Governo em crise, oposição tonta

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Publicada em 24/12/2017 às 00:05:00

O governador Jackson Barreto reconhece que o Estado de Sergipe enfrenta grave crise econômica e está numa situação de “quebradeira”. Mas nem por isso os governistas podem ser descartados nas eleições de 2018.

O vice-governador Belivaldo Chagas é, até agora, o melhor nome para as eleições de 2018, e só faz crescer. Com ou sem crise, deverá ser o governador de fato e de direito a partir de abril, com a previsível renúncia de Jackson para disputar o Senado. Dono dos cargos e do cofre do Estado – meio vazio, é verdade - , Belivaldo poderá negociar e agir com muito mais força do que seus adversários, qualquer que seja.

Se a crise do governo não chega a afetar os seus candidatos, a divisão e desconfiança na oposição prejudicam os seus pré-candidatos, mesmo que sejam políticos conhecidos e tradicionais. As propostas de mudanças esbarram em nomes viciados, alguns oriundos da época da ditadura militar.

Recentemente, foram divulgadas fotos de uma visita do último general-presidente – José Figueiredo (1979-1984) – a Sergipe e lá estavam personagens ainda em atividade na política sergipana. Um deles é o senador Valadares, o mais longevo de todos. Na década de 1960 já estava em atividade na política municipal de Simão Dias, depois foi deputado estadual, deputado federal, vice-governador, governador e senador em terceiro mandato (24 anos).

Valadares começou na Arena na época da ditadura militar, mas depois da redemocratização assumiu uma postura liberal e sempre esteve ao lado ao PT na época de Marcelo Déda. Nos últimos anos flertou com Aécio Neves e o presidente Michel Temer, mas nunca foi alvo de qualquer denúncia que pudesse manchar o seu nome e a sua trajetória política.

A situação do senador Valadares é bem diferente da de seus potenciais aliados nas próximas eleições. O senador Eduardo Amorim, agora no comando do PSDB, é um político anódino, que não desperta emoções, não sensibiliza ninguém e tem um irmão – o ‘empresário’ Edvan – pra lá de enrolado e que não cumpre promessas. Até hoje os aliados cobram o cumprimento dos acordos da campanha de 2014, quando Jackson Barreto ganhou em primeiro turno com mais e 120 mil votos de frente. Os Amorim não confiam no senador Valadares e vice-versa. Tudo isso acaba favorecendo Belivaldo Chagas.

Entre os políticos tradicionais ainda tem André Moura (PSC). O deputado federal que se transformou em líder do governo Temer a partir de indicação do ex-presidente da Câmara e hoje presidiário Eduardo Cunha, soube como ninguém usar o cargo para se fortalecer politicamente. Nenhum recurso da União é liberado para o Estado de Sergipe sem a sua participação, a exemplo do quem ocorreu ontem de manhã, quando o presidente da Caixa, Gilberto Ochhi, assinou convênio de R$ 50 milhões com a prefeitura de Aracaju – André estava lá para assinar como avalista. O problema é a sua situação jurídica.

No pleito passado, em 2014, André disputou as eleições sub judice, foi impugnado pelo TRE, não pode participar dos programas eleitorais e seus votos só foram computados no dia da diplomação dos eleitos, por decisão do atual presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes. De lá pra cá a condição jurídica de André só fez se agravar. Ele continua condenado em segunda instância por irregularidades praticadas na época em que foi prefeito de Pirambu e responde a processo por tentativa de homicídio, em análise no STF. Evidente que há sempre um Gilmar Mendes à disposição.

No campo mais progressista a candidatura do Doutor Emerson (Rede), que surpreendeu nas eleições municipais ao obter 25 mil votos como candidato a prefeito de Aracaju, aparece bem, mas não parece empolgar pra angariar aliados fora da Grande Aracaju, onde tradicionalmente esses candidatos  recebem uma votação mais expressiva. Ele não conseguiu, até agora, unificar nem os pequenos partidos de esquerda.

Enquanto a oposição patina em meio a desconfianças e traições mútuas, Belivaldo avança. E parece ter mesmo a unidade dos partidos que integram o bloco do governador Jackson Barreto.

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Se a crise do governo não chega a afetar os seus candidatos, a divisão e desconfiança na oposição prejudicam os seus pré-candidatos, mesmo que sejam políticos conhecidos e tradicionais. As propostas de mudanças esbarram em nomes viciados, alguns oriundos da época da ditadura militar

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Comitê popular

 

A executiva municipal do Partido dos Trabalhadores de Aracaju realizou reuniões nas quais aprovou uma resolução constituindo o comitê popular e convocando para uma plenária de Mobilização do Comitê de Aracaju em defesa de Lula que será realizada no dia 6 de janeiro.

Junto à Frente Brasil Popular e a CUT, que também estiveram reunidas com os dirigentes, foram definidas ações e a pauta prioritária para a plenária que irá anteceder a grande mobilização para o julgamento dos recursos do ex-presidente Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4a região.

De acordo com o presidente do PT de Aracaju, Jefferson Lima, o comitê popular já está funcionando na sede municipal do partido. Para ele, tirar Lula do pleito é parte do golpe e por isso a necessidade de uma vigília permanente.

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Ano difícil

 

Em julho, foi lançado o Anuário Socioeconômico de Sergipe 2017, produzido pelo Departamento de Economia da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Organizado pelos professores Luiz Rogério de Camargo, Wagner Nóbrega e Rodrigo Góis, o documento apresenta números do desempenho da economia e das demandas sociais do Estado e de cada município. O objetivo é subsidiar a análise desses dados e a proposição de políticas.

Abaixo, alguns trechos da apresentação do estudo, que comprova a grave crise econômica do Estado:

“Sergipe foi atingido pela crise de forma intensa, com desdobramentos ainda mais severos do que o país como um todo. Após 14 anos de expansão média de 2,5% anuais (estimativa própria para 2015/2016), levemente inferior à média brasileira, Sergipe chega em 2017 sem conseguir reverter a perda de espaço na economia nacional, com elevada taxa de desemprego em 15,0% e PIB per capita estimado em R$ 18,1 mil, bem abaixo da média brasileira (R$ 30,4 mil).

Numa perspectiva de longo prazo, o principal condicionante de crescimento da economia sergipana sempre esteve associado à expectativa de expansão da estrutura produtiva de commodities: petróleo e gás, fertilizantes, insumos da construção civil. Em particular, petróleo e gás, pois esse setor tem participação expressiva na economia local, e em 2014 foi responsável por 35,6% do valor de transformação industrial da indústria sergipana.

Mas mesmo com essa relevância, a série histórica indica que a produção de petróleo em Sergipe cai desde 2008 e os volumes produzidos em 2015 e 2016 foram menores do que em 2002. A produção de gás manteve-se praticamente estável no período 2016/2002. Ainda assim, a indústria extrativa sergipana representou 7,1% do valor adicionado bruto do PIB estadual em 2014, um aumento significativo quando comparado com a participação de 4,2% em 2002.

A última onda de euforia para com o futuro da indústria de commodities em Sergipe ocorreu por volta do ano de 2014, onde os investimentos anunciados totalizavam R$ 42,3 bilhões para o período 2013-2018. As previsões de investimentos não se confirmaram; ao contrário, o plano de desinvestimentos da Petrobrás postergou, para a próxima década, a instalação da primeira plataforma em águas profundas, que duplicaria a produção de petróleo em 2018; a Vale desistiu, definitivamente, do projeto de Carnalita; e a nova fábrica de cimento não se concretizou.

O impacto negativo mais visível do desempenho dos setores industriais de Sergipe está relacionado com os ‘serviços industriais de utilidade pública’ (Siup). A participação desse setor no valor adicionado bruto do PIB estadual recuou de 7,7% em 2012 para 3,3% em 2014. Em razão da política de redução da geração de energia nas usinas do rio São Francisco, iniciada em março de 2013, a usina de Xingó foi duramente atingida. A geração de energia elétrica passou de 10.177 GWh em 2012 para 5.886 GWh em 2014.

Muito mais do que as atividades industriais, o setor de serviços, construção civil e comércio foram bastante beneficiados no período que caracteriza a expansão do crescimento brasileiro entre 2005 e 2011.

A previdência estadual é outro exemplo da falta de enfrentamento dos problemas estruturais dos problemas financeiros por parte do governo estadual. Apesar do novo regime criado em 2008, da previdência estadual decorreu parte predominante do aumento do endividamento total de 4,4% em 2009 do PIB estadual, para 13,7% em 2016. O governo estadual também não arrefeceu a crise econômica que se instalou no estado durante o período. Em parte, isso se deveu ao fato de que o esforço arrecadatório pró-cíclico extraiu parcelas maiores de recursos do setor produtivo nos anos de 2013 e 2014, o que deve se agravar, se confirmada a estimativa de queda do PIB sergipano para os anos de 2015 e 2016, visto que, mesmo com a crise, o PIB vinha crescendo desde 2008.

Nas duas últimas décadas, o principal e mais visível impacto do desenvolvimento econômico de Sergipe consiste na conjunção estreita entre dois resultados: baixo crescimento econômico e melhoria pouco significativa nos indicadores sociais. Não obstante, incontáveis programas de incentivos foram implementados, mas a governança pública parece ignorar a maldição dos recursos naturais e revela dificuldades para investir em capital humano e para fomentar outros setores de atividade econômica.”