Eleição e riscos

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Publicada em 30/12/2017 às 20:26:00

Eleição e riscos

 

O deputado federal André Moura (PSC) foi o político que mais cresceu ao longo de 2018, por conta da condição de líder do governo Temer no Congresso Nacional. Enquanto o governo federal patina em recordes de desaprovação, André surfa com o prestígio nos ministérios e órgãos federais e é o único político de Sergipe que consegue liberar recursos para obras estaduais e de praticamente todos os municípios.

No pleito passado, em 2014, André disputou as eleições sub judice, foi impugnado pelo TRE, não pode participar dos programas eleitorais e seus votos só foram computados no dia da diplomação dos eleitos, por decisão do atual presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes. Após a posse, Moura se alinhou com o então candidato a presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) que, depois de eleito, transformou o deputado sergipano num dos mais influentes do chamado baixo clero na Câmara Federal.

André soube usar sem pudor essa força de Eduardo Cunha para reforçar suas bases eleitorais e, após a deposição da presidente Dilma Rousseff, chegou a liderança do governo Temer na Câmara por sua indicação. Nem mesmo a queda e prisão de Cunha reduziram o poder. Chegou a ser afastado da liderança pelo próprio Temer no final de fevereiro, mas dias depois, por pressão do Centrão, voltou a liderança, desta vez no Congresso.

André Moura atendeu apelos de tradicionais adversários, como o governador Jackson Barreto e o prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, para interceder na liberação de verbas e distribuiu alguns milhões para praticamente todas as prefeituras sergipanas. Hoje, em qualquer evento no Estado, o deputado desfila acompanhado de 30 prefeitos e lideranças de todos os municípios do Estado, como se já estivesse em campanha para o governo do Estado ou, no mínimo, para o Senado.

André anunciou que até meados de janeiro ele o senador Amorim (PSDB) apresentam os nomes dos candidatos ao governo e ao Senado do grupo. O senador Valadares e o seu PSB poderiam aderir ao projeto indicando outro candidato majoritário, provavelmente ao Senado. Ninguém sabe se o calendário será mesmo cumprido pois só estamos em 2018.

Candidato majoritário, André teria condições de montar uma grande estrutura de campanha, com o apoio de grandes empresários locais, a exemplo de Luciano Barreto, da Celi, e facilidade em obter a liberação de pequenos recursos para manter o apoio de prefeitos e lideranças.

Se politicamente passa por um bom momento, juridicamente a situação do deputado continua delicada. Em agosto, na véspera do julgamento de Temer pela Câmara dos Deputados, André sofreu a sua quarta condenação por improbidade administrativa, oriunda das irregularidades que provocaram a intervenção estadual na Prefeitura de Pirambu, em 2007. Desta vez, o juiz Rivaldo Salvino do Nascimento, da Comarca de Japaratuba, responsabilizou o parlamentar por um prejuízo total de R$ 755 mil aos cofres do Município, causados por repasses irregulares de verbas ao Olímpico Futebol Clube (Pirambu), time de futebol sediado na cidade e que chegou ser campeão estadual em 2006. André, que foi prefeito de Pirambu entre 1997 e 2004, teve seus direitos políticos por oito anos e terá que pagar uma indenização de quase R$ 378 mil.

A condição jurídica de André é delicada. Ele continua condenado em segunda instância por irregularidades praticadas na época em que foi prefeito de Pirambu e responde a processo por tentativa de homicídio, em análise no STF, além de envolvimento em crimes investigados pela ‘Operação Lava Jato’. Os recursos aguardam julgamento também no Supremo.

Apesar da visibilidade e a ampliação de sua base eleitoral, pessoas próximas a André acham que ele não tem como pleitear cargos majoritários. Com o iminente risco de impugnação nas instâncias locais, sugerem que ele deveria tentar a reeleição da mesma forma que em 2014. A impugnação de um candidato majoritário exigiria a substituição imediata da chapa, pois nenhum outro candidato se arriscaria por ele.

Hoje o foro privilegiado é uma garantia para os políticos enrolados com a Justiça. Nenhum processo anda no Supremo e a impunidade fica praticamente garantida.

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Hoje, em qualquer evento no Estado, o deputado André Moura desfila acompanhado de 33 prefeitos e lideranças de todos os municípios do Estado, como se já estivesse em campanha para o governo do Estado ou, no mínimo, para o Senado

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Nome consolidado

 

Meses antes do previsto, PMDB e partidos aliados conseguiram consolidar o nome do vice-governador Belivaldo Chagas como pré-candidato do grupo ao governo do Estado. Mesmo não sendo uma liderança carismática, Belivaldo é reconhecido por cumprir compromissos, respeitar os adversários, ter afinidade com os mais carentes e transitar bem entre todos os setores políticos e econômicos.

Apesar de já ser um veterano na política, com quatro mandatos de deputado estadual e dois como vice-governador, Belivaldo Chagas pode ser apresentado como um “político novo”, na idade, ao menos, como cobra a sociedade. E coerente, sem nunca ter trocado de lado, apesar das refregas com o senador Valadares, conterrâneo de Simão Dias e responsável pelo início da sua vida pública.

O rompimento com Valadares, aliás, serve para exemplificar bem a lisura política de Belivaldo Chagas. Em 2014 ele foi indicado pelo senador como candidato a vice-governador na chapa de Jackson Barreto, eleito no primeiro turno com mais de 120 mil votos de frente.

Como a eleição para a presidência foi para o segundo turno, Valadares decidiu apoiar a candidatura do senador Aécio Neves, enquanto Belivaldo manteve-se ao lado de Jackson, que desde o primeiro turno estava com a petista Dilma Rousseff, a quem o senador também havia apoiado em 2010. O racha começou ai e foi agravado com a decisão de Valadares em romper com Jackson Barreto, mesmo com a participação do seu partido no governo.

O rompimento ficou mais acentuado com a candidatura de Valadares Filho, pela segunda vez, à Prefeitura de Aracaju. Como já havia ocorrido no caso da presidência da República, Belivaldo se manteve ao lado do governador Jackson Barreto e apoiou Edvaldo Nogueira, que acabou vencendo, após acirrada disputa no segundo turno.

Hoje, Belivaldo é o nome que mais agrega apoios na disputa pelo governo do Estado. Tem uma base sólida, que poderá ainda ser fortalecida caso o governador Jackson Barreto decida mesmo disputar o mandato de senador. Nesse caso, assumiria o governo até abril e disputaria na condição de governador, com a caneta na mão.

Num estado como Sergipe, apesar da crise econômica que vem provocando atraso nos salários dos servidores e a retração de atividades econômicas, é uma grande vantagem.

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A Navalha cortou

 

Em 16 de outubro, depois de dois anos, a juíza Telma Maria Santos Machado, da 1ª Vara Federal de Sergipe, lavrou as sentenças dos envolvidos na ‘Operação Navalha’, o maior escândalo de corrupção de toda a história de Sergipe, que desviou quase R$ 200 milhões das obras de duplicação da Adutora do São Francisco, executadas pela Deso durante o último governo João Alves Filho (2003/2006). As penas somam 139 anos de prisão contra dez envolvidos.

João Alves Filho, o maior beneficiário do esquema de corrupção, já que boa parte dos recursos desviados foi utilizada na sua campanha à reeleição, em 2006, quando ele perdeu para Marcelo Déda Chagas, ainda não foi julgado, mas a juíza Telma Machado publicou aviso a esse respeito no site da Justiça Federal de Sergipe. Os autos em questão se encontram, no momento, conclusos para prolação de sentença, após regular instrução.

A ‘Operação Navalha’ foi deflagrada em abril de 2007 pela Polícia Federal, e culminou com as prisões do então conselheiro do TCE/SE Flávio Conceição de Oliveira Neto, do empresário João Alves Neto, que foram levados de Aracaju para a PF de Brasília, e do ex-deputado federal Ivan Paixão, que estava no interior de São Paulo. Eles foram soltos dois dias depois, mas os processos caminharam lentamente até as sentenças. Os condenados recorreram ao TRF-5 e respondem em liberdade, mas o objetivo inicial de matar os processos por decurso de prazo não existe mais.

Entre os condenados, o ex-conselheiro Flávio Conceição e o empresário João Alves Neto.

 

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Ano ruim

 

Do governador Jackson Barreto (PMDB) em entrevista a Rita Oliveira: “O ano de 2017 foi o pior para a vida do país, para a economia, os serviços públicos e transferência de recursos da União para os Estados. Sergipe teve uma perda de R$ 130 milhões, dinheiro que era necessário para fechar as contas e não deixar o país e os estados nesse caos financeiro. Isso deixa o governador fragilizado, humilhado, principalmente diante do funcionário público, que é quem sofre as maiores consequências dessa política”.

Sobre 2018: “Vou entregar nas mãos de Deus. Não quero fazer nenhuma avaliação agora, nem positiva nem negativa. Não quero puxar para baixo nem quero fazer elogios e depois quebrar a cara. Vou botar nas mãos de Jesus 2018, Ele é quem vai dizer o que vai fazer por nós, pelo Brasil, por Sergipe”.

Candidatura ao Senado: “Não tenho nem tempo de pensar em Senado. Só tenho tempo de pensar em ir para casa e descansar”.