O Brasil visto da caravana

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Publicada em 09/09/2017 às 07:32:00

Emir Sader

 

São múltiplas as visões que se pode ter de um país tão diverso e complexo como o Brasil. Há um Brasil visto desde a Avenida Paulista e suas mais de cem agências de bancos privados. Há um Brasil visto desde as redações da mídia de direita. Há um Brasil visto desde o apartamento onde Geddel escondia o dinheiro roubado do povo.

Mas há um Brasil não menos real e não menos expressivo. Há o Brasil dos milhões e milhões de pessoas, que vivem e trabalham cotidianamente, em condições duras de emprego, para sobreviver e manter os seus, poder garantir o que conquistaram e ter perspectivas mínimas de futuro.

O país é o mesmo. Não há dois Brasis. O que há são lugares distintos, contraditórios, de onde se vê uma parte da sociedade ou o seu todo. Quem vive de renda, vê a Bolsa de Valores como termômetro do país, o mercado como seu pulso, o resto é o resto. São gastos indevidos com direitos alheios, que recaem sobre os recursos públicos, considerados fatores de desequilíbrio no ajuste fiscal. Há um país da sonegação, do desvio de recursos para paraísos fiscais, da acumulação financeira através das taxas de juros, que não produzem nem bens, nem empregos. É o pais da especulação financeira, dos banqueiros que assaltaram o poder pelo golpe e tentam desmontar o Estado brasileiro, os direitos dos trabalhadores, os programas sociais, o patrimônio estatal.

E há o Brasil escondido diariamente pela mídia de direita, o Brasil que vive do seu trabalho e não da exploração do trabalho alheio, que vive do seu salário e não de renda, que paga impostos e não sonega, que trabalha a terra para produzir alimentos para o país, que luta para garantir a comida e o bem estar mínimo da sua família e não os nababescos gastos e viagens ao exterior da aristocracia do dinheiro.

O Brasil dos bancos, das redações, verdadeiras sedes dos partidos de direita, dos encontros noturnos do presidente golpista, protagonizam diariamente a mídia, que tenta entronizá-lo na cabeça das pessoas, valendo-se do seu caráter monopolista. E há o Brasil real, do povo, do mundo do trabalho, da vida cotidiana das pessoas.

A Caravana do Lula foi a este mundo, primeiro, como presidente, que promoveu os direitos do mundo do trabalho: 22 milhões de empregos com carteira assinada, aumento do salario mínimo 70% acima da inflação, reconhecimento dos direitos das empregadas domesticas como trabalhadoras, entre outros tantos direitos. E recebeu e se reuniu com todos os setores que compõem o povo, dando visibilidade aos mais humildes, como os catadores de lixo, os hansenianos, entre tantos outros.

Lula voltou ao Nordeste como forma de reencontro com o povo brasileiro, de promoção da consciência crítica do povo diante do desmonte dos direitos da população brasileira, de constatação da situação em que se encontram os programas que os governos do PT levaram a cabo, de difusão da esperança de futuro para o país. Seu acolhimento não poderia ser mais espetacular, mais expressivo, mais caloroso, mais receptivo, mais formidável, mais confirmador de como os legados do seu governo estão inscritos na memória e na consciência dos que se beneficiaram das políticas dos governos que atenderam a massa da população.

O Brasil, visto desde a Caravana, é um mundo dividido entre os que vivem de renda e os que vivem do trabalho, os que acreditam nas manchetes da mídia de direita e os que acreditam no Lula, os que veem no Lula um risco para seus privilégios e os que veem nele a esperança, os que querem destruir o Lula e os que querem vê-lo de novo como presidente do Brasil.

Bastou terminar a primeira Caravana, para que direita voltasse aos ataques ao Lula, como sempre sem provas, mas, como sempre, valendo-se de todo os espaços na mídia que foram negados para a Caravana, negados para o povo e seu principal líder. A sanha com que atacam o Lula só confirma como a direita acusou o sucesso da Caravana e tenta virar a pagina dela, para retomar sua agenda – a da corrupção do PT.

Mas a Caravana é um capítulo que veio para ficar. Não somente porque é apenas a primeira Caravana – seguida por outras, ainda este ano, em Minas e no Rio -, como também porque confirmou como as conquistas populares da Era Lula ficaram definitivamente na cabeça das pessoas e não puderam ser apagadas pelas operações midiáticas da direita. O Lula é uma ameaça à direita e o povo é uma ameaça à direita, o que a leva a manipulações do sistema eleitoral que tentam brecar que a vontade popular possa se expressar e fazer o Brasil retomar o caminho da democracia.

Quem tentava diminuir o tamanho da liderança do Lula só pôde resignar-se a ela ou se calar, junto com a mídia de direita. Lula é a maior liderança popular que o Brasil já teve, está de pé, combativo, disposto a voltar a dirigir o país. A primeira caravana confirmou tudo isso e projeta uma trilha de caravanas que servem também para recompor o bloco de forças sociais e políticas que pode resgatar o Brasil do golpe e colocá-lo na direção que a Caravana do Lula ao Nordeste apontou: o caminho da democracia, do desenvolvimento, dos direitos e da esperança.

 

Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros