Os ratos de Temer

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Publicada em 20/05/2017 às 17:00:00

“A montanha pariu um rato”. Esta frase proclamada pelo presidente Michel Temer após a divulgação da gravação de sua conversa com o dono da Friboi, dando aval para diversos crimes, enterrou de vez o governo iniciado através de um golpe que há um ano afastou a presidente eleita Dilma Rousseff. Hoje, somente os ratos da política brasileira ainda manifestam qualquer esperança nesse governo.

É o caso do deputado federal André Moura (PSC), líder do governo Temer no Congresso Nacional. André repete com orgulho a frase de Temer após a divulgação da gravação em que autorizava o pagamento de propina ao ex-deputado Eduardo Cunha, preso em Curitiba, e endossava a compra de autoridades federais. Ele admite com orgulho que foi um dos aliados que recomendou ao ainda presidente que não renunciasse.

André Moura tem suas razões para defender a corrupção de Temer. De deputado do baixo clero com inúmeros processos na Justiça – de corrupção a tentativa de assassinato – se transformou num parlamentar reconhecido, com livre trânsito no Palácio do Planalto e único político sergipano que conseguia abrir os cofres do governo federal para bancar pequenas obras no Estado. Sua influência foi reconhecida até por um de seus maiores adversários na política local, o governador Jackson Barreto, que nos últimos dias vinha recorrendo a ele para tentar viabilizar algumas obras do Estado, paradas desde o início da crise política que destituiu Dilma Rousseff.

André Moura foi guindado à condição de líder do governo na Câmara por indicação de Eduardo Cunha, e conseguiu sobreviver mesmo com a pressão do novo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), outro notório rato da política brasileira. O conforto e vaidade exibidos por André entre os seus pares e lideranças políticas e empresariais de Sergipe vão por água abaixo juntamente com Temer.

Na semana passada, antes do novo escândalo, André Moura gravou e exibiu através das redes sociais um vídeo em que jactava-se de ter sido o responsável pela edição da MP em que o presidente Temer autorizava o parcelamento das dívidas dos Estados e municípios com a Previdência Social em 200 meses, com generoso desconto, antiga pauta do movimento municipalista. Na quarta-feira, dia da divulgação da gravação do Friboi, André queria levar Temer e os principais ministros do governo para um jantar com prefeitos sergipanos em Brasília, que acabou se configurando num grande fiasco.

André Moura, no entanto, não é o único derrotado com o escândalo de Temer. O presidente leva com ele também outros líderes da política sergipana, como os senadores Antonio Carlos Valadares (PSB) e Eduardo Amorim (PSDB). Os três eram relacionados como potenciais candidatos ao governo do Estado em 2018. Agora têm que saber se reposicionar no quadro político para não serem tragados pela crise.

Valadares, é bem verdade, é um veterano nessa situação. Já foi adepto da ditadura militar que perdurou no país até o início da década de 1980, aderiu à Nova República criada por Tancredo Neves e afundada por José Sarney, promoveu a intervenção na Prefeitura de Aracaju contra o então prefeito Jackson Barreto em 1987, aderiu ao petismo pela força de Marcelo Déda, apoiou Aécio Neves nas eleições de 2014 quando percebeu que o PT estava desabando, votou no impeachment de Dilma e aderiu a Temer, com sorriso de orelha à orelha e o direito de indicar a presidência da Codevasf, companhia  que garante grande influência política nas regiões mais pobres do Nordeste. No sábado, estava se preparando para abandonar o barco presidencial juntamente com o seu partido.

Eduardo Amorim foi eleito pelo PSC e no ano passado fez festa ao se filiar e assumir o controle local do PSDB, com direito a foto ao lado de Aécio Neves, que abonou a sua ficha de filiação. Depois que Aécio foi pego com a boca na botija e afastado do seu mandato por receber R$ 2 milhões em dinheiro vivo, ninguém ouviu uma única palavra do senador em sua defesa, como é bem típico de sua personalidade. André, ao menos, ainda defende o seu presidente.

André, Amorim e Valadares são os grandes derrotados na política local com derrocada de Temer e de Aécio Neves. O deputado federal Laércio Oliveira (SD), empenhado na aprovação de projetos que atacam os direitos dos trabalhadores brasileiros, como a terceirização da mão-de-obra, também entra no grupo.

Mas todos acabam derrotados, principalmente o cidadão, porque a política e a economia nacional estão em estado terminal. Ninguém sabe o que pode ocorrer nos próximos dias.

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André Moura (PSC) não é o único derrotado com o escândalo de Temer. O presidente leva com ele também outros líderes da política sergipana, como os senadores Antonio Carlos Valadares (PSB) e Eduardo Amorim (PSDB). Os três têm que saber se reposicionar no quadro político para não serem tragados pela crise

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Caminho da cassação

 

Os deputados estaduais Augusto Bezerra (DEM) e Paulinho da Varzinhas (PTdoB) vão continuar afastados das funções parlamentares e impedidos de comparecerem à Alese, por causa do envolvimento no escândalo das verbas de subvenção da Assembleia Legislativa. Mas continuam recebendo seus subsídios todos os meses, como se estivessem em atividade.

Na sexta-feira, o desembargador Roberto Porto negou pedido da defesa dos dois réus para que os dois pudessem voltar às atividades parlamentares. O Tribunal de Justiça sinaliza com a cassação.

Em sua decisão, o desembargador disse que o desempenho de uma função pública exige na sua essência ética e probidade no exercício das atividades, requisitos estes que não condizem com as condutas imputadas aos requeridos. Finalizou dizendo: “Assim, em respeito à manutenção da ordem pública, entendendo pela necessidade de manutenção da cautelar até o julgamento da ação penal, a qual, repito, já se encontra em fase final aguardando apenas a alegação final dos denunciados”.

Com isso, a Assembleia continua com apenas 22 dos 24 deputados. Os suplentes só podem assumir em caso de cassação.

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Fogo no São João

 

O governador Jackson Barreto se reuniu na noite de terça-feira, 16, com o então ministro da Cultura, Roberto Freire, e pediu ajuda para incrementar o Arraiá do Povo, tradicional festa junina que o governo realiza anualmente na Orla da Atalaia. No dia seguinte, o prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, chegou à Brasília, se reuniu e participou de jantar de André Moura pedindo recursos para o Forró Caju, que na época de Déda foi um dos maiores festejos do país.

Na quinta-feira, após a divulgação da gravação de Temer com o dono da Friboi, Freire entregou o cargo e o governo federal foi completamente paralisado. O Arraiá do Povo vai sair mesmo sem o dinheiro federal, mas o Forró Caju ainda corre o risco de não ser realizado – cantores e bandas sergipanas que participaram da festa no ano passado, último da gestão de João Alves Filho, ainda não receberam seus cachês.

O governo do Estado divulgou edital prevendo a realização do Arraiá do Povo durante oito dias, entre o São João e o São Pedro, com a contratação de dois artistas nacionais, oito regionais, artistas sergipanos, quadrilhas, grupos folclóricos e trios pé de serra. O custo será bancado pelo Banese e algumas empresas do Estado.

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Pagamento dos aposentados

 

Na semana passada, esta Tribuna informou que a Lei de Diretrizes Orçamentária (LDO) do Estado de Sergipe para 2018, em tramitação na Assembleia Legislativa, prevê a devolução das folhas dos aposentados e pensionistas aos seus respectivos Poderes, como determina a legislação em vigor. Na verdade, é apenas um mero instrumento burocrático, porque a origem orçamentária é dos poderes. O Estado vai continuar com o pagamento, até para evitar atrito com os poderes.

Os poderes efetuavam esse pagamento até 2008, no primeiro governo Marcelo Déda. Na época, o Estado de Sergipe estava sendo impedido de contrair empréstimos e assinar convênios com o governo federal, porque a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Contas não cumpriam os limites estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Quando um órgão ou um poder não seguia a LRF todo o Estado penalizado, até novo entendimento do STF.

A conta mensal dos aposentados dos poderes é de R$ 10 milhões, cerca de R$ 130 milhões anuais, somando o 13º salário. Os poderes não aceitam de volta a conta dos seus aposentados, nem mesmo com a adoção negociada de um período de transição.

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Diretas Já

 

Neste domingo, às 15 horas, nos Arcos da Orla de Atalaia, a Frente Brasil Popular realiza mais um ato de protesto com o lema “Eleições Diretas já! Contra as Reformas da Previdência e Trabalhista! Fora Temer!”

A Frente Brasil Popular é constituída pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), União Geral de Trabalhadores (UGT), Levante Popular da Juventude, Movimento Sem Terra (MST), Movimento Camponês Popular (MCP), MPA (Movimento de Pequenos Agricultores) Advogados Pela Democracia, Conselho Regional de Serviço Social (CRESS), PC do B, Consulta Popular, PT, entre outros.