Senador, Sergipe não é o pior estado do país

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Publicada em 05/10/2017 às 06:28:00

Ricardo Lacerda de Melo

 

O senador Antônio Carlos Valadares ouviu o galo cantar e não sabe onde. Não procede a informação de que Sergipe tem os piores indicadores sociais e econômicos do Brasil. Em muitos indicadores sociais Sergipe se posiciona entre os melhores estados da região Nordeste: Sergipe apresenta o maior PIB per capita da região Nordeste; o rendimento per capita de Sergipe é um dos mais elevados da região e assim permanece apesar da crise; o grau de formalização do mercado de trabalho de Sergipe é mais elevado do que a média do Nordeste.

Principalmente não se devem confundir resultados decorrentes de conjunturas adversas, associados à crise econômica e à seca, com questões de longo prazo, que definem o potencial de desenvolvimento de Sergipe. Alguns indicadores podem ser episódicos, não refletindo a situação de longo prazo.

Em termos de PIB per capita Sergipe se situa no 1º lugar entre os estados nordestinos. O PIB per capita de Sergipe, segundo o dado mais recente, se situa 17,8% acima da média da região Nordeste.  Em segundo lugar aparece o estado de Pernambuco e em terceiro, o estado do Rio Grande do Norte.

Em termos de IDH, mesmo com o efeito da crise econômica que impactou muito negativamente a renda do estado, inclusive por conta dos problemas da Petrobras e na construção civil, não é fato que Sergipe tenha o pior IDH do Brasil. Até antes dos efeitos da crise econômica Sergipe tinha o 4º maior IDH do Nordeste.  Com o impacto da crise, sobretudo sobre o IDH Renda, passamos para 6º lugar na região (em 2015), à frente dos estados do Piauí, Maranhão e Alagoas.

É importante registrar que o indicador de renda tem como fonte a Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (PNAD) do IBGE que passou por mudança de metodologia em 2013, gerando alterações abruptas nos resultados que carecem de explicações mais consistentes. Até 2013, quando os efeitos da crise não eram ainda sentidos, o IDH-Renda de Sergipe era o 2º maior do Nordeste, atrás somente do Rio Grande do Norte, um estado também produtor de petróleo. Com a recuperação da safra agrícola depois dos efeitos da estiagem e com a realização dos novos investimentos na cadeia de petróleo e gás, Sergipe deverá recuperar rapidamente posições no IDH Renda e no IDH geral. Em 2017, algumas das principais culturas agrícolas estão apresentando crescimento extraordinário: 300% milho, 32% cana-de-açúcar.

Mesmo na publicação do Índice de Competitividade, que soma alhos com bugalhos, a posição de Sergipe no quesito Sustentabilidade Social é a 17ª, à frente, portanto, de dez estados, aparecendo ainda em 9º lugar no país e 1º lugar no Nordeste no acesso ao abastecimento de água e 11º no país e 3º no Nordeste em termos de acesso a esgotamento sanitário. E indicador de competitividade que oscila ao sabor dos ventos, com mudanças abruptas de um ano para outro, não é uma boa bússola para se guiar.

Em termos de indicadores sociais, Sergipe apresentou indicadores ruins especificamente em educação e segurança pública. No que tange à segurança pública os indicadores referentes ao 1º semestre de 2017 apontam uma redução expressiva no número de homicídios, de 12,5%, uma das maiores reduções no número de homicídios entre os estados brasileiros, quando na média do país a taxa de homicídio cresceu 6,8%. É possível, portanto, que já n próximo levantamento o resultado esteja melhor.

No que se refere à educação, os sergipanos acompanham o esforço do estado em melhorar a qualidade do ensino, dedicando recursos e empenho com a implantação da educação em turno integral em um grande número de escolas. A melhoria consistente dos indicadores de qualidade da educação e de elevação de escolaridade vai exigir esforços adicionais, que passam pela mobilização de todos os setores que fazem a educação no estado.

É importante informar aos sergipanos que apesar da intensidade com que a crise atingiu o nosso Estado, já são percebidos os primeiros sinais de recuperação no mercado de trabalho que deverão se tornar paulatinamente mais robustos nos próximos meses.

Não concordamos com diagnósticos apocalíticos sobre Sergipe. Acreditamos que Sergipe está construindo as bases para continuar a ser um estado diferenciado dentro do Nordeste. Em termos de projetos estruturantes para o estado, que assegurarão um futuro de desenvolvimento, podem ser destacados os Investimentos da Usina Termoelétrica Porto de Sergipe, no Município da Barra dos Coqueiros, aos quais deverão ser seguidos der novas plantas termoelétricas e que deverão ter importantes desdobramentos na cadeia produtiva de fertilizantes e de outros segmentos industriais. A partir dos novos investimentos Sergipe deverá contar com um novo polo produtivo envolvendo a Barra dos Coqueiros, Santo Amaro e municípios circunvizinhos por meio da viabilização de seu Complexo Industrial-Portuário.

É importante destacar também que a exploração dos campos de petróleo e gás em águas ultraprofundas, apesar das dificuldades financeiras da Petrobras que levaram ao atraso no início da produção, está mantida e deverá multiplicar por até cinco vezes a produção de petróleo Sergipe no início da próxima década, que já se avizinha.

Não menos importantes são os investimentos para viabilização do Canal de Xingó, fundamentais para assegurar abastecimento de  água para consumo humano e para agricultura do semiárido.

Não serão dificuldades que, apesar de graves, são transitórias, associadas à crise nacional, que devem levar a perda da fé no futuro de Sergipe. Passado o pior da crise, os indicadores sociais e econômicos voltarão a ter melhorias mais intensas. E definitivamente, Sergipe não é o pior estado do Brasil.

 

Ricardo Lacerda de Melo é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Sergipe e Assessor Econômico do Governo de Sergipe