Roteirização de factóides

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Publicada em 02/06/2017 às 00:59:00

Luciano Correia

 

Na era da pós-verdade, não tem sido fácil para nós da Prefeitura de Aracaju, que desde janeiro lidamos com a enorme responsabilidade de reconstruir uma cidade destruída física e moralmente, ter que enfrentar a onda diária de notícias falsas, distorções, mentiras e ataques desferidos por pessoas ligadas ao candidato derrotado. Jamais vi em toda minha vida tamanha tentativa de desconstrução, de resistência, inclusive a um resultado eleitoral. Como se este resultado fosse ilegal ou ilegítimo. Ou talvez o objetivo seja este mesmo: tirar-nos do foco de nossa tarefa diária, que leva em conta a população de Aracaju e o respeito que ela merece, para nos enredar na roteirização diária de factóides, a tal pós-verdade a que me refiro acima. Alguém já disse que o diabo vive nos detalhes. Querem nos distrair com isso o tempo inteiro.  Poderia listar aqui, desde janeiro, pelo menos umas dez manifestações dessa orquestração, com nome e autor. Mas, pelo mesmo motivo de não aceitar o convite ao desvio, não irei fazê-lo.

Agora é uma fala do prefeito Edvaldo Nogueira, que, rigorosamente, disse o seguinte: fazer o Forró-Caju só com artistas locais atrai um público menor do que se a festa contar com duas ou três atrações nacionais. Isto é fato, não consumado pelo prefeito, mas pelas lógicas de funcionamento do mundo dos espetáculos, do gosto do público, um gosto médio, é verdade, mas o gosto do público. Pronto. Foi o bastante para decuparem a fala numa operação minuciosa, para, a fórceps, retirarem dela aquilo que se pretendia que existisse: que o prefeito fosse flagrado numa desqualificação dos artistas locais.

Edvaldo Nogueira vive em Aracaju desde os 15 anos. Como eu, nasceu e viveu em outra cidade, mas veio para a nossa capital jovem e fincou raízes em todos os níveis possíveis, inclusive no universo da cultura local. Percussionista desde menino, já tocou bateria no que antes chamavam de "conjunto", hoje bandas. Como percussionista, toca zabumba e, inúmeras vezes, irrompeu nos palcos do Forró-Caju para acompanhar artistas locais ou regionais com seu toque de zabumba. Ninguém inventaria o personagem político-zabumbeiro para amealhar simpatias da opinião pública. Só uma mente precária poderia supô-lo.

Mas desconstruíram a fala do prefeito e a reconstruíram para adaptá-la ao figurino da encomenda. A encomenda? Os oportunistas de sempre, desocupados de toda sorte, gente excluída do mundo da vida muito mais por sua fragilidade e obsolescência, do que os supostos preconceitos de uma autoridade. Não me espantam, a vereadora e a cantora aposentada: são isto mesmo, no tamanho e na forma que se apresentam. A primeira, xenófoba, do DEM de João Alves, portadora de um azedume que flerta com o fascismo, depois de cumpliciar com o desgoverno irresponsável que vitimou nossa cidade por quatro anos, agora apega-se a filigranas semióticas para buscar seus 15 segundos de notoriedade. Que lástima! Que rarefeita! Não representa em nada a instituição de onde vem, rica em inteligência e talentos, com quem deveria aprender, para não fazer de um nobilíssimo mandato de vereador uma tolice sem causa. A segunda, lamentavelmente, abriu mão de cantar para se tornar aparelho partidário e, o que é mais grave, no pior dos governos que Aracaju já teve. Para não sair do meio artístico, vou repetir aquela frase de Caetano, quando tentaram atacar João Gilberto: vaia de bêbado não vale!

 

Luciano Correia, doutor e comunicação e professor da UFS,

é secretário municipal de Comunicação Social