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Gil de bem com a vida. Foto: Divulgação
Gil de bem com a vida. Foto: Divulgação

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Publicada em 27/06/2017 às 07:52:00

Rian Santos

riansantos@jornaldodiase.com.br

 

Ontem, 26 de junho, Gilberto Gil completou 75 anos. Que seja ainda celebrado, cheio de vida, em quadra já tão distante do auge criativo, quando se uniu ao mano Caetano para virar a música popular brasileira de cabeça pra baixo, é revelador do tanto feito ao respirar os vapores da contra cultura, assoprando fumaça e acordes de inflexão roqueira no ambiente careta do cercado tupiniquim. Depois de uma estapafúrdia passeata contra a guitarra elétrica (!), surgia o tropicalismo. E, no rastro do movimento, um bom bocado dos discos fundamentais na compreensão da sensibilidade nacional.

 

João Gilberto e Jimi Hendrix; Carmem Miranda mais Andy Warhol. O grande trunfo destes doces bárbaros foi a disposição para o sacrilégio. Ao sentimento conservador de um nacionalismo tacanho, também por eles exaltado, foi acrescentada uma abertura tardia à cultura de massas, contaminada de ícones então identificados com o imperialismo americano. Produtos de tal ambivalência, nunca mais fomos os mesmos.

 

Um passo à frente, dois passos atrás. Hoje, mais do que nunca, é importante celebrar Gilberto Gil. Surtos cristalizados na face odienta e caricata de um Donald Trump, estranhos às condições materiais fornecidas pela facilidade de informação, derivada da tecnologia, pipocam aqui e ali, alheios à experiência acumulada até agora, como se não houvesse versos dando ciência de vastidões e além. Povoado de medo, o mundo de hoje sublinha fronteiras e tranca a chave as suas portas, não toma as dores de mais ninguém.

 

A música de Gil e Caetano (impossível mencionar um sem pensar no outro), ao contrário, é mão estendida, oferecendo conforto, um gesto ideal de solidariedade. ‘Parabolicamará’, ‘Banda larga de cordel’, ‘It’s a long way’, mais a fortuna crítica reunida no ‘Paraíso Tropical’ de Caetano, passando a história a limpo, afirmam e reafirmam a brevidade das verdadeiras distâncias e o lugar Brasil no mundo – um pedaço idílico, miscigenado e antropofágico, com os perfumes e as cores da Bahia.

 

Tudo em seu tempo (Oh, Tempo-Rei!). Em post publicado no canal oficial do artista, no Facebook, Gilberto Gil dá um testemunho de confiança nos ponteiros aparentemente desorientados dos relógios.

 

“Vendo o panorama geral da minha vida, eu fiz tudo para ser quem eu sou, para estar no lugar em que estou e sentir a vida  de modo a estar em conformidade com ela. É o que sempre digo: a conformidade conforme a idade. Tenho a idade que tenho hoje e uma vida em conformidade com ela”.