Não vou por aí!

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Publicada em 01/07/2017 às 07:30:00

Paulo José Cunha

 

No Brasil de hoje, anda cada vez mais difícil pensar pela própria cabeça. E olha que não faz muito tempo era até possível. A radicalização das atitudes, principalmente na religião e na política, tem provocado uma espécie de robotização e um efeito manada de fiéis e militantes políticos, ambos repetindo mantras e bordões.

 

Pensar pela própria cabeça é infinitamente mais difícil do que pensar pela dos outros. Muito mais fácil e cômodo é delegar a definição dos rumos a tomar a se esforçar para escolher o próprio rumo e responder por ele.

O português José Régio, no Cântico Negro, seu mais conhecido poema, ironiza o “efeito rebanho” dos que acompanham bovinamente os líderes que impõem os caminhos: ‘“Vem por aqui”, dizem-me alguns com olhos doces (...)/ Eu olho-os com olhos lassos,/ (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)/ E cruzo os braços,/ E nunca vou por ali”’.

Ao abdicar da possibilidade de gerir seu pensamento e sua ação, grande parte da população voluntariamente abdica da própria liberdade, muitas vezes por conveniência, interesse ou até por pura inércia.

Para o filósofo Immanuel Kant (A crítica da razão pura, Fundamentação Metafísica dos Costumes etc.), a situação dos que abdicam do livre pensar e o delegam a outrem se compara aos seres que optam por se manter sob orientação alheia (naturaliter maiorennes), e assim se submetem a viver na condição de menoridade. “É tão confortável ser menor”. – escreve Kant, num texto de 1784. “Tenho à disposição um livro que entende por mim, um pastor que tem consciência por mim (...), então, não preciso me esforçar”.

De fato, pensar dá trabalho. Em alguns casos, implica abrir mão de sólidas convicções. Pensar é incômodo. Cansativo. Pela boca de Riobaldo no Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa adverte que “Viver é muito perigoso”. Pensar talvez seja mais perigoso ainda.

Olhe em torno, constate: quão poucos são os que pensam pela própria cabeça em relação, por exemplo, a questões religiosas e filosóficas? A dúvida – com certeza o melhor adubo para a germinação do conhecimento – atualmente é tratada como primeiro passo para a danação eterna. O que não faltam são líderes de araque, berrando citações bíblicas ao gosto da ocasião e da plateia. Num plano inferior, batendo no peito e repetindo gestos e bordões recheados de améns, a massa informe e submissa se insere no ritual, convicta de que, cumprindo-o piamente, obedecendo cegamente ao líder (e jamais questionando-o) e pagando – religiosamente – o dízimo, alcançará a graça e garantirá a salvação eterna. E quando a maldição da dúvida surge, o líder de araque tem o antídoto engatilhado: “Isso é tentação de Satanás!”

Na área política a situação é igual. Mesmo diante de evidências, delações e provas, a fidelidade a alguns líderes permanece incólume para a militância submissa. Duvidar de leve da idoneidade do líder configura traição inominável (tentação de Satanás!), punível com a proscrição e o degredo. Nunca a expressão “Patrulhas ideológicas” cunhada pelo cineasta Cacá Diegues em 1978 esteve tão na moda. Alguns partidos, tais como algumas igrejas caça-níqueis, converteram-se em seitas fechadas. “Abaixo a inteligência, viva a morte!”, gritavam os fascistas espanhóis. Ou, como lembrou ironicamente Kant: mais importante do que raciocinar é obedecer.

É mais do que hora de lembrar as pessoas que elas têm cabeça... para usar! Se a filosofia kantiana não tiver força para impor o “livre pensar é só pensar” de Millôr Fernandes, que pelo menos a rebeldia poética de José Régio abale essas convicções firmadas na conveniência, no interesse ou na inércia. Mas, atenção: José Régio não quer que ninguém pense como ele, ou se converta em seu seguidor, pelo contrário. Apenas sugere que cada um pense pela própria cabeça. Ouçamo-lo (leia gritando, numa paródia aos pregadores de araque):

 “Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,/ Ninguém me peça definições!/Ninguém me diga: "vem por aqui"!/A minha vida é um vendaval que se soltou,/ É uma onda que se alevantou,/ É um átomo a mais que se animou.../Não sei por onde vou,/Não sei para onde vou/Sei - que não vou por aí!”


 

Paulo José Cunha é escritor, jornalista e professor da Faculdade de Comunicação (FAC) há 19 anos, onde ministra as disciplinas de Telejornalismo e de Oficina de Texto. Já foi repórter da Rede Globo, do Jornal do Brasil, de O Globo e também trabalhou na Rádio Nacional. Hoje é apresentador da TV Câmara.