O grito e o murmúrio das notícias

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Publicada em 26/05/2017 às 00:47:00

Antonio Passos

 

Engana-se quem acredita que toda a mensagem está no dito. O que se fala ou se mostra é uma escolha, entre outras possibilidades do dizer e do mostrar. Logo, junto ao dito está sempre o não dito, este como possibilidade omitida por aquela específica intenção manifestada. Estar atento ao não dito é, assim, sempre uma possibilidade de ver, ler ou ouvir aquilo que não se quis mostrar, escrever ou falar.

As grandes empresas de comunicação no Brasil – que poderiam ser todas consideradas uma só, pela semelhança dos seus respectivos conteúdos jornalísticos – insistem em dizer que as notícias levadas ao ar são transmissões imparciais dos fatos. Contudo, a veiculação das notícias e o não dizer que também nelas aparece deixa nua a intenção encoberta pelo argumento da suposta imparcialidade.

Uma cena típica da aparição desse ruído, entre o que se quer mostrar e o que se mostra, tem ocorrido ultimamente em transmissões da poderosa Rede Globo. É aquela situação, já não tão incomum, quando um repórter faz um comentário, ao vivo, e alguém aparece segurando uma placa com a frase “Globo Golpista”. Porém, quero referir-me às notícias editadas antes de serem veiculadas.

Mesmo quando o repórter leva a matéria para a redação ou para o estúdio e ali é feito o trabalho de assepsia, quando são cuidadosamente excluídos todos os elementos considerados infecciosos para os interesses dos donos do meio, ainda assim, o que não se quer mostrar aparece sempre que for dada alguma atenção ao não dito. Esse não dito que, muitas vezes, é tão explícito quanto o que se escolheu dizer.

Um caso ilustrativo para a argumentação acima é a cobertura da TV feita durante a saída da presidenta Dilma do Palácio do Planalto, de lá enxotada pelo impeachment. Toda a ênfase televisiva foi no sentido de mostrar a desgraça de um projeto de governo enfim humilhado e expulso do poder. Porém, sem que se quisesse, também ali restou registrada uma cena rara de lealdade na política brasileira.

O que corriqueiramente vemos quando um político é destituído do poder? Rei morto, rei posto – não é esse o ditado? É o oportunismo extremado, a opção por estar sempre ao lado dos que aparecem bem na foto e negar qualquer relação com os que estão por baixo. O contrário disso fez Lula. Naquela via crucis imposta à primeira mulher a governar o Brasil, ele está ao lado dela em todas as imagens.

Agora que a popularidade de Lula se revigora – apesar do esforço das grandes empresas de comunicação do país para promoverem o contrário – muitos se dizem perplexos diante de tamanha resistência política. Insistem em atribuir a isso as justificativas mais torpes. Porém, esquecem que algumas virtudes – a lealdade, por exemplo – tocam fundo nos corações de grande parte do povo brasileiro.

Naquele dia, tudo que a TV quis foi exibir a desgraça da esquerda encarnada em Dilma e Lula. Muitas piadas circularam nas redes sociais com a expressão triste e os cabelos assanhados de Lula, ao lado de Dilma no derradeiro discurso dela ao deixar o Palácio do Planalto. Porém, sem querer, no âmbito do não dito, mostraram uma rara cena de lealdade política no Brasil contemporâneo.