A história grudada em Maluf

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Publicada em 02/06/2017 às 00:48:00

Antonio Passos

 

A figura política de Paulo Maluf é conhecida de nós brasileiros há mais de trinta anos. Maluf emergiu acolhido por elitistas que viam nele um magnífico empreendedor. Mas, também, desde cedo, foi denunciado como corrupto pelos partidos de esquerda. Hoje, Maluf se dá ao luxo de ser condenado à prisão pelo STF e insinuar, via advogados, que vai pedir perdão devido à idade avançada.

Se perdoado Maluf terá vencido, independentemente da condenação por autoria de atos praticados e denunciados. Se não pode mais ser alcançado pela justiça, ele a venceu. E, ao que tudo indica, seria ou será uma vitória definitiva, visto que a cada dia ele estará mais protegido pela idade. O tempo agora andará ao seu favor e a justiça não o alcançará mais, sem nunca antes tê-lo alcançado.

No Brasil de hoje, no qual vemos todos os dias políticos, empresários e executivos convocados para depor e até trancafiados pela justiça, a façanha de Paulo Maluf não pode passar em branco. O que a história dessa figura tem a nos dizer? Certamente, o que virá a ser dito terá relação com a política – passarela por onde Maluf desfilou sua vida pública – e com o poder judiciário.

Ao ser parido na cena pública, de cara, Maluf causou constrangimentos. Surgiu abraçado e de mãos dadas com os governos militares e já naquele tempo era acusado de corrupção. Mas, o que estaria havendo? Não eram os governos militares combatentes da corrupção? Como justificar a presença de Maluf na roda? Bom, muitos são os incômodos de convivência silenciados.

Maluf fazia piada com as acusações disparadas contra ele pela esquerda. Logo, deve-se observar que aquele era um Brasil no qual um acusado de praticar atos de corrupção sentia-se muito mais protegido que hoje. Caixa dois? Nas conversas do dia-a-dia se comentava que o dinheiro corria solto nas campanhas eleitorais dos partidos de direita, mas, no poder judiciário, as denúncias murchavam.

Contudo, “há mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã filosofia”. Maluf foi apresentado como candidato dos militares em uma eleição indireta para eleger o primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura. A eleição seria favas contadas, porém, Maluf perdeu para o moderado Tancredo Neves, candidato da oposição. Isso mesmo, o avô da estrela tucana Aécio Neves.

Maluf e seus aliados foram surpreendidos. Alguma coisa havia mudado no Brasil e escapado à percepção deles. Como se diz, foram pegos com as calças na mão e tiveram que aceitar a nova situação. Esse, suponho, deve ter sido o primeiro revés político de Maluf. Alguma coisa não deu certo, mas, seguramente, àquela altura, seria um exagero associar a derrota ao rótulo de corrupto.

Eis que ocorre uma grande reviravolta. Tancredo Neves morreu antes da posse e o país foi entregue nas mãos do vice, o maranhense José Sarney. Vendo o palácio do planalto se distanciar do seu alcance, restou para Maluf a concentração ou restrição da presença política nos limites do estado de São Paulo. Uma situação que guarda alguma semelhança com o que ocorre hoje ao PSDB.

Com a marcha do governo Sarney, acusações de corrupção passaram a pipocar no burburinho das esquinas. O Brasil mudava muito pouco, as grandes desigualdades e injustiças permaneciam, porém, era possível gritar nas ruas e publicar em jornais alternativos denúncias de corrupção. Maluf, contudo, não perdeu a majestade. Continuou sendo apontado pela esquerda como o pior dos corruptos.

Aqui e ali surgiam notícias sobre procedimentos abertos para investigar atos de corrupção atribuídos à Maluf, mas, ele continuava rebatendo as acusações com ironia e sorrisos. As denúncias eram gritadas nos discursos da esquerda e ecoavam nas conversas de mesa de bar. A grande imprensa fazia vista grossa, pois, desde então, colaborava abertamente com os políticos e partidos da direita.

Maluf atravessou décadas na extrema direita do partidarismo. Começou na ARENA, passou pelo PDS... O google me diz que ele hoje está no Partido Progressista. Nessa longa caminhada deteve por muito tempo a legenda, atribuída pela esquerda, de maior dos corruptos. Todavia, esse título foi caducando por força da circulação de denúncias de corrupção envolvendo mais e mais personagens.

Agora, a nossa história já chega ao século XXI. Alguma coisa ou muitas coisas mudaram no Brasil, apesar de tantas outras continuarem estáticas. Fato é que estamos assistindo a uma sucessão de prisões motivadas por denúncias de corrupção. Algumas acusações comprovadas e outras bem nebulosas. Certamente, o hoje é um tempo diferente daquele no qual floresceu Maluf.

 Vivenciamos uma confusão inusitada no campo político e há muitas dúvidas voltadas para a condução das ações do poder judiciário sobre a política. A liberdade e o poder de investigação são crias da democracia, mas, em algumas cartadas, parecem atentar contra o seio materno. Como de tudo isso fazer um Brasil melhor? Não para os interesses sistêmicos, mas, para a vida e a convivência? Eis a questão.

 

Antonio Passos é jornalista