Dois gumes

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Publicada em 16/06/2012 às 10:32:00

Uma questão de bom senso. Já que o aparato policial não deu conta de impedir o sofrimento do cidadão, coube à Justiça evitar a irritação desnecessária da ferida. A pedido do Ministério Público Estadual, o Juízo da 8ª Vara Criminal deferiu o pedido de suspensão da reprodução simulada do crime que vitimou três pessoas no interior do Hospital de Urgência (Huse), no último dia 27 de abril, em Aracaju. Na reconstituição, o MP e a Polícia Civil reproduziriam o comportamento dos acusados, desde o momento da invasão do Hospital de Urgência, até o instante das execuções e da fuga.
A interferência da justiça foi mais do que oportuna. Além do trauma recente, que seria reavivado com a reconstituição do episódio, há que se considerar também os percalços inerentes à alteração No cotidiano de uma unidade de saúde cuja demanda extrapola a própria capacidade. A importância do Huse para a oferta de assistência médica é como uma faca de dois gumes. Tal e qual a presença ostensiva dos gorilas protegidos pela farda.
O medo dos funcionários do Huse, estampado na primeira página dos jornais por obra e graça do sangue derramado nos corredores do hospital, não é novidade. O receio de médicos, enfermeiras e demais servidores do Huse reflete a apreensão que povoa a maioria dos lares, onde a sensação de insegurança é velha conhecida e motivada tanto por um vulto que se aproxima no escuro quanto pelos coturnos das autoridades. Triste verdade, quem é pobre tem motivo pra temer bandido e policial, na mesma medida.
Ninguém quer colocar o carro na frente dos bois, atropelando o andamento normal das investigações. O que ocorreu no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), no entanto, foi mesmo uma chacina. Não foi a primeira vez que os homens da lei extrapolam as próprias prerrogativas institucionais para perpetrar atrocidades parecidas, sob o pretexto criminoso de fazer justiça no calor da bala, com as próprias mãos. Não será a última. No entanto, o episódio possui singularidades reveladoras, que apontam tanto o despreparo de nossa força policial, quanto as fragilidades da política de segurança pública sergipana, incapaz de resguardar até mesmo os aparelhos do Estado.