‘Os Pobres Diabos’ no Cine Vitória

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Publicada em 06/07/2017 às 07:47:00

Rian Santos - riansantos@jornaldodiase.com.br

 

O Nordeste mais uma vez terá sua cultura retratada na telona. Agora, por uma obra assinada pelo dramaturgo cearense de Rosemberg Cariry. ‘Os Pobres Diabos’ trata da magia sob a lona puída do circo, as dificuldades de fazer e viver da arte. O elenco é composto por atores tarimbados como Chico Diaz e Sílvia Buarque. Eles interpretam artistas de um circo paupérrimo, em números estrelados pelo personagem do tinhoso. Daí o batismo do filme.

 

Atenção aos detalhes e um toque autoral. Embora se veja favorecido pela revolução tecnológica em curso na área, o diretor explora a sua faceta humana, natural e artesanal. Sabe que depende sempre ainda da expressão dramática de atores e atrizes, do rigor da fotografia, da generosidade da luz solar, da criatividade diligente e inspirada da direção de arte. Sob o rigor de uma narrativa que se propõe simples, a exemplo das narrativas da literatura de cordel, o filme recria e funde artes e artimanhas, saberes e sentimentos, arquétipos e sonhos, tradições perdidas e relidas, tempo presente e pretérito, em busca de um sentido estético capaz de vencer o vazio individualista e globalizante, na era do desfazimento de tudo, em especial, da dissolvência cultural da chamada pós-modernidade. 

 

O diretor não se preocupa em revelar um universo fechado ou pitoresco da cultura nordestina, evitando estereótipos e clivagens muito próximas do preconceito. Para Rosemberg Cariry, “A discussão sobre o significado de cultura e especificidade cultural é um desafio para o qual devemos estar sempre atentos. Nesse sentido, como artistas de circo, os personagens têm em comum a característica de viajantes e nômades: com o passar do tempo, eles vão adquirindo características de tantos lugares por onde passaram e/ou viveram, que já não é possível identificar de onde eles vieram, ou que lugar ou cultura representam. Esta decisão está refletida na escolha que fizemos dos atores e atrizes de ‘Os Pobres Diabos’, vindos de várias regiões do país”.

 

‘Os Pobres Diabos’ mergulha em uma gostosa e envolvente história, já que no circo, o público também faz parte do espetáculo. O filme consegue reunir crítica social, pitadas de humor e um pouco também de drama. “Livre, poético e humanamente político. Poder trabalhar em um ambiente autoral e regional é um privilégio, ainda mais nos dias que correm, onde a voz única de mercado e de superfície condenam qualquer voz dissonante. Poder trabalhar em um tema que versa sobre a condição do artista, ambientado em um pequeno circo  onde glória, poder, amor e arte se misturam é uma sorte”, assim fala o ator Chico Diaz sobre sua experiência nesse trabalho. 

 

A escolha do elenco foi parte fundamental do processo, já que o filme traz o encontro de atores profissionais do teatro e do cinema com artistas circenses. Chico Diaz, diz da sua satisfação em realizar esse filme: “Poder trabalhar em um ambiente autoral e regional é um privilégio, ainda mais nos dias que correm, onde a voz única de mercado e de superfície condenam qualquer voz dissonante. Poder trabalhar em um tema que versa sobre a condição do artista, ambientado em um pequeno circo onde glória, amor, poder e arte se misturam é uma sorte. Poder trabalhar em família é uma bênção. A minha, a do Rosemberg, a do circo. Devemos muito à família circense reunida”.

 

“Realizamos um cinema que se coloca dentro da vida, um destino que se constrói junto ao acaso. No set, improvisamos muito e incorporamos cada dificuldade, cada chuva, cada dia de sol, cada talento ou idiossincrasias dos atores”, completa Rosemberg.

 

Para Silvia Buarque, o filme abriu-se com um bom desafio: “Trabalhei o personagem pelo afeto e até pela compaixão mesmo, no fundo, a Creuza é uma mulher carente e infeliz. Mas a Creuza tomou corpo mesmo quando começamos a rodar o filme e o Rosemberg foi me conduzindo, com a sabedoria dos mestres, que nos conduzem entendendo e ouvindo quem somos e o que pensamos. É claro que um mês no set, convivência diária, conversas, improvisações, tudo isso foi fundamental para essa comunhão. Foi uma das experiências mais ricas na minha vida profissional no cinema”.

 

Apesar de a obra ser uma ficção, o diretor afirma que o filme é uma memória reinventada da infância nos sertões do Ceará. “Lembro-me das atrações, do leão faminto que (conforme a lenda) alimentava-se de gatos; lembro-me também da cantora de rumba, do homem forte, do palhaço que cantava pelas ruas convidando para o espetáculo. As crianças que respondiam aos bordões, acompanhando os palhaços. Éramos transformados em atores coadjuvantes do grande espetáculo. Nesse sentido, o circo tinha uma função também iniciática. O sonho de todo menino do sertão era ser palhaço, mais do que trapezista ou domador de leão”, explica.