O DEBATE SOBRE A SAÚDE

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Publicada em 05/03/2017 às 00:16:00

O DEBATE SOBRE A SAÚDE

 

Um indispensável debate parece finalmente começar, embora com um certo atraso. Todos, tanto da parte institucional como privada, têm até agora pisado em ovos, quando abordam as questões mais polêmicas, os gravíssimos e urgentes problemas ou, mais exatamente, as mazelas da saúde. Almeida Lima deu início publicamente a uma discussão que não saía dos intramuros da burocracia e das conversas de bastidores. O ex-secretário e dirigente petista Rogério Carvalho prosseguiu a discussão pública e assim, civilizadamente, sem descambar para o emocionalismo que atrai adjetivos nada lisonjeiros, se abre aos setores envolvidos ou interessados na saúde a oportunidade para o debate. Seria bom, imensamente oportuno, que se fizesse um detalhado, honesto e isento exame da função e da real necessidade das Fundações. Rogério, apegado à visão que em muitos casos revelou-se desastrosa, favorecendo a ampliação dos tentáculos do Estado por todo canto, considera que a Fundação Hospitalar de Saúde, cabeça do sistema, é hoje uma das maiores empresas de Sergipe e, segundo ele, responsável pelo gerenciamento moderno de uma ampliada rede pública, que não poderia ser administrada da mesma forma como se fazia há 30 anos. Já Almeida, e com ele a maior parte dos profissionais da saúde, entendem que a FHS é uma máquina que se move com a suspeição de gastar um combustível que lhe escapa dos tanques, por isso, tem capacidade de operação bem menor do que o vasto potencial da energia que demanda. Mais exatamente: a FHS consome dinheiro em volume desproporcionalmente maior do que o necessário para remunerar os serviços prestados. Gasta-se muito, serve-se mal e não se sabe exatamente o que é feito com tanto dinheiro.

Esse o cerne da questão. Um amplo debate em torno dele terá de ser travado.

Para Rogério é essencial defender e justificar as fundações, tal qual elas se encontram. Todas foram criadas por ele, que precisa insistir na eficiência do atual sistema, porque, como revela na entrevista ao Jornal da Cidade, será candidato a um cargo majoritário. Quem precisa ter eleitores dando-lhe mais votos do que aos concorrentes, ao Senado ou ao Governo, sairia prejudicado se, através de uma discussão aberta, fossem reveladas, à luz do interesse público, as vísceras ainda não expostas da Fundação Hospitalar e de todo o sistema de saúde.

Segundo Almeida, corroborado pela opinião pública, a rede de saúde precisa ser enxugada, posta a operar com mais eficiência e isso decorre do clamor popular, que, faz muito tempo, está a denunciar a existência de erros, mazelas e entraves. Torna-se imprescindível uma radiografia minuciosa de tudo isso, para que se alcance a eficiência desejada.

Um debate público com a participação de amplos setores da sociedade ajudará, Estado e sociedade a encontrarem soluções.

 

 

QUANDO A DOENÇA SE TORNA GRANDE NEGÓCIO

 

A dor e o sofrimento nem sempre despertam sentimentos humanitários ou fazem valer o altruísmo acima da ambição humana pelo dinheiro, pela facilidade de tê-lo sempre em maior quantidade. Imaginem quando se juntam o egoísmo de cada um ao planejamento frio e calculista das grandes corporações envolvidas com a Saúde, seja produzindo remédios, gerindo redes de atendimento hospitalar, planos de Saúde, seja fabricando equipamentos cada vez mais sofisticados, para detectar sintomas ou tratar doenças.

As grandes corporações transnacionais da Saúde exercem influência cada vez maior num mercado que tem as suas próprias regras, independente de serem os seus integrantes empresas que fabricam remédios ou canhões e metralhadoras.

E assim, relativiza-se a ética. Para uma multinacional que produz remédios, a sua meta, além de ampliar vendas, é ter um exército de médicos espalhados pelo mundo, que sejam todos prescritores das suas drogas, inventores de protocolos e distribuam-se em múltiplas especialidades, concentrem-se nas áreas de maior renda, fechem os ouvidos para os dramas do Terceiro Mundo, para os gemidos de dor nas periferias dos seus próprios países. Não apenas por voluntarismo Donald Trump investe contra o Obama Care, o sistema de saúde que em menor escala, é réplica do nosso SUS, a tentativa que fez Obama para levar a um contingente de 40 milhões de americanos pobres o atendimento público da saúde. Os lobistas do complexo privado da Saúde sopraram bem aos ouvidos de Trump.

A indústria farmacêutica transnacional estabelece elos com as Universidades, dita procedimentos, impõe o que inventa. Quando lhe interessa denuncia e divulga intensamente malignidades em alimentos. O ovo aumenta o colesterol, o leite, tem lactose, então, surgem os sucedâneos com uma miríade de novos produtos sem lactose, sem glúten, sem colesterol. As corporações farmacêuticas e de alimentos fazem a festa. Pediatras prescrevem leites especiais para crianças, que chegam a custar 100, 200, 400 reais cada lata.

O câncer tornou-se um rendoso e promissor negócio, e continuará sendo, desde que a doença seja tratada e não se descubra a cura definitiva. As multinacionais que fabricam remédios considerados super eficazes que custam 20, 30 mil dólares, ou até mais, projetam um horizonte largo de tempo para continuar mantendo no mercado essas drogas a preços estratosféricos. Cobrem amplamente os custos das pesquisas, garantem lucros imensos, tendo a garantia de patentes que não serão quebradas.

Mais de 90% dos pacientes de câncer no Brasil não podem comprar esses medicamentos e morrem por falta deles, sem que se tente saber se existiriam sucedâneos eficazes a menor preço, elaborados por algum laboratório correndo por fora do esquema das poderosas multinacionais. O SUS garante um presumido direito a todos os pacientes e, assim, monta-se paralelo e clandestino, outro bem sucedido negócio, assegurando, através do poder público, a compra desses medicamentos, na falta de substitutos que possam ter o mesmo efeito. Não há sistema de saúde pública que possa resistir a esse assalto organizado e, no qual, promotores e juízes são forçados a agir, para cumprir a lei e proteger a vida. A hidra de sete cabeças, os bilionários negócios da saúde, é absolutamente indiferente à vida, ao ser humano.

Uma das características positivas do deturpado socialismo foram os avanços na saúde, na educação. Nesse particular teríamos muito a aprender em Cuba. A presença dos seus médicos no Brasil, antes tão combatida, se mostra positiva e o governo Temer reedita o programa que seria uma invenção petista-comunista para dominar o Brasil. Idiotices à parte, o que se constata é o contraste entre duas visões da medicina: a organizada para dar lucro e, a outra, organizada para curar.

O sanitarista Antônio Samarone tem abordado com muita pertinácia problemas da saúde pública em Sergipe, divulgando seus textos no Grupo Expedição Serigy. No desta semana, ele aborda o quadro entristecedor de um Posto de Saúde pública de Aracaju, onde estavam leprosos, isso mesmo, portadores de hanseníase, a velha praga bíblica que ainda nos assola. Ao lado deles a enfermeira Maria Aparecida Santos da Silva, Cida. Ele a conheceu há 40 anos quando ela tomava conta do leprosário. Reproduzimos parte do texto: “Perguntei como estava funcionando o serviço de busca ativa para diagnóstico precoce, a busca de manchas suspeitas, e ela me revelou entristecida: Samarone, ninguém quer mais examinar os doentes, mandar tirar a camisa, a calça, procurar manchas, muitos pacientes com neurite, rinite, são medicados sem que ninguém mais suspeite de hanseníase. A Saúde Pública acabou, desabafou a enfermeira Cida”.

O médico oftalmologista Ângelo Martins faz agora mais um doutorado, dessa vez na sensível área da ética médica. Na tese que já inicia, ele alinhará uma série de procedimentos médicos, movidos pela engrenagem da saúde onde o aspecto econômico prepondera. E das constatações que vai fazendo, na medida em que aprofunda suas pesquisas, imagina para o futuro próximo o encontro de um terráqueo com algum habitante de outro planeta que tivesse curiosidade em saber coisas do nosso e perguntasse como são gerados os habitantes da terra, como seria a gestação e o parto. O terráqueo com base nas estatísticas brasileiras que elevam para mais de 80% o percentual das cesarianas, diria que a fecundação ocorre pelo ato sexual entre macho e fêmea, a gestação é feita pela fêmea e o parto através de cirurgias.

Os cânceres que na verdade nos matam são aqueles decorrentes das patologias da “civilização”, assim mesmo, entre aspas.

 

 

O CONSELHEIRO E O PUXA-SACO

 

É possível que a Promotora da Comarca de Gararu, à beira do São Francisco, que moveu ação civil pública e pediu que seja afastado das suas funções o conselheiro do Tribunal de Contas Ulices Andrade, esteja a refletir uma real e elogiável preocupação com os descaminhos das nossas instituições, a desmoralização de autoridades, a promiscuidade do público com o privado, tudo isso a contaminar a política, as funções públicas, enfim, o avacalhamento da deturpada República. Pois é, mas há limites ditados pelo bom senso, fixados pelas leis, para que se evitem os abusos de autoridade, ou que suas ações se desfigurem escorregando pelos equívocos do exagero. Não se quer dizer que o ilícito venha a ser relativizado, mas há, sem dúvidas, numa ação desse porte, a necessidade de provas, de uma base fática sólida, incontestável, para que se peça o afastamento de alguém de um cargo público, ocupado de acordo com as leis em vigor. A denúncia de que o conselheiro teria feito manifestação político-partidária no ato de inauguração de uma rodovia, é um tanto vaga e mesmo inconsistente, até porque não era período eleitoral, nem se estava realizando um comício, mas um ato público, até institucional e presenciado por todos.

O caso da camionete da Secretaria de Estado da Educação transportando lâminas de mármore para a residência do conselheiro em Lourdes, a não ser que se invoque a tese do “domínio do fato” que entrou em vigor durante o julgamento do “mensalão”, não configura um ilícito diretamente praticado pelo conselheiro. Configura sim, e em primeiro lugar, a perniciosa intromissão da política no sistema público da Educação. O diretor da Diretoria Regional de Ensino, Élio de Castro, é, como quase todos os demais, indicado por critérios políticos. Ele alegou, em juízo, que teria encontrado na estrada um veículo parado por defeito, que transportava as lâminas, e decidiu fazer o transporte até a casa de Ulices, usando o veículo público, por ser amigo da família, e sem se desviar da rota, não havendo maior consumo de combustível. Uma outra versão dá conta de que a camionete da SEED teria feito o transporte desde Aracaju. Mas disso não há provas, sequer testemunhais, nem a demonstração cabal de ter havido a interferência direta de Ulices no episódio. Daí, a pedir-se o afastamento definitivo das suas funções de um agente público, parece ser exagero a merecer correção. O secretário da Educação, professor Jorge Carvalho, agiu rápido, exonerou o diretor, o por demais prestimoso transportador e abriu inquérito para apurar os fatos.

É normal, e até salutar, que representantes do Ministério Público ajam com mais desenvoltura, tentando criminalizar práticas ilícitas que, de tão toleradas, se tornaram corriqueiras. Mas é preciso que se cerquem de todos os cuidados e isso significa a prévia obtenção de provas incontestáveis, para que, a partir delas, se faça a dosimetria exata da punição. Esses requisitos, claramente, não foram observados no gravíssimo castigo, a própria morte civil a ser imposta ao conselheiro Ulices Andrade.

Um cuidado essencial que devem ter as autoridades, revela o episódio, é estabelecer limites para a prestimosidade de tantos puxa-sacos.

 

DE NAIR DE TEFÉ A MARCELA TEMER

 

Em 1913, o presidente da República Marechal Hermes da Fonseca aos 57 anos era considerado um velho. Enviuvou e alguns meses depois toda a Corte neorrepublicana assistia o casamento do extremamente conservador militar com a jovem de 27 aninhos, Nair de Tefé Hoonholtz, filha do arquiconservador Barão de Tefé. Não se disse que Nair ao entrar no Catete tornando-se Primeira Dama, era Bela, Recatada e do Lar, como se fez com Marcela Temer, num absurdo extravasamento de preconceitos, que parecia marcar o novo governo, coisa, aliás, de curtíssima duração, como costumam ser todas as hipocrisias. A vida de Nair gerava escândalos naquele tempo, onde mulher era criada para ser submissa, cuidar em casa do marido e dos filhos, não lhe era permitido votar e não ousaria ingressar numa faculdade. A jovem Primeira-Dama da nascente República ocupava espaços dos jornais com suas charges (teria sido a primeira do mundo), tocava violão, era atriz e amiga de artistas, poetas, intelectuais. Levou ao Palácio do Catete o Corta-Jaca, ritmo criado por outra mulher ousada, Chiquinha Gonzaga, e o escândalo foi enorme.

Rui Barbosa apesar do apelido de “Águia de Haia” era, na verdade, um Caboré de vista curta diante da evolução dos costumes e das transformações sociais. Carola, apegado ao carrancismo da falsa moral da Casa Grande brasileira, Rui, de fraque e cartola, saiu furibundo a atacar o que classificou de desmoralização da República e das Instituições nacionais e culpava o Marechal presidente por ter tolerado a invasão do Catete pela turba de vagabundos e desqualificados, todos remexendo os corpos ao som de violões, um comportamento da ralé.

Hermes tinha o apoio do Exército, onde ideias positivistas clareavam um pouco as mentes e as palavras rançosas de Rui caíram no vazio.

Já a nossa atual Primeira Dama, pode ser Bela, até do Lar, Recatada, contudo, é adjetivo que não lhe cai bem, depois do que exibem as redes sociais. Mas isso não é motivo para escândalos, nem de impeachments contra o marido idoso, que a escolheu e a fez mãe do seu filho. Pai avô é sempre mais feliz. Ela era ainda mais jovem quando foram feitos os vídeos e certamente com todo o direito a dançar sensualmente num exíguo biquíni. Palmas para Marcela, quando ainda não era “Recatada” e, sem dúvidas, bela, como continua sendo.

E afinal de contas, o que é mesmo uma mulher recatada?

Certamente será muito feia, por dentro e por fora.

 

 

A PRÓPOLIS VERMELHA DA PRAIA DE JAPARATINGA

 

Há no litoral norte de Alagoas, um trecho de praias de águas tépidas e de esmeralda, é Japaratinga. Praia ainda a salvo da demolição ambiental causada pela ganância imobiliária e o turismo mal planejado, Japaratinga integra um rico bioma, que inclui rios, mangues, falésias, corais. Perto, do outro lado do rio Manguaba, por onde entravam os pataxós para descerem com o porão cheio de caixas de açúcar, fica Porto Calvo, cidade histórica, terra do luso-brasileiro Calabar, que se tornou a adjetivação de traidor, talvez, até injustamente, porque, para a Colônia que aspirava ser Nação, ele imaginara o jugo batavo menos retrógrado do que o português. O tempo revelou depois que ele estava errado. Mas isso já é outra historia.

De Japaratinga destacamos coisa única que só ali existe, que é a Própolis Vermelha. Os japoneses já descobriram suas amplas propriedades curativas e estão começando a beber água diariamente com dez gotas da Própolis Vermelha. Pena que seja produto raro, resultante de abelhas especiais, que se nutrem das flores e da seiva de uma árvore do manguezal que também não existe em grande quantidade. Espera-se que, tão rápido como patentearam o cupuaçu amazônico, os japoneses não tentem fazer o mesmo com a própolis vermelha de Japaratinga. No caso do cupuaçu o absurdo foi corrigido pelo próprio governo do Japão.

 

 

O LUCRO DO BANESE E O QUE FAZER COM ELE

 

O BANESE é banco miudinho, todavia, sólido e resistente, agora também na linha urgente da modernização, do enxugamento, da superação dos entraves corporativistas. Aliás, corporativismo é exatamente o que não deveria existir num banquinho que terá de mostrar, para sobreviver, que é competente e se integra às regras do mercado. É isso mesmo, banco e mercado são irmãos siameses, têm de adotar os mesmos comportamentos. Depois das privatizações da era tucana, algumas ótimas, outras desastrosas, vem, na era Temer, aliás curta, com prazo marcado já no próximo ano, uma outra onda de desestatização imposta e exigida. O BANESE poderá salvar-se surfando sobre a onda, demonstrando que não é um entrave, um empecilho para a recuperação das contas públicas, até porque sobrevive com as próprias pernas, não fez empréstimos de risco, tem liquidez plena e, com Fernando Motta e sua equipe dirigente, chega agora a um lucro que não é grande, até irrisório diante de outros bancos, mas é resultado positivo e saudável, que revela competência. O BANESE tem um papel social relacionando-se com projetos culturais. O Instituto BANESE mantém o Museu da Gente Sergipana, esmeradamente dirigido pelo arquiteto e poeta Ézio Déda. Tem presença em outras iniciativas, agora volta-se para o sertão, para a Orla de Canindé. E Jackson já “sugeriu” a Fernando que libere uma parcela do lucro para ser utilizado em projetos de convivência com a seca.

 

 

O “REI ARTUR” NA REPÚBLICA DEVASSA

 

Surge agora um Rei Artur, apelido de mais um operador das faustosas roubalheiras de Sérgio Cabral, de toda aquela gente que faz figura na Lava Jato. Agora, todos estão engolfados no mesmo lamaçal. Ninguém se salva, mas é preciso salvar a República. De Temer a Jucá, a Aécio, do PT ao PSDB e em todas as siglas partidárias não há político que não tenha recebido, para campanhas eleitorais, dinheiro de caixa 2. Se forem julgados pelo que era aceito e corriqueiro, a República simplesmente acaba, por falta de quem a conduza.