Mulheres de Peito

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Publicada em 27/05/2017 às 16:38:00

No começo de março de 2016, morria Sarah Núbia Passos, aos 38 anos. Ela fazia tratamento para combater um câncer de seio e era integrante do grupo “Mulheres de Peito”, que lutava diuturnamente contra o descaso e irresponsabilidade dos gestores do Hospital de Urgência de Sergipe (HUSE) e do Hospital Cirurgia. Na época, Sheila Galba, também militante do movimento, em entrevista à jornalista Aldaci Souza, da Infonet, disse: “Em particular, estou muito mais triste. Sarah Núbia iniciou o tratamento igual comigo ano passado. Ela lutou para realizar as sessões de radioterapia antes de fazer a cirurgia, quando conseguiu se submeter à cirurgia, estava até melhor, mas apareceu metástase e até mesmo uma metástase externa, com tumores no braço e o retorno da doença no mesmo lugar. Sarah lutou junto comigo para um tratamento de radioterapia digno e eficaz que não tivemos. Ela não suportou, o câncer voltou mais agressivo. Eu volto a perguntar: Quantas pessoas perderemos para essa doença? Por não ter um tratamento como deveria ser? O câncer não espera máquinas serem consertadas, repito, o câncer não perdoa, ele não tolera falhas nesse tratamento! Fiquem sabendo que eu tenho medo do futuro!”. Sarah deixou dois filhos, um de 15 anos e outro de seis.

Na última quarta-feira, o TCE-SE foi palco de uma reunião dita como histórica pelo seu presidente, Clóvis Barbosa. O encontro tinha como escopo discutir a questão do tratamento do câncer no Estado de Sergipe. Estiveram presentes, além do presidente da instituição, conselheiros, o Secretário de Saúde de Aracaju, o Secretário de Estado da Saúde e a atual direção do Hospital Cirurgia. Depois de três horas de reunião, o discurso do presidente do TCE foi de indignação com o sistema e bastante violento: “Temos que ter consciência do quanto é grande a nossa dívida, enquanto gestores, prestadores de serviços e órgãos de controle. Nós fracassamos! Quem vai pagar pela morte da estudante de Aracaju, Iva Leite, 22 anos, que morreu em 30 de janeiro de 2016? Quem vai pagar pela morte da professora de Nossa Senhora Aparecida, Maria José Barreto, de 58 anos, que morreu em 7 de dezembro de 2016? E Sarah Núbia Passos, de 38 anos, que morava em Neópolis e faleceu em 5 de março de 2016? Elas morreram por culpa única e exclusiva do poder público, que não prestou um serviço adequado, apesar do Governo Federal cumprir com o seu papel de remeter mensalmente os recursos necessários para o tratamento dos pacientes da doença. Essas mulheres foram humilhadas. Elas só queriam viver um pouco mais, ter um tratamento decente, contudo, a ganância, o mercantilismo, a falta de vocação para o exercício de cargo público contribuíram para a morte dessas meninas e de tantas outras”.

O discurso de Clóvis Barbosa passou despercebido. A denúncia é grave. Se o governo federal encaminha os recursos para o tratamento do câncer, via prefeitura de Aracaju que, por sua vez, repassa para os prestadores de serviço, como é o caso do Hospital Cirurgia, onde foi parar o dinheiro? Por que, na administração João Alves, ninguém aguentava mais ouvir denúncias de interrupções das aplicações de quimioterapia pelo Hospital Cirurgia? Todos sabem, não precisa ser especialista, do prejuízo que é causado ao paciente pela suspensão do tratamento. E as inúmeras paralisações nos tratamentos ocasionadas pela falta de manutenção dos aparelhos de radioterapia? É preciso que seja dada uma resposta à sociedade desse mundo de irresponsabilidade que tomou conta da saúde em Sergipe.

Sabemos que temos um novo Secretário de Saúde no Estado, Almeida Lima, na Prefeitura de Aracaju, André Sotero, e de um novo gestor no Hospital Cirurgia, Milton Santana. Todos eles têm a obrigação de mudar esse quadro trágico que tomou conta da saúde em nosso Estado, buscando dar ao paciente do câncer o tratamento adequado, seja na cirurgia, na radioterapia, na quimioterapia, ou mesmo na hormonioterapia. Quanto ao Tribunal de Contas e outros órgãos de controle, como o Ministério Público Federal e Estadual, poderiam começar fazendo uma devassa no Hospital Cirurgia. Por exemplo, poderiam iniciar uma auditoria para saber onde foi parar R$ 1 milhão dado pelo Governo do Estado para a construção de um bunker para a recepção de aparelhos de radioatividade, cujos recursos para a sua aquisição encontram-se disponibilizados há anos. E a Operação Antidesmonte, quando vai apresentar o relatório de Aracaju, na gestão João Alves? Parece que Clóvis Barbosa tem razão: todos fracassaram.  Menos, obviamente, as mulheres de peito.

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Os novos dirigentes têm a obrigação de mudar esse quadro trágico que tomou conta da saúde em nosso Estado, buscando dar ao paciente do câncer o tratamento adequado, seja na cirurgia, na radioterapia, na quimioterapia, ou mesmo na hormonioterapia. Quanto ao Tribunal de Contas e outros órgãos de controle, poderiam começar fazendo uma devassa no Hospital Cirurgia

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Novos processos

 

Em paralelo à Ação Penal que corre no Tribunal de Justiça sobre o ‘Caso Amanova’, um dos desdobramentos do ‘Escândalo das Subvenções’, quatro novas investigações criminais foram abertas em segunda instância contra os deputados Augusto Bezerra (PHS) e Paulinho da Varzinhas (PT do B), que retomaram seus cargos nesta semana por força de habeas-corpus do Supremo Tribunal Federal. Tais processos ainda correm em segredo de justiça, mas três deles já resultaram em denúncias ao desembargador Roberto Porto e um ainda está em Procedimento Investigativo Criminal (PIC) no âmbito do Ministério Público Estadual.

A informação consta na última liminar que o desembargador Roberto Porto concedeu dentro do ‘Caso Amanova’ para negar o retorno dos parlamentares. Ele transcreveu um trecho do relatório feito pelo procurador-geral José Rony Almeida, citando-o como um dos motivos para negar o retorno dos deputados à Alese. Segue o trecho:

 “Os requerentes Paulo Hagenbeck e Augusto Bezerra estão sendo investigados por desvios milionários de verba de subvenção do instituto Laurear nos anos de 2012 e 2013, juntamente com o então diretor financeiro Nollet Feitosa, nos autos do processo n. 201600108753”.

“O requerente Augusto Bezerra foi recentemente denunciado (distribuído em 05/05/2017) por peculato por se apropriar de, aproximadamente, 90% da remuneração de diversos servidores da Alese e Casa Civil nos autos do processo n. 201700110639”.

 “O requerente Paulo Hagenbeck foi denunciado (duas denúncias) por peculato, quadrilha e lavagem de dinheiro por se apropriar das verbas de subvenção social das associações Piçarreira e Cambuí, nos autos do processo n. 201500124632 e 201500124636”.

“Os requerentes Paulo Hagenbeck e Augusto Bezerra estão sendo investigados na Promotoria do Patrimônio Público por suposto enriquecimento ilícito por participação do esquema fraudulento de fornecimento de notas frias da Elo Consultoria e Alcivan Menezes para recebimento de verbas indenizatórias da Alese”.

A investigação sobre a Elo e as verbas indenizatórias está relacionada aos desdobramentos da ‘Operação Indenizar-SE’, que descobriu desvios de R$ 7 milhões na Câmara Municipal de Aracaju e sob a qual há suspeitas do MP de que o esquema se repetiu na Assembleia. Já os processos da Laurear e da Piçarreira são outros dois casos relacionados ao ‘Escândalo das Subvenções’, que trata do uso irregular de R$ 12 milhões em verbas distribuídas a entidades indicadas pelos parlamentares.

O procurador Eduardo D’Ávila, responsável pela acusação no processo contra os deputados, prefere não falar dos novos processos, alegando o segredo de justiça.

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De olho na prefeitura

 

Desde que voltou a ser deputado estadual, em 1º de fevereiro, o radialista Gilmar Carvalho trabalha com dois objetivos imediatos: ser o deputado mais votado em Aracaju nas eleições de 2018 e, dois anos depois, ser candidato independente a prefeito de Aracaju.

Se já fazia do rádio um trampolim para seus objetivos políticos antes dessas metas tão ambiciosas, hoje ele transformou seus programas na rádio Mix FM (manhã) e na TV Atalaia (início da noite) em verdadeiros palanques, onde faz de tudo: visita pessoas carentes, oferece advogados, tratamento de saúde, reforma imóveis, doa cadeiras de rodas e camas hospitalares, além de bater, do início ao fim dos programas, no prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, seu potencial adversário nas eleições de 2020.

Parece até uma novela roteirizada, com o objetivo de levar sempre o prefeito Edvaldo às cordas. Alguns exemplos:

Após a solução praticamente definitiva da crise da limpeza pública e da greve dos médicos, mal o prefeito pôde respirar aliviado e mais de 250 famílias ocuparam a sede da Prefeitura, se instalando lá por três dias, em condições precárias, e impossibilitando o pleno funcionamento da instituição.

Resolvido o problema dos ocupantes/invasores da Prefeitura, a cidade, que depois de muitos anos não recebia tão forte carga de chuvas, teve sua estrutura afetada gravemente. Não obstante, a Prefeitura, em suas várias unidades e secretarias, atuou desde as primeiras ocorrências de chuva. Não resolveu definitivamente a maioria dos problemas, mas fez o que se deve fazer nestes casos: providenciou imediatamente as medidas paliativas para enfrentar os estrados e mobilizou suas equipes para prestar a assistência aos desabrigados.

Gilmar não perdoa. Agora insinua que o prefeito é folgado – “se eu fosse o prefeito estaria 24 horas por dia à disposição do povo de Aracaju” – e que não se preocupou com a captação de recursos para a realização do Forró Caju.

O curioso é que para evitar problemas futuros, Gilmar passa todos os programas paparicando os integrantes do Ministério Público. É campanha eleitoral explícita, com o beneplácito de todos.