A chama da memória que não apaga, a verdade e o culpado inocente

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Publicada em 09/06/2017 às 07:41:00

Eduardo Almeida

 

É interessante como a chama da memória para uns se apaga e para outros não. Lógico, a depender da conveniência. Aliás, conveniência é tudo, inclusive e principalmente (!) na política.

Sempre escuto comentários ou me questionam diretamente sobre o por que de meu Pai, Walmir Almeida, ter incinerado seu acervo fotográfico e que, segundo ele, foi o fogo mais bonito que já viu na vida!

Claro que hoje, memorialista que me considero ser, pois possuo mais de cinco mil imagens arquivadas e conhecedor do conteúdo daquele acervo, não permitiria tal ato, porém, percebo que o hoje não é o ontem, e me perdoo pelo desconhecimento de outrora, o mesmo que me alforria de qualquer culpa.

Espero também que esse texto alforrie os demais e esclareça, iluminando as mentes questionadoras com a verdade dos fatos.

O fato é que, durante vários governos que meu Pai serviu como fotógrafo oficial do Palácio do Governo de Sergipe, como também produziu documentários e cine-jornais que eram lançados na Ponte Cinematográfica Nacional, no Canal 100, mostrando ao Brasil as belezas e acontecimentos do nosso estado. Esteve ao lado de autoridades, uns tantos que pensavam ser, pessoas ilustres e ilustres desconhecidos, fatos inusitados, toscos e pitorescos, paisagens de outrora até então desnudas e que hoje abrigam prédios e casas, inaugurações, funerais de famosos e toda uma sorte de acontecimentos sociais e políticos que se fizeram presentes na história de Sergipe. Leia-se nesse 'vários governos', Leandro Maciel, Luiz Garcia, Lourival Batista, General Maynard, etc.. “As mais belas imagens aéreas do nosso estado”, segundo o Governador Lourival Batista, que também o intitulou de 'O Mestre das Lentes'.  Até mesmo o Presidente João Goulart, quando foi convidado por este para compor sua comitiva em uma visita política aos países platinos, mas isso é uma outra história.

Tinha seu emprego no Palácio e por fora já empreendia, tendo também seu próprio estabelecimento comercial, a Cine Foto Walmir, além dos serviços prestados de fotos sociais e aéreas, venda de aeronaves, carros, etc. Empreendedor nato.

Com o aumento do seu acervo, chegou à conclusão de que a quantidade de memórias estava aumentando substancialmente, ocupando espaço considerável em sua pequena loja, não poderia manter aqueles negativos e fotos conservados por muito tempo visto não dispor de ambiente refrigerado e algumas dessas fotos e negativos já estavam se deteriorando, colando, devido ao calor e consequente suor da gelatina das fotos, inutilizando a imagem para futuras reproduções e que poderia contribuir para a memória do seu estado e país, DOANDO seu acervo!!

Procurou então alguém que tivesse o porte necessário - físico e financeiro - para suportar a responsabilidade que iria junto ao acervo em conservar aquele material, dando-lhe continuidade ad eternum, e nada mais prático e rápido, já que estava inserido no meio, que o próprio governo do estado!

Bateu em portas de secretarias de cultura, estadual e municipal, amigos secretários de outras pastas, governadores, e...nada! Ou melhor, recebia sempre o ”vamos ver o que se pode fazer.”.

Nesse “vamos ver”, entrava e saía governo e…nada! Nada para a doação e consequente correto armazenamento, pois para as fotos e negativos, a natureza corria rápida, proporcionando a deterioração que inutilizava a cada dia as imagens.

Entrava ano e saía ano, novos governos, novos secretários e, apesar dos insistentes pedidos de meu Pai, frisando que não queria um centavo pelo material e estava DOANDO(!), seus pedidos eram em vão, pois os homens que estavam à frente da cultura e da educação, que deveriam perpetuar a memória do seu estado, faziam ouvidos de mercador. As fotos e negativos? Em processo contínuo de deterioração…

Pois bem, desgostoso que estava, vendo seu acervo se acabar, repleto de promessas de salvação, tais quais as indulgências, tomou a firme decisão – e final! - de entregar as memórias ali contidas, as que sobraram, ao fogo do esquecimento, às chamas da memória.

Tentou uma última vez, agora em tom “ameaçador”, avisando que faria a fogueira “santa”, que entregaria ao além as imagens ali contidas, visto suas clamores não serem ouvidos pelos 'homens de boa vontade' e que não seria julgado no purgatório por tal ato, em face das suas tentativas de salvação. Em sua última oferta de promessa recebida, agradeceu, fez sua oração e acomodou todo o material em seus alaúdes, caixas de papelão que agora continham farta memória de tempos idos, os mesmos que dizem que não voltam mais e que contesto esse dizer, pois as memórias os trazem de volta.

Lembro-me como se fosse hoje. Era mais uma das tardes ensolaradas de sábado que religiosamente íamos para o Aeroclube para darmos um voo em seu avião e passear pelos céus de Ará. Eu, meu irmão e meu Pai. Fomos na Brasília branca 4 portas recém-adquirida e novidade na época, pois esse modelo de carro, invariavelmente era comercializado apenas com duas portas. Conosco iam caixas grandes, cheias de fotos e negativos em seu féretro para o descanso final, desfilando em anonimato, passando inclusive por locais onde outrora foram registradas.

Lá chegando, meu Pai pediu que nós levássemos o carro até a área da biruta, (sinalizador de direção do vento) e tocasse fogo nas caixas com seu conteúdo, até então desconhecido por nós. Dito e feito. Eu e meu irmão tiramos as caixas, espalhamos o conteúdo no mato que insistia em crescer, inundamos com querosene e ateamos fogo, no caso eu, com o simples riscar de um fósforo, nos afastando para fugirmos das chamas que já se faziam grandes, queimando não apenas fotos e negativos, mas história pura de nossa terra, do Brasil e do mundo, visto meu Pai ter sido um respeitado profissional também além fronteiras.

Fiquei ali admirando, na minha inocência de criança, a beleza do fogo, a mesma que meu Pai, em sua revolta, alardeava ser o mais bonito que já viu na vida. Eu, pura e simplesmente, enxergava apenas chamas e labaredas em suas tonalidades quentes e coloridas.

Fica então a culpa. Pra quem? Pra meu Pai que tomou a decisão após uma década - falei uma década! - batendo em portas suplicando por salvação de algo que não lhes custaria um centavo, visto estar sendo doado e que estava se deteriorando a olhos vistos? De mim, que com o acender de um fósforo pus na memória etérea a história ali contida? Ou para os homens que podiam fazer algo e não fizeram para salvar aquelas memórias em um completo descaso com a história social e política do seu estado? Aqui cabe a 'conveniência' política. Arrumar um espaço refrigerado e próprio para arquivar um acervo daria voto? Teria repercussão positiva? Cultura dá voto?

                Como quem sabe da notícia não sabe do fato, correu pelos tempos apenas a informação de que “Walmir tocou fogo em seu acervo...”. Ninguém perguntou o por que, a razão, o que o levou a fazer aquilo, por que não procurou o governo para doar, nada, absolutamente nada!

                Mas, após o fato, surgiram 'memorialistas', 'pessoas preocupadas com a memória do estado', pessoas que, 'se soubessem' teriam resgatado o material, etc.. O 'após' é terrível! É como aquela história que, depois que inventaram a palavra desculpa, as pessoas fazem o que querem impunemente, achando que tudo se consertará após com o simples vocábulo.

                De qualquer forma, se hoje existisse, o material estaria mais inutilizado do que estava à época, pela falta de acondicionamento em ambiente apropriado, visto que naquele tempo não havia a digitalização de imagens ao alcance de todos bem como computadores, não existia 'papel contact', não se armazenava cinco mil imagens em um cartão de memória na própria máquina fotográfica, etc.

                Com o acervo cinematográfico, que consta a cobertura da inauguração do Banese, da morte de Dom Távora, festas de debutantes de filhas de políticos famosos, jogos de futebol, incluindo o Vasco da Gama, e diversas reportagens, DOOU, e aceitaram(!) ao Clube de Cinema de Sergipe e hoje se encontram na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, onde estão perfeitamente guardados e arquivados até a atualidade e dos quais o jornalista Pascoal Maynard obteve material para sua tese de formatura. Sorte diferente teve esse material e local mais que digno para as memórias e para nome de meu Pai figurar, apesar de que poderiam estar em nossa terra...

                Essa é a chama da memória que não se apaga, o dito popular, o “ouvi dizer”, a fofoca, o boato, o comentário sobre o acontecido. A verdade...é outra!

                E o “culpado inocente” é o Walmir, aquele que bateu em portas durante uma década e que não foi ouvido, sabedor do valor do seu acervo e preocupado em doar o material para a eternidade.

                Recebeu as mais altas homenagens municipal e estadual na área da cultura, as Comendas do  Mérito Cultural Ignácio Barbosa e a Comenda do Mérito Cultural Tobias Barreto, respectivamente, esta última pelo Governador Jackson Barreto, em reconhecimento à sua valorosa contribuição à cultura do nosso município e do nosso estado.

                Homem íntegro e sério que sempre foi, não carregou culpa alguma por esse fato, baseado em sua revolta pelo descaso dos governantes e, cuidou por conta própria de DOAR o material para a eternidade...

 

* Eduardo Almeida é filho de Walmir Almeida, Auditor de controle interno da Controladoria do Estado, gestor público, escritor, fotógrafo e memorialista.