Esquema de desvio de combustíveis na PM leva coronel a atacar comando

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Publicada em 26/01/2018 às 06:03:00

Gabriel Damásio

 

A repercussão da denúncia sobre um esquema de desvio de combustíveis usados em viaturas abriu uma crise na Polícia Militar. O ex-corregedor-geral da corporação, coronel Benê de Oliveira Gravatá, fez duras acusações contra o comandante-geral, coronel Marcony Cabral e disse que ele o afastou do cargo para tentar abortar as investigações do Inquérito Policial Militar (IPM) que apurava a chamada ‘Troca de Moedas’, cujo prejuízo aos cofres da corporação podem chegar a R$ 1 milhão. Gravatá deu uma entrevista na manhã de ontem à rádio Mix FM e afirmou textualmente que “o comandante é mau-caráter e mentiroso”. Marcony decidiu processar o coronel e, no final da tarde, mandou abrir um processo administrativo disciplinar contra ele.

Em portaria publicada no Boletim Geral Ostensivo da PM, Gravatá foi convocado a se apresentar no Hospital da Polícia Militar (HPM) e colocado por dez dias à disposição do diretor da unidade, coronel George André de Araújo, que foi designado para presidir o processo disciplinar. A assessoria de imprensa da PM negou que a medida se trata de detenção ou prisão disciplinar, como chegou a ser especulado durante todo o dia, mas sim um procedimento cautelar cumprido durante o expediente, que faz parte dos processos disciplinares e é previsto no Regimento Interno da corporação.

Na entrevista de ontem, o ex-corregedor confirmou todo o teor do relatório entregue no mês passado ao subcomandante-geral, coronel Lúcio Vasconcelos, no qual detalha o esquema de desvios envolvendo o uso irregular de dados dos cartões da Rede Vale Card, sistema que viabiliza e controla o abastecimento dos veículos da Administração Pública estadual. De acordo com o coronel, os desvios foram amplamente investigados pela Polícia Civil, mas a apuração se arrastou por cerca de um ano no âmbito da PM, onde um IPM tem um prazo médio de 40 ou 60 dias para conclusão. O trabalho concluiu pelo indiciamento do terceiro-sargento Robertson Souza Silva, então responsável pelo Centro de Suprimento e Manutenção (CSM), e da frentista de um posto de combustível no Lamarão (zona norte de Aracaju).

Gravatá disse na entrevista que, ao assumir o inquérito, percebeu que a frentista confessou o esquema de desvios em depoimento na Delegacia de Defraudações (DDCP), mas deu poucas informações à Corregedoria, indicando que ela estaria sendo ameaçada por pessoas de dentro da corporação. Ele próprio indicou que também estaria sob risco de ser assassinado, mas apontou que os integrantes do esquema seriam os responsáveis por sua eventual morte. “Se eu aparecer morto com tiro, pode ter certeza que foram eles, porque eles são covardes. Mas eu não tenho medo não”, disparou.

Afirmou ainda que estava aprofundando as investigações, determinando inclusive quebras de sigilos, Marcony o afastou do cargo de corregedor e colocado em uma Central de Inquéritos criada pelo Comando. “Quando ele viu que eu ia baixar umas diligências (contra os investigados), ele me tirou da corregedoria e criou uma função que não existe, sem planejamento nenhum. Isso porque eu ia investigar [o esquema] e pedir a [prisão] preventiva de todos”, disse o ex-corregedor, afirmando que o comandante-geral “está mentindo para o governador, mentindo para a sociedade e ao Ministério Público”.

O coronel Gravatá contestou ainda o fato de apenas o sargento Robertson ter sido indiciado pelo esquema. De acordo com ele, Marcony teria trabalhado para “engavetar” o IPM da “Troca de Moedas”, com o objetivo de proteger outros suspeitos de envolvimento no esquema, incluindo o tenente-coronel Edênisson Santos da Paixão, primo do comandante e chefe da 4ª Seção do Estado Maior (PM-4), seção responsável pela CSM. E confirmou que um oficial ligado a Edênisson, que chefiava a garagem da corporação e o controle dos combustíveis, foi liberado na época das investigações para fazer um doutorado de quatro anos em Portugal. O coronel disse também que o próprio sargento Robertson foi transferido para uma companhia em Ribeirópolis, mas continuava responsável pelas garagens. “O motivo desse benefício tem que ser investigado”, desconfiou.

 

Resposta – O comandante-geral também foi entrevistado na Mix FM e repudiou as acusações e críticas de Gravatá, prometendo abrir processos cíveis e criminais contra ele. “Jamais aceitarei ser achincalhado na minha honra pessoal. Hoje mesmo vou buscar a reparação civil e criminal, onde o coronel terá a oportunidade de provar tudo o que disse. Lamento que a Polícia Militar esteja sendo motivo de notícias ou declarações tão lamentáveis, principalmente baseadas em ilações ou especulações de um oficial que não tem motivo algum para atacar a pessoa do comandante-geral”, reagiu.

Marcony declarou ainda que “não tem nada a temer” quanto às investigações do caso e defendeu o coronel Edênisson, afirmando que ele é um “oficial eficiente, trabalhador” e não tem qualquer envolvimento com o suposto esquema. Disse também que a PM-4 é um setor grande, mas garantiu que “se houver suspeita contra qualquer pessoa, incluindo o chefe da PM-4, ela será investigada”. O IPM sobre a “Troca de Moedas” já foi encaminhado à 6ª Vara Criminal de Aracaju (Auditoria Militar) e está sob análise do Ministério Público.