada em 21/08/2012 às 02:46:00

Na casa da minha namorada Maria José, num domingo à tarde; estávamos sozinhos, já que todos tinham decidido ir passar o fim de semana na Barra dos Coqueiros, onde residia um tio materno dela. Estrategicamente, Zezé não quis acompanhá-los. De modo algum queria perder mais uma oportunidade de ficarmos enfim, sós. Resolvemos tomar banho juntos, no quintal, um "banho de cuia", ou seja, aquele longe do chuveiro, retirando a água do tonel com uma caneca ou cabaça. Daí o nome "banho de cuia". Era gostoso demais e melhor ainda, a dois. Antes rolamos juntos na relva do quintal, debaixo das goiabeiras, corpos suados, nus, num jogo selvagemente erótico. O quintal era murado - muros altíssimos -, de modo que não corríamos o risco de ser observados por vizinhos curiosos.

No banho, coloquei-me ao lado dela, sentindo a maciez de sua bunda, convencido de que nenhum sexo é digno de uma pneumonia. Água fria do tonel sobre os nossos corpos, flutuando contra a carne um do outro, uma sinfonia de dois corpos, de boca com boca, vagarosamente edificando-se em um triunfante clímax, seguido por um incomparável júbilo de um segundo movimento, uma agradável dança aquática de maravilhas e risos de êxtase incontido. Sobrevivemos. Retirando a água do rosto com as mãos e sussurrando que eu quase a havia afogado (que exagero, Deus do Céu!), Zezé questionou:
- Se nós fôssemos casados, estaríamos praticando esse tipo de loucura?
Sim, eu lhe disse, e muito mais: consumiríamos um ao outro, como dois canibais, num ritual antropofágico. Ela riu, enquanto eu enxugava suas costas, deleitando-me com os gritinhos que ela soltava enquanto eu mordiscava a auréola dos seus peitos intumescidos.

Um final de semana inteiro, juntinhos, como se casados fôssemos, desfrutando de coisas simples como a de acordar de manhã um ao lado do outro, ou fazer sexo de madrugada, antes do alvorecer, como se acreditássemos que o dia nunca começaria. Um presentão dos deuses.
Eu me acostumei com o aconchego de Zezé. Se às vezes ela se tornava insípida, bem diferente das raparigas da zona, é com uma insipidez familiar, não mais freqüente do que a minha, com a qual se assemelha se é que o(a) leitor(a) me entende.

Zezé era, talvez, a maior descoberta de minha vida, depois de Neide Mary, na minha doce e fagueira cidade de Estância, primeiro amor que jamais conseguiria esquecer. Sim, sou um doido feliz e com um doido feliz ninguém discute, nem mesmo a Zezé, ela que estava agora ali, no limiar de uma aventura encantadora. Mas aquilo era tolice. Não havíamos feito planos especiais. Deveríamos agir com cautelosa normalidade, sem ligar para os mexericos da vizinhança e passar a maior parte do tempo na cama. Ou na lama do quintal. Roupas? Para que fim precisaríamos de roupas?
Eu ria incontrolavelmente, observando a nossa nudez como um garoto travesso que havia conservado uma surpresa por tanto tempo e agora estava a ponto de estourar.
- Vamos nos casar, Zezé?
Ela pediu-me para contar outra piada porque essa não tinha graça alguma.
- Para que casar? - Ela disse finalmente -. Está tudo muito bom do jeito que está. E depois, ainda somos quase crianças.
Sorri indulgentemente diante de sua conformidade, mas admiti que ela parecia realmente uma criança a escutar um conto de fadas em que definitivamente não acreditava. No entanto, esperava que, de alguma forma, fosse uma história verdadeira.

Concordei enfim que o casamento era um sonho impraticável e que possivelmente jamais estaríamos emocionalmente equilibrados para funcionarmos como marido e mulher, um saco! O desastre seria inevitável. Portanto, que tal deixarmos como está (e está tão bom) pra ver como é que fica? (Extraído do meu livro de memórias inédito, "Raparigas e Cafetinas da Minha Adolescência em Aracaju")

Religião verdadeira
"A verdadeira religião deveria dar aos homens a liberdade de encontrar em si mesmos a divindade". - Federico Fellini, cineasta - pág. 27 do livro "Eu Fellini", de Charlotte Chandler, Editora Record - primeira edição.

Geleia Geral
... O programa "Encontro", com Fátima Bernardes, na Globo, vai mal das pernas. A audiência não tem sido aquela que a emissora esperava e só um milagre poderá livrar Fátima e toda sua equipe da degola. Se isso acontecer será que a Globo irá aceitar a apresentadora de volta ao Jornal Nacional? Dolorosa interrogação.
... A imagem de Virgulino Ferreira, o Lampião, grande herói do sertão, finalmente está sendo resgatada com louvor, através de diversas exposições. Graças, em grande parte, à luta titânica de Verra Ferreira, neta incansável do notável líder do cangaço. Aplausos. De pé.
... É um crime inominável o que estão fazendo com o Cinema Vitória, da antiga Rua 24 Horas, rebatizada com o nome horroroso de Rua do Turista. O espaço está em situação precária, sem que nenhuma providência seja adotada pelas chamadas "autoridades competentes", no sentido de preservá-lo. Profundamente lamentável!
... A atriz pernambucana radicada em Sergipe, Yara Cunha já está praticamente recuperada do problema de coluna que a acometeu gravemente e logo, logo, poderá retomar sua carreira, ela que também teve seus dias de glória como cantora, na Rádio Clube de Pernambuco. Bravo!