O desamparo nosso de cada dia

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto
Violência habitual. Foto: Divulgação
Violência habitual. Foto: Divulgação

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 17/06/2017 às 08:07:00

Rian Santos

riansantos@jornaldodiase.com.br

 

Elias Santos foi, talvez, o primeiro de nossos artistas visuais a investir em um esforço mais consistente orientado para a superação do convencional moderno – informação que sugere um trabalho de caligrafia irregular e objetos deslocados aleatoriamente, tomando a trilha aberta pelo urinol de Duchamp. Nada mais falso, entretanto. É curioso observar em sua trajetória, ao contrário, como o apego aparente em relação à representação, um dos valores formais mais caros aos conservadores das escolas clássicas, convive em sua obra com certo sentido de perversão. ‘Cinzentos’, em exposição na galeria do Sesc, é exemplar de tal dualidade.

A mostra consiste na reunião de algumas esculturas representando cachorros em escala real. Trata-se, no plano da poética, de uma alusão lírica ao desamparo nosso de cada dia. Além do sentido mais evidente, no entanto, subjaz a intenção aqui presumida de sublinhar os limites um tanto arbitrários do espaço usualmente consagrado à apreciação artística. A poluição do ambiente asséptico da galeria, transformada em um ruído contínuo e inaudito, um esporro confinado entre quatro paredes, como que reclama o transbordamento. Se o cubo branco pode ser profanado, qualquer palmo de chão é altar do sagrado.

Esta é das primeiras vezes quando uma galeria de artes em Aracaju, o espaço em si mesmo, provoca os sentidos do visitante, surpreendido ante a expectativa de há muito surrada da contemplação passiva, puramente intelectual, lógica, cartesiana (antes, Gabi Etinger realizou ‘O amor em retalhos’, em 2013, projeto abrigado pela galeria Jenner Augusto, na Sociedade Semear). Ao desprezar a exposição ordenada do próprio trabalho, sem os esperados espaços de respiro em intervalos regulares, Elias Santos transformou uma coleção de esculturas as mais realistas em um manifesto subversivo, declarando a necessidade de derrubar os muros escorados pela sensibilidade passadista da aldeia, antes que a casa caia de uma vez.

As esculturas de Elias deveriam estar espalhadas em tudo quanto é canto, nas calçadas, viadutos e pontos de ônibus, em todo lugar de gente. Para lembrar a nossa miséria estética, o abandono do pensamento, o coração bruto feito pedra, batendo sempre no mesmo ritmo, na mesma tecla, desassombrado da própria violência habitual.