A força do jornal impresso

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Publicada em 27/06/2017 às 00:37:00

Raymundo Mello

(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)

 

 

Como já registrei em alguns textos que aqui tenho publicado, meu pai, o 'Memorialista Raymundo Mello', recebia, semanalmente, grande número de e-mails e telefonemas cumprimentando-o pelos artigos publicados nesta coluna, às terças-feiras. A rotina era sempre a mesma (desculpem-me a redundância): logo ao alvorecer da terça já recebia os primeiros telefonemas, daqueles leitores que costumam madrugar e “abrir-a-banca-de-revistas”, como se diz, para “pegar-o-jornal” e começar o dia com as notícias ainda “fresquinhas”. Mantinha o “bloquinho-de-anotações” sobre a mesa da sala – o telefone tocava, fosse o residencial ou o celular, e ele já atendia com o bloquinho e a caneta na mão; recebia o telefonema, conversava alegremente com o interlocutor e, finalizada a ligação, fazia o registro: Data, hora, “Fulano”, e a síntese em uma ou duas linhas do comentário que a pessoa havia feito. Até quando estava na rua e atendia algum desses telefonemas, parava no primeiro lugar que tivesse um apoio para escrever, tirava um pequeno papel do bolso e fazia o registro, e, ao chegar em casa, transcrevia junto aos demais.

Quanto aos e-mails, ele aguardava que eu acusasse o recebimento e os imprimisse. Lia cuidadosamente 'um-a-um' e, no verso, já escrevia a resposta que eu deveria postar para o remetente, com o compromisso de depois devolver-lhe as folhas impressas, que eram dobradas ao meio, juntadas com as anotações dos telefonemas e uma edição do jornal e, devidamente presas por um “clips” (quando a quantidade era grande, por uma borrachinha daquelas que se usa para amarrar dinheiro), arquivadas.

E dizia: “Isso aqui, pra mim, é muito importante. Só escrevo essas “minhas tolices” porque os leitores dizem que gostam. Talvez gostem mesmo, senão, não se dariam ao trabalho de todas as semanas me escrever. E no dia que eu parar de receber esse “retorno”, vou parar de escrever, porque entenderei que ninguém tá gostando mais. Quando comecei a escrever no jornal, era porque queria que algumas coisas de nossa Aracaju não fossem esquecidas, não se perdessem no tempo; queria registrá-las para que as futuras gerações pudessem ter conhecimento. Mas agora isso virou um compromisso. O pessoal do jornal, o Gilvan [Gilvan Manoel – Editor Geral] me abriu um espaço semanal, então, tenho que ser grato, pra mim é um privilégio, eu que nem jornalista sou. Hoje eu escrevo para os leitores, quando sento para escrever o que me vem à mente, penso, primeiramente, neles, se é algo que a eles vai interessar saber”.

E assim passava-se a semana – quase todo dia novos e-mails e/ou telefonemas, e ele ia registrando e guardando. Alguns até arriscavam uma sugestão de tema, e, quando a conversa era mais densa em conteúdo, isso acabava por gerar um texto, em parte ou no todo. Meu pai era um Memorialista com notável sensibilidade: não escrevia apenas suas memórias, mas conseguia traduzir num texto as memórias que as pessoas lhe contavam. Numa próxima edição prometo exemplificar isso.

Mas, não posso deixar de registrar que, uma semana após sua “ida ao encontro com Deus”, estive na redação do 'Jornal do Dia' e, logo ao entrar, encontrei-me com seu Diretor Geral, senhor 'Elenilton Pereira', que me cumprimentou com os sentimentos pelo que acontecera com meu pai e registrou: “Ele foi um grande colaborador do jornal. Seu pai escrevia coisas que os leitores gostavam. E quando fazemos um jornal temos que pensar que o fazemos para o público, temos que publicar o que as pessoas gostam de ler. Não fazemos um jornal para nós, fazemos para as pessoas”.

Meu Deus! Como aquelas palavras do senhor Elenilton trouxeram-me à mente as palavras que meu pai dizia – “Hoje eu escrevo para os leitores, quando sento para escrever o que me vem à mente, penso, primeiramente, neles, se é algo que a eles vai interessar saber”. Talvez aí esteja a razão de meu pai tanto se identificar com o Jornal do Dia, que o acolheu, por indicação do saudoso intelectual sergipano 'Luiz Antônio Barreto', nos seus últimos 5 anos – ou mais, não posso precisar 'ainda' a data da primeira publicação de meu pai aqui, posto que antes desse período suas publicações eram eventuais – após o fechamento da antiga “Gazeta de Sergipe”, onde seus artigos eram antes publicados.

Assim, na edição da terça passada, 20/06, eu trouxe de volta para os leitores um artigo que fora originalmente publicado em 2012 – por ocasião das comemorações pelos 100 anos de vida de 'Luiz Gonzaga' – e republicado aqui no Jornal do Dia em 2014. Ao publicá-lo pela 3.ª vez, fiz a referência que este texto havia sido um dos que mereceu maior número de comentários e aplausos dos leitores e que valeria a pena ler de novo. Não deu outra! O artigo “Seu Luiz” foi mais uma vez reverenciado, desta vez com 53 e-mails e 16 telefonemas (recebidos no celular dele, que conservo).

Não creio que este mérito seja tão somente pela leveza, conhecimento e boa conversa das memórias de meu pai. Acredito sim que o povo continua gostando de ler o jornal impresso, ao contrário da maliciosa falácia que querem impor-nos “goela-abaixo” de que o jornal impresso já não atende às exigências de informação imediata que o tempo de hoje exige, face às modernas tecnologias que aí se apresentam. Mentira!

Não acredito na ideia de que as pessoas, atualmente, não gostam de ler, muito menos, de ler jornal. Ao contrário, tenho a convicção de que gostam sim, porém, gostam de ler textos com conteúdo cultural, com qualidade técnica e ética.

O advento da “era da informação” e o estupendo desenvolvimento da tecnologia nas últimas duas décadas, suscitou um espírito imediatista nas pessoas – cada dia mais exige-se o dado imediato, a chamada “informação em tempo real”. São suficientes alguns minutos para que se possa estar “conectado com o mundo”, tomando ciência de fatos acontecidos um minuto antes em qualquer lugar do planeta, o que desperta nas pessoas o falso sentimento de autocontrole da informação, mediado pelos meios virtuais.

Para muitos, isso parece ser tudo. Outros, entretanto, mais astutos, conseguem compreender que o “dado bruto”, sem um tratamento analítico adequado, além de ser pouco significativo, abre espaço para especulações e “achismos”, o que, gradativamente, vai empobrecendo culturalmente as pessoas.

Neste contexto, redefine-se o papel do texto impresso que assume a responsabilidade de proporcionar a reflexão dos fatos e dos dados, gerando, assim, uma informação consistente e coerente.

Este pensamento traduz a linha com que meu pai sempre conduziu esta coluna, que eu, com meus parcos recursos culturais, tento levar adiante: o compromisso de apresentar ao leitor um texto reflexivo, capaz de, a partir de histórias simples do dia-a-dia, cumprir a mais fundamental das tarefas de quem se propõe a escrever, a educativa.

Tenho-me esforçado para suprir a lacuna deixada pela ausência de meu pai, consciente, como já disse, de não ter “a leveza de sua pena”, mas esperando levar um conteúdo culturalmente variado, sempre intercalado com trechos de seus escritos, e que possa despertar o interesse por leituras mais profundas sobre a realidade social.

Antes, mais que tudo e sempre, o nosso compromisso é o de contribuir com a formação de uma sociedade ética e humanista, onde cada um reconheça o seu papel e o cumpra com dignidade, como tão bem o cumpriu meu pai nos seus 83 anos, 3 meses e 2 dias de vida terrena. Assim, podemos manter acesa a esperança de um Brasil com menos desigualdades. Esta foi sempre a bandeira de Raymundo Mello. Esta é a minha bandeira!

Por estas e muitas razões eu continuo acreditando na importância e na força do jornal impresso e, sempre que oportuno, repito: Eu leio jornal!

Mas, meu pai sempre dizia, quando fazia uma prévia leitura de meus textos: “Homem, termine com uma coisa alegre”. Então, como estamos “fechando” este mês junino, tão alegre e tão próprio de nossa gente nordestina, concluo o artigo com os versos da canção “Olha pro céu”, de autoria de 'Luiz Gonzaga e Zé Fernandes', que ele muito gostava e sempre que ouvia, acompanhava cantarolando, emocionado, lembrando de minha mãe, Eddie, sua esposa querida, eterna namorada durante 67 anos:

“Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo!

  Olha pr’aquele balão multicor, como no céu vai sumindo...

  Foi numa noite igual a esta que tu me deste o coração:

  o céu estava assim, em festa, porque era noite de São João.

  Havia balões no ar, xote e baião no salão...

  e, no terreiro, o teu olhar, que incendiou meu coração”.

* * *

E.T. – Gostaria de abraçar, afetuosamente, todos os leitores contumazes de meu pai. Alguns deles têm seus artigos colecionados. Como seria difícil elencá-los aqui, rogo que se sintam todos abraçados nas pessoas de dois de seus grandes amigos: 'Murillo Melins' e 'Vilder Santos'. 

 

Raymundo Mello é Memorialista

raymundopmello@yahoo.com.br