Medo de Lula

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Publicada em 03/06/2017 às 00:23:00

Marcos Coimbra 

 

As elites brasileiras estão como baratas tontas por uma razão que tem nome: Luiz Inácio Lula da Silva. Não fosse o medo que têm dele, haveria uma saída natural para a enrascada em que meteram o País e que as deixa baratinadas.

Elas mantinham-se coesas desde o segundo semestre de 2015, quando decidiram pôr de lado suas diferenças e ir juntas derrubar Dilma Rousseff. Sempre concordaram no fundamental, pois nunca esqueceram seus interesses de longo prazo. Mas a unificação de táticas do cotidiano foi cimentada somente quando entraram em acordo para tirar o PT do governo e reassumi-lo na plenitude.

Hoje, aquela coalizão desmoronou e um setor nem imagina o que outro pretende, como estamos vendo no comportamento dos conglomerados de mídia. Depois de um enfadonho período, em que todos diziam as mesmas coisas, até com idênticas palavras, agora é cada um por si. 

Não era certo que estouraria um escândalo do tamanho desse das delações da JBS, mas era previsível. Ter na cadeira presidencial um personagem como Michel Temer é um risco permanente.

Ninguém tem o direito de se fingir surpreso com ele. O Temer de maio de 2017 é igual ao de toda a vida. Dar expediente no Palácio do Planalto não lhe mudou a natureza.  

Sua turma rapidamente expôs-se, provocando mudanças no primeiro escalão em ritmo quase mensal. Faltava a “bomba do Riocentro”, aquela que explodiu no colo de um sargento do Exército em 1981, deixando óbvio de onde vinham os terroristas que praticavam atentados para perpetuar a ditadura de 1964. As delações da JBS são a bomba no colo de Temer. 

Para quem distorceu os fatos a ponto de enxergar crime de responsabilidade de Dilma em atos administrativos que todos os presidentes praticaram, as fitas gravadas e os depoimentos dos irmãos Batista deveriam ser amplamente suficientes para justificar o impeachment de Temer. Todo mundo sabe disso, incluindo o próprio, que se agarra a tecnicalidades para reduzir o impacto dos fatos.

Sacar da manga a carta do impeachment é uma jogada muito séria. É algo tão fora da normalidade institucional que os constituintes de 1988 nem sequer consideraram necessário tratá-lo em detalhe. Se tivessem sido capazes de antecipar quantas vezes nos veríamos às voltas com processos desse tipo, talvez fossem mais cuidadosos.

Desde então foram dois, e o próximo está na ordem do dia. Se e quando Temer sofrer o seu, serão três em menos de três décadas, um provável recorde mundial. A instabilidade institucional da época das quarteladas, comparada a esta, chega a ser pequena.

Nem é preciso dizer quão inconveniente é recorrer a processos de impeachment presidencial a toda hora. No mínimo, produz uma justificada descrença no processo de escolha do presidente da República pelo voto popular, um esteio fundamental da democracia como a entendemos no Brasil. Fernando Collor levou três anos para cair e Dilma saiu com um ano e meio. Agora é a vez de Michel Temer.

 É bem possível que, a esta altura, boa parte (pelo menos a parte pensante) da coalização que derrubou Dilma esteja se perguntando se valeu a pena tirá-la. Se talvez tivesse sido mais conveniente deixá-la enfraquecida no posto, onde tentava fazer muitas das coisas que a turma de Temer está fazendo, enfrentando a mesma impopularidade e comprometendo, talvez de maneira irreversível, a imagem de Lula e do PT.

Com sua arrogância somada à falta de conhecimento do País, as elites fizeram outra coisa. Tiraram Dilma, colocaram Temer no lugar e agora têm de lidar com suas traquinagens. Enquanto isso, Lula tornou-se favorito a vencer a próxima eleição.

Depois de irmos longe na invenção de soluções institucionais de araque e depois que centenas de empresários delataram haver distribuído recursos a milhares de candidatos, agora que o Congresso Nacional é visto com desconfiança pela unanimidade das pessoas, escolher o sucessor de Temer por via indireta é um despropósito. Quase a totalidade da população quer a eleição direta.

É verdade que a Constituição não prevê a possibilidade. Mas ela tampouco autorizava, por exemplo, o congelamento do gasto público por 20 anos, algo que as elites não hesitaram em promover, em que pese o seu custo social.

Só há um motivo para que fujam dessa saída, preferindo tapar o nariz e seguir com Temer ou transferir a escolha aos parlamentares: o medo de Lula. É a convicção de que ele venceria a eleição que faz banqueiros, políticos conservadores e donos de veículos de comunicação evitarem a solução natural.

Escapar da eleição direta, contudo, vai além de apenas querer impedir a volta de Lula. É ser contra o desejo daqueles que, provavelmente, o elegeriam. É negar a democracia.

 

Marcos Coimbra é sociólogo e diretor do instituto Vox Populi