O cheiro das priquitinhas juninas

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Publicada em 08/06/2017 às 08:26:00

Rangel Alves da Costa

 

A cada ano, como uma diversa revoada, o período que antecede os festejos juninos vem trazendo consigo o cheiro das priquitinhas. Cheiro forte, marcante, bem característico de todo chinelo, sandália ou alpercata de couro cru.

São as priquitinhas juninas que são trazidas de outros estados - principalmente Bahia e Pernambuco - e passam a fazer parte das paisagens aracajuanas, pois estão por todo lugar, em toda esquina, debaixo de cada marquise.

Ainda são poucas pela cidade. Apenas num ou noutro lugar é possível avistar algum vendedor carregando penca de priquitinhas ou mesmo com elas expostas ao chão. Talvez seja a crise que também tenha alcançado os produtores artesanais dessas chinelas tão apreciadas pela população nordestina.

Mas a tradição do comércio dessas chinelas deverá se acentuar nos próximos dias ou semanas. O mês de junho já chegou, as bandeirolas já enfeitam as lojas, os enfeites juninos já são avistados de banca a banca. E uma coisa que não pode faltar é a priquitinha.

E não pode nem deve faltar por muitos motivos. Não há São João, Santo Antônio ou São Pedro, sem priquitinha. Não tem sentido algum arrastar os pés por algum salão forrozeiro sem que seja levando consigo o cheiro da priquitinha. Todo nordestino que se preza faz da priquitinha sua companhia de toda hora no período festivo.

As priquitinhas são inseparáveis das mais autênticas quadrilhas juninas. Estão nos pés tanto dos dançadores como dos tocadores de forró. Os turistas, principalmente estrangeiros, ficam encantados quando se deparam com uma priquitinha nova, bem trabalhada, sedosa, com o seu cheiro tão peculiar e atraente.

Como diz o outro, tem até gente que não gosta, mas nunca houve nada melhor que ter uma priquitinha para usar nas devidas ocasiões ou mesmo a qualquer momento do dia. Não há contraindicação, somente proveito e prazer. Quando nova ou de pouco uso, a priquitinha é sempre leve, um pouco apertada, mas logo amaciada pelo uso.

Tem gente que ansiosamente espera esse período apenas para comprar seis ou mais priquitinhas e assim ter sempre reserva para usar o ano todo. Quando perguntado o porquê de tanto gosto pela chinelinha de couro cru, logo responde: Ora, se não tenha da outra, o jeito que tem é usar dessa priquitinha mesmo. Ao menos o nome e o cheiro me fazem lembrar alguma coisa.

Sem pretender erotizar a seriedade do texto, a verdade é que não se pode negar que a denominação de priquitinha a esse tipo de sandália de couro surgiu mesmo como referência à genitália feminina. Por motivos que não exigem maiores esclarecimentos, diziam que o cheiro da sandália nova era o mesmo da outra priquitinha em determinadas situações.

Deveras, peculiar é o cheiro da priquitinha junina. Mas neste aspecto, também em situações diferentes, pois apresenta cheiros diferenciados segundo seu estado de uso. Quando nova, intacta, a sandália possui o cheiro forte e adocicado, levado ao odor de suor. O mesmo cheiro sempre presente nas selas de couro cru, nos rolós, nos chapéus, nas indumentárias feitas pelos artesãos do couro. Só que com menor acentuação, menor exalação.

Com a constância do uso, a priquitinha vai perdendo a estranheza do cheiro forte. Sequer é sentido qualquer fragrância marcante. Apenas com o suor dos pés é que ela retoma um pouco de seu aroma suarento. Contudo, tudo desanda quando ela é molhada. Então é um deus nos acuda. E há até gente que diga que já não cheira mais a priquitinha, mas a outra coisa no mesmo sentido.

Realmente, quando a priquitinha, já usada, afadigada de tanto pisar, está molhada, passa a exalar um odor quase insuportável. Todo o cheiro é redobrado, triplicado, tornado quase em putrefação. Daí que muitas vezes os salões forrozeiros ficam empesteados da mistura do suor e das sandálias de um couro ainda cru, molhado e ainda secando ao sol.

Mas nada disso afasta o gosto e o prazer de estar usando um desses chinelos de couro. É a aparência junina amoldada ao conforto que ela proporciona. Igualmente se diga com relação à aparência matuta, caipira, nordestina e sertaneja. E gente há que possui uma alma nordestina tão grande que sempre usa chapéu de couro e alpercata de couro cru, mesmo nas capitais.

Contudo, não se vista mais a quantidade de vendedores de tempos atrás. No passado, essa época do ano era de ruas completamente tomadas por pessoas carregando pencas de priquitinhas. Agora são em número bem menor, mas oferecendo sempre, e a preço bom, o chinelo ao gosto da freguesia.

Será a feição junina em tempos novos que vem diminuindo suas tradições tão próprias? Também. Exemplifica-se em muitas situações, desde a ausência do autêntico forró à nudez das ruas outrora enfeitadas de bandeirolas.

Os dias e as noites juninas não são mais aquelas. As fogueiras foram praticamente esquecidas, as comidas típicas escassearam. Os fogos já não passeiam mais nos céus como antigamente. Apenas um mês. Um mês e suas priquitinhas para fazer relembrar.

 

Rangel Alves da Costa é advogado, escritor e membro da Academia de Letras de Aracaju.

www.blograngel-sertao.blogspot.com