O nefro na propaganda

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Publicada em 27/07/2017 às 07:23:00

Lelê Teles

 

Sim, os negros já apareciam na publicidade - nos cadernos de classificados - no século XIX.

Veja que curioso.

Só que...

Os negros não usavam suas imagens, sorridentes, para vender mercadorias.

Eles eram a própria mercadoria.

Reificados, coisificados e tratados como uma mera mercadoria; quase humanos, mas incivilizados e incivilizáveis.

Eram vendidos, comprados, alugados ou emprestados.

Veja que cordial.

E tinha sempre uma família cristã e parasita - e ainda tem - querendo uma garotinha jovem e virgem para fazer o trabalho de casa.

Cozinhar, lavar, passar, dobrar, guardar, esfregar, polir, encerar...

E depois, trancafiar a pequena numa jaulinha perto da cozinha; sem livros, sem cadernos, sem lápis...

Até que surjam novas tarefas.

E a pequena cresça, analfabeta e dependente de seus senhores, como um animal doméstico: por ter onde comer e dormir, perdoa seus donos por lhe dar umas pancadas de vez em quando.

Os quartos de empregada, em Brasília, são os únicos cômodos da casa grande que não têm janela.

O Brasil é um lugar onde todos os negros são chamados de descendentes de escravos, mas nenhum  branco é chamado de descendente de escravizador.

Por isso, ainda hoje as coisas são como são.

Podiam ter sido bem diferentes.

Se todos aplicassem a máxima do brilhante Luis Gama, o rábula. O negro que advogou pelos negros:

"O escravo que mata o seu senhor pratica um legítimo ato de autodefesa."

Palavras sapienciais.

 

Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista