UM CORRESPONDENTE PARA A NOSSA GUERRILHA CIVIL

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Publicada em 12/02/2017 às 07:04:00

UM CORRESPONDENTE PARA A NOSSA GUERRILHA CIVIL

 

Em 1944, o Brasil mandava para a Itália o primeiro escalão da Força Expedicionário Brasileira, a FEB, então, o nosso mais virtuoso chantagista, que foi Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, dono do maior conglomerado de mídia já montado no país, mandou chamar ao seu gabinete um jovem repórter, que já conquistara a fama de escrever muito bem, ser arguto e ousado, e também dotado de uma cultura não muito comum nas redações daquela época, e hoje também não. Era o sergipano Joel Silveira. O moço lagartense chegou, assim meio desconfiado e diante do patrão ouviu de chofre a pergunta: “Você quer ir para a Itália com a FEB, para ser o correspondente de guerra dos Diários Associados?” Joel, sem titubear ou indagar quanto seria o salário para correr tais riscos, logo respondeu: “Quero”.

E Chateaubriand recomendou-lhe: “Vá, seu Joel, mas não me morra”.

Passados dois meses Joel Silveira já estaria na Itália mandando seus despachos para serem publicados nos jornais da rede associada. Leitor voraz de Ernest Hemingway, Joel tinha, como o grande escritor, que celebrizou-se como correspondente de guerra, a característica de um texto seco, sem floreios, todavia, transmitindo sentimento e adaptou-se muito bem à concisão necessária dos textos elaborados nos campos de batalha e,sacrificadamente, transmitidos pelo telégrafo.

A censura vedava quaisquer notícias sobre os nossos mortos ou feridos em combate, antes que as informações fossem passadas oficialmente às suas famílias. Mas, se fosse possível a Joel, informar a cada dia o número de brasileiros que tombavam, não chegaria, nem mesmo após os renhidos combates de Monte Castello, Montese, Porreta Terme, Fornovo, ao número de vítimas registradas em um só dia na guerrilha urbana do Espírito Santo, que associa o crime à irresponsabilidade de quem deveria combatê-lo e revelou a face, até então disfarçada, de uma sociedade em patológico estado de desintegração moral e humana. Os “defensores da lei e da ordem” se foram abrigar sob as saias das suas mulheres, que fingem vedar as portas dos quartéis para que entrem e saiam as tropas. Assim, demonstram além da covardia, a pusilanimidade diante dos juramentos que fizeram, do compromisso constitucional que assumiram, quando incorporados a uma instituição militar.

Traem a farda, traem a sociedade, traem ao Brasil. Não é só no Espírito Santo que os salários não contentam, há descontentamentos por todo o país, todavia, os mais sacrificados, esses não têm armas disponíveis para com elas chantagearem, cometerem o crime da insubordinação, sob o disfarce de protesto. Os militares do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, que estão tentando restabelecer a ordem no Espírito Santo, não são bem remunerados e existe a grande diferença: nas forças armadas não há general, almirante nem brigadeiro recebendo super salários.

Se um correspondente da guerrilha capixaba mandar pelo smartfone um texto descrevendo os episódios em Vitória, Cariacica, Vila Velha, ele terá de falar sobre o caos, a desordem, a covardia, a degradação. Já o nosso Joel falava de heroísmo, bravura, os sacrifícios enormes nas asperezas de uma guerra em terra estranha, com suas montanhas cobertas de neve. Essas coisas da nossa história esquecida e até vilipendiada.

Joel era corajoso, fazia questão de acompanhar as tropas na linha de frente. Na subida de uma colina nas proximidades de Montese, já fustigada pela artilharia brasileira, Joel acompanhou uma patrulha de 19 homens comandada pelo sargento Max Wolf, um curitibano filho de imigrantes austríacos,que já tinha no peito uma Bronze Star, condecoração do exército americano, e, dias depois, quando a família já fora comunicada, mandou o texto: “Vi perfeitamente quando a rajada de metralhadora rasgou o peito do sargento Max Wolf Filho. Instintivamente ele juntou as mãos sobre o peito e caiu de bruços. Não se mexeu mais. O tenente que estava do meu lado no posto de observação apertou os dentes com força, mas não disse uma palavra. Menos de uma hora antes eu estivera conversando com o sargento. Creio que foi a mim que ele fez as suas últimas confidências. Falou-me da sua filha, uma menina de dez anos. Disse-me que era viúvo e deu-me a notícia de que a promoção a segundo tenente, por atos de bravura, não tardaria a chegar. E como eu estava colhendo mensagens de homens do seu pelotão de choque, já formados para a patrulha de minutos depois, o sargento Wolf  pediu-me que também enviasse a sua carta. Estão comigo as poucas linhas da carta que ele escreveu com sua letra delicada no meu caderno de notas: Aos parentes e amigos: estou bem. À minha querida filhinha: papai vai bem e voltará em breve”.

No Rio de Janeiro onde os policiais não receberam o 13º e têm parcelados os soldos ainda de dezembro, houve o movimento semelhante das esposas, filhas, irmãs, tias, avós, namoradas, que foram para a frente dos quartéis, até insultaram e agrediram um coronel, todavia, as tropas não fugiram das ruas, continuam no dia a dia de um enfrentamento, que, só este ano, já assinala mais de cento e cinquenta policiais mortos ou feridos.

Um repórter de um desses nossos jornais ou emissoras de rádio e TV, que estiver sendo deslocado para o campo de batalha capixaba, deveria receber a credencial de correspondente de guerra. E o patrão parodiar o que disse Chateaubriand: “Vá para o Espírito Santo, mas não me morra”.

Mas esse correspondente, em outro instante histórico, num tempo tão marcado por hipocrisias, fraquezas, covardias e desregramentos, teria, apenas, de lamentar talvez por ser obrigado a escrever uma página triste do nosso país. Mas, o que ele iria escrever não seria nenhuma novidade: estamos há muito tempo assistindo um episódio sinistro da morte anunciada de uma grande Nação, habitada por pigmeus,onde uns se agigantaram e se tornaram ameaçadoramente dominantes, diante da covardia oportunista dos outros, pigmeus malandros, que perderam o senso de dignidade e honra. Que ninguém se engane. Não estamos aqui a insinuar que um pigmeu ousado e talvez louco, vestindo farda, poderia ser o salvador armado da pátria em perigo. O que temos a fazer é apenas provar que não somos pigmeus, muito menos covardes, ou malandros e, pelo voto, retirar de cena os pigmeus incuráveis, que infestam e desmoralizam a política.

Mas o correspondente na guerrilha capixaba teria um fato positivo a transmitir: a determinação corajosa do governador Hartung, que reassumiu o governo após uma cirurgia para enfrentar a rebelião e parece disposto a livrar a PM dos baderneiros.

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TEMER, OS SEUS AMIGOS E A REPÚBLICA DESPUDORADA

 

O presidente Temer deve conhecer bem aquele ditado ou quase aforisma: “Quem anda com porcos, farelo come”. Se algum dia ele também já se alimentou do farelo sobejante dos Gedéis, é até uma questão que, em nome da salvação deste País, deveria agora ser relegada a um segundo plano, esquecido das nossas preocupações. Em nome dessa necessária condescendência que os brasileiros são obrigados a ter, diante do que se desenha assustadoramente para o futuro, com mais uma troca de presidentes, o jurista Michel Temer, que pelas circunstancias terá de ser o Estadista, deveria livrar-se, o mais cedo que puder, da crassa pegajosa dos seus amigos por ele levados ao poder. Quase todos já foram defenestrados pelo peso das circunstâncias, mas é inadmissível, ou até aproxima-se da infantilidade pueril, a insistência em salvar Moreira Franco, dando-lhe o extemporâneo status de Ministro, que lhe concede o direito a um foro privilegiado, o STF, onde, por demais pensadas e avaliadas, as demandas se suavizam com o aquietamento das emoções, ou acabam prescritas pelo tempo.

Os argumentos usados pelo Planalto na defesa da nomeação do ministro são simplesmente vergonhosos. É uma pena que um cidadão experiente, um político tarimbado como Temer, se associe a coisa tão deprimente, no momento exato em que o Brasil é sacudido pelos episódios de uma guerra civil, onde parece que se dão as mãos no Espírito Santo, bandidos e policiais em estado de aberta rebelião.

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O QUE FAZER COM O RIO

 

O Rio de Janeiro não terá suas contas regularizadas apenas com as negociações com o governo federal. A quadrilha de Sérgio Cabral devastou os cofres e ainda os condenou à penúria concedendo isenções de impostos a longo prazo em troca de propina. Se a atividade petroleira não houvesse sofrido o baque da desintegração do sistema Petrobrás, junto com a queda nos preços do petróleo, a farsa de um governo moderno e realizador ainda teria fôlego. Mas o falso castelo desabou e o povo fluminense está pagando a azeda conta. Se houver na Constituição alguma brecha para a possibilidade de uma intervenção federal no Rio de Janeiro, isso já deveria estar sendo providenciado. O governador Pezão e o senil vice, uma Assembléia desmoralizada, uma Justiça acossada por denúncias de vendas de sentença e outros expedientes, formam um tripé de incúrias e desmandos que geram um enorme descrédito e desalento. Além de tudo, Pezão está às voltas com a Justiça eleitoral, que já determinou a cassação do seu mandato e do Vice. Nessa situação de fragilidade, ele, que já é inepto, vai se tornar um estorvo carregado pelo tempo.

Havendo a possibilidade legal de um interventor federal para o Rio, isso poderia ser o começo de uma demorada solução.

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UMA PERGUNTA

 

Será que o Moreira Franco terá a desvergonha de assumir o cargo de Ministro de Estado, de forma capenga, sem direito ao foro especial que a Justiça lhe vedou?

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OUTRA PERGUNTA

 

Será que Michel Temer acabará se transformando numa Dilma Rousseff de terno e gravata?

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UM DIVÃ PARA O SENADOR

 

O jornalista Leó Filho, com aquela bonomia que o caracteriza e o faz resistente a um problema de saúde que há muito tempo o atormenta, gosta de dar suas fórmulas para uma vida com menos problemas. Ou seja, um caminho para a felicidade sonhada e nunca, dizem alguns, efetivamente alcançada. Leó não tem ilusões sobre a possibilidade da plenitude da satisfação física e espiritual, mas, acredita que existe a possibilidade de afastar a tristeza, de livrar-se das amarguras e também do estresse. Leó foi figura prestigiada no Governo de Lourival Baptista e mais prestigiada ainda no Governo de Valadares, tendo sido, por mérito aliás, um dos mais fortes secretários. A Lourival Baptista, que vivia seus últimos dias no Senado, após a derrota em 1994, ele aconselhou: “Senador, comece a criar passarinhos”. O Senador Júlio Leite criava passarinhos e cuidava deles todo dia, quando saiu do Senado continuou fazendo uma das coisas que mais gostava e sentiu menos saudade, do “céu na terra”, como dizia o senador Heribaldo Vieira. Lourival estranhou e respondeu: “Leó, e eu sou lá homem de criar passarinhos?”.

E Leó: “Taí senador, é porque o senhor fez política a vida toda e esqueceu-se de outras coisas mais simples, para viver sem estresse”.

Lourival franziu o cenho, naquela expressão que ele usava ao tratar das coisas sérias e que o incomodavam e admitiu: “Tem razão Leó, eu vivo para a política vinte e quatro horas por dia, porque até dormindo, sonho com ela”.

E Leó: “Outro erro Senador, é melhor ter sonhos eróticos. Embora digam que o poder é afrodisíaco”.

O diálogo tornou-se longo, enveredou pela existência, pelas visões da vida, do mundo e aqui não há tempo para reproduzi-lo integralmente.

Leó continua sagaz e sábio. Poderia agora procurar o amigo dileto senador Valadares e dar-lhe um conselho: “Você é advogado, pense em montar um escritório de advocacia, ou instale um laboratório em seu apartamento e faça experiências com tubos e pipetas, misturando substâncias e provocando reações. Lembre-se: você também é químico”.

Valadares por certo responderia raivoso: “Que é isso, tá pensando que eu não vou me eleger governador ou senador?”.

Aí a sabedoria de Leó mandaria que ele calasse.

Mas, poderia acrescentar, fechando a conversa: “Então vá dar aulas de química, de graça, em escolas da periferia. Você também já foi professor”.

Não o convenceria, mas poderia acender uma chama de desconfiança no Senador sobre essa sua obsessiva atração pelo poder. E agora um sintoma ainda pior: aquela sensação de que o poder é sempre incompleto e que ele precisa dele sempre mais, sempre maior, para preencher os vácuos do espírito. E o poder estaria lhe fugindo.

Um divã com um analista ao lado, poderia abrir o inconsciente do senador e ele terminaria revelando que os seus ataques a Laércio Oliveira, a Ricardo Franco, a Jackson Barreto, agraciado com gentileza, digna de um Senador da República, sendo chamado de “cachorro azedo”. Tudo isso então seria a catarse corrosiva, resultado da sua desconstrução psicológica, pelo pavor de não mais continuar frequentando o Senado, ou um outro prédio qualquer, desde que seja um símbolo de Poder.

Dizem, também, que o poder em excesso, ou longamente mantido, causa, entre outras coisas, pavorosas diarreias, daquelas comezinhas, vulgares, ou de outra, sob a forma da desatinada loquacidade.

Para Valadares, um servo do poder, começar a perdê-lo com a derrota em Aracaju, em Simão Dias, na eleição da Câmara de Aracaju, com a perda continuada de aliados e agora com o afastamento da coordenadoria da bancada federal de Sergipe em Brasília, foram golpes piores do que um frasco inteiro de óleo de rícino, bebido de uma só vez.

Daí, a loquacidade, disparada e agressiva.

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RICARDO FRANCO E A VOCAÇÃO POLÍTICA

 

Ricardo Franco nasceu em berço rico, conviveu com a riqueza e o poder. Política é coisa que parece correr na veia dos Franco, onde houve governadores, senadores, deputados, poderosos senhores de engenhos e terras, também empresários modernos, atualizados com o seu tempo. É uma genética forte que o jovem Ricardo agora quase despreza, quando diz em entrevista longa, bem articulada, que não tem vocação para os jogos sutis da política. De Ricardo não se conhecem manifestações sobre o que pensa, sobre quais são os seus propósitos, nem mesmo sobre sua vida empresarial, ele é um ser humano introspectivo, de poucas palavras e, ao que atestam colegas seus da área empresarial, um executivo que tem a capacidade não muito comum de saber multiplicar dinheiro. O que é uma das virtudes maiores inseridas na ética do capitalismo.

De uns meses para cá, comentaristas políticos têm levantado a possibilidade de Ricardo vir a ser candidato ao governo do estado. Mas ele não fez comentários sobre as insinuações, apenas, raras palavras, aqui e ali, que sinalizavam por vezes a possibilidade, em outras, a negativa, até contundente.

Mas agora Ricardo Franco resolveu revelar seus propósitos e o fez em entrevista valorizada pelo agudo senso jornalístico que se agrega a um texto primoroso, do jornalista Jozailto Lima.

Ricardo diz verdades em alguns casos contundentes e deixa dúvidas quando se diz destituído de tolerância para as conversas políticas. Fustiga, sem perder a elegância, o senador Valadares que cometeu o absurdo de destinar cem milhões de reais para a sucateada CODEVASF, empresa especializada em ser incapaz de gerir um emperrado perímetro irrigado, mas construiu com abuso de recursos, uma pirâmide inútil a que deu o nome de unidade beneficiadora de arroz. Há insatisfação entre os irrigantes e o senador destina cem milhões, para que, afinal?

Enquanto, como lembra Ricardo, cidades estão sob ameaça de ficarem sem água em consequência de uma longa estiagem e nem há dinheiro para contratar caminhões-pipa. Por atitudes assim. Ricardo desqualifica a maior parte dos políticos sergipanos, viciados com o temo alongado na política e sem terem uma visão, sequer razoável, sobre os nossos graves problemas. Ele avaliou mal até o governo do pai, Albano Franco.

A entrevista, sem dúvidas, causou repercussão, mas somente nos meios políticos, o povão, a maioria dos que votam, sequer sabem quem é Ricardo. Temos uma população despolitizada, que se deixa levar muito mias pela esbórnia do que pela sensatez.

Ricardo parte da suposição equivocada de que um gestor forte, disposto a fazer, pode mudar os rumos da política e pode colocar projetos acima dela. E como combinar isso com os deputados, com as lideranças políticas, com os guetos corporativistas? O caminho não é exatamente esse. Se tem projetos para Sergipe, se tem a disposição de levá-los adiante e até tornar-se governador para colocá-los em execução, Ricardo terá de admitir que depende do voto e para conquistá-lo o caminho é bem mais labiríntico do que ele imagina. Sem dúvidas, existem atalhos para livrar-se dos mais sinuosos que passam pelo consenso dos chefes que comandam ainda os remanescentes colégios eleitorais. E aí, só conversa, por mais virtuosa que seja, não terá a capacidade de convencer. O “convencimento” se faz de outra forma. Mas se Ricardo, insiste em mudar Sergipe, deverá sair a percorrer um caminho bem mais longo e estafante. Ele terá de dialogar com a sociedade, com a elite do pensamento, também a elite do poder e os movimentos sociais, que, se não tiverem boa vontade, tornam mais difícil ganhar eleição. Ricardo deverá organizar um ciclo de palestras para grupos específicos e ir onde o povo estiver, para dizer o que entende como correto, na suposição de que o povo também se convença disso. Para começar, converse com o seu pai, Albano Franco, e pergunte a ele o que achou da entrevista.