Nem um pingo de ironia

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Publicada em 05/05/2017 às 00:53:00

Rian Santos - riansantos@jornaldodiase.com.br

 

O Forrozão é a cara do sergipano, a principal manifestação cultural da aldeia, sem um pingo de ironia. Não há evento capaz de rivalizar com o palco erguido por uma emissora de TV local em matéria de identificação com a psique Serigy. Somos, em geral, brutos e cafonas. O tal Pedrinho Pegação, na programação da festa, aqui está em casa.

Difícil encontrar um sergipano indisposto às cores excessivas de um abadá. O extinto Pré Caju, de triste memória, cunhou o mal gosto de gerações a fio. Devidamente esvaziados de qualquer conexão ancestral, os tambores baianos encontraram aqui o deserto propício ao cultivo da promiscuidade autômata das micaretas. Foram décadas de orgia sem xoxota, mediante derrame milionário condenado pelo Tribunal de Contas da União. A turma da Associação Sergipana de Blocos e Trios (ASBT) teve de devolver parte do dinheiro subtraído aos cofres públicos. O prejuízo simbólico, no entanto, resta para sempre.

A selvageria carnavalesca encheu os bolsos de muita gente graúda. Explica a influência de um empresário constrangido a compensar os cofres da República nas esferas mais altas da política sergipana. O ex-secretário de cultura Élber Batalha fazia questão de ser fotografado em companhia de Fabiano Oliveira. Governadores e prefeitos no exercício do cargo, também. Mesmo a esquerda, historicamente alinhada às pelejas da cultura popular, aquiesceu ante a alegria esfuziante do compadrio. O prefeito Edvaldo Nogueira o sabe bem.

Hoje à noite, a festa realizada na arena de eventos localizada em frente ao Shopping Riomar deve reunir um público estimado em dezenas de milhares, sob o pretexto de abrir os festejos juninos da capital sergipana, em declaração do empresário Albano Franco (TV Sergipe). A motivação primeira do evento, no entanto, é público e notório, passa longe de qualquer veleidade relacionada à cultura local e o interesse público. Trata-se de fazer dinheiro. ‘It’s all business!’. Depois de tantos anos de Pré Caju, triângulo, sanfona e zabumba, as coisas da terra, infelizmente, já não vendem bem.