ALAGOAS E A ARTE DA POLÍTICA

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Publicada em 04/02/2018 às 00:31:00

Alagoas, a nossa vizinha pelo norte, do outro lado do minguante Velho Chico, um dia acreditou que, apagando o fogo dos velhos engenhos de banguê, e os substituindo por usinas, com máquinas e tecnologia, começaria a trilhar um caminho que a diferenciaria dos seus , digamos assim, conterrâneos nordestinos, muito mais assolados pela seca, que quase não existia nas terras férteis das várzeas, dos massapês litorâneos das ¨Alagoas ¨. Os canaviais começaram a se espalhar da praia ao agreste, e a marcha acelerou-se na década de 70, quando o general presidente Geisel, para enfrentar a crise do petróleo lançou o exitoso Proalcool. Então, os canaviais cobriram os horizontes alagoanos, enquanto sumia a exuberante Mata Atlântica. Era uma faixa de verde denso, que se percorria, desde os bosques de cedros no Tibirí, em Porto Real do Colégio, ( estes agora quase dizimados por um sergipano, Edvan Amorim) e se alongavam rodeando Maceió, vencendo serranias, chegando às divisas com Pernambuco, onde estacavam, diante dos canaviais mais antigos do Leão do Norte. Hoje, tudo isso é cana, monocultura. E em Alagoas é voz corrente que usineiro não é muito afeito a pagar impostos. Mas, em todo caso a agroindústria canavieira gerou riquezas, no porto de Maceió, nos meses de verão, época da moagem, há filas de navios cargueiros, que transportam para o exterior o açúcar e o melaço. A esses navios, juntaram-se, mais recentemente, os transatlânticos de cruzeiro, com seus milhares de passageiros desembarcando para rápidas turnês, e ampliando a onda de turistas que chegam, atraídos pelas águas de azul - turquesa, que, pelas alongadas praias de Japaratinga se tornam também mornas.

O turismo foi a porta para a modernização de Alagoas. O estado, estigmatizado por uma fama que todavia não era desarrazoada, começou a receber pessoas vindas de tantas partes do mundo. Maceió, tinha ares de cidade acanhada, logo se foi tornando cosmopolita. Surgiram centenas de hotéis, pousadas, restaurantes , onde se faz tanto uma comida acessível a quem conta moedas, como nos requintados templos gastronômicos a haute cuisine, restrita aos que podem olhar contas sem surpresas.

Uma mudança assim de hábitos, costumes, paralela à inclusão social que a indústria do turismo proporciona, exigiu dos alagoanos uma espécie de aggiornamento, abrangendo as suas elites, os políticos, sobretudo os seus governantes. A maior parte deles tentando uma adaptação ao novo tempo onde mais se exige a arte da política.
Quem conversa com o governador Renan Filho, 37 anos, entende porque se tem falado muito de Alagoas como um estado que vai atravessando a crise, e o governo cumprindo um roteiro de obras e ações que ajudam a afastar o pessimismo. Renan é articulado e coerente na fala, tem na cabeça os problemas imediatos do estado, faz prospecções pelo futuro e traça planos construindo uma passagem objetiva para a segurança dos projetos que elabora. Antes de assumir o governo convidou um técnico fazendário federal para ser o Secretaria de Estado da Fazenda. Isso foi decisivo para o ordenamento fiscal e garantia de um fluxo positivo de caixa.

Renan não alimenta ilusões sobre grandes sucessos na guerra contra a criminalidade, todavia, empenhou-se em reduzir o crime, retirando Maceió e o estado, da liderança que ninguém deseja, em volume de assassinatos. A criação dos centros integrados de segurança , o aperfeiçoamento da inteligência e coordenação entre as duas polícias, gerou mais eficiência, Maceió deixou de ser a capital mais violenta do Brasil, e o estado passou para o quarto lugar, o que indica um bom caminho ainda a ser percorrido. Segundo o governador alagoano, a causa preponderante da criminalidade é a disputa entre as facções dos traficantes, que engorda a trágica estatística, com mais de oitenta por cento dos assassinatos. Ele mostra cifras sobre o volume de dinheiro que circula no trafico e também o numero de pessoas envolvidas com o letal negócio, demonstrando que, uma rede endinheirada e que pode seduzir principalmente os jovens, oferecendo-lhes dinheiro no bolso e exibição de poder, dificilmente será vencida apenas com ações policiais. Renan defende uma reorientação da estratégia até agora usada, preconiza a necessidade de inovações, e reflexão sobre experiências até agora bem sucedidas em outros países. Entende, porém, que nesse clima politico radicalizado que vive o Brasil, não se deve jogar lenha na fogueira que se alimenta e se desvirtua, gerando inúteis controvérsias e odiosidades. Por isso, ele aponta para o próximo ano, quando houver um governo eleito, mais representatividade política e menos radicalismos, e a partir de 2019, ele próprio sairá pelo Brasil, buscando encontrar sintonias com ideias menos ortodoxas, para tentar coloca-las em prática, tentado-se por fim à calamidade da violência que faz o Brasil campeão mundial em numero de mortes. E o país, diz Renan, não poderá continuar e sobreviver nesse clima de alarmante insegurança.

Alagoas, depois de vinte anos de espera ganhou a primeira etapa do canal do sertão. Já são mais de cem quilômetros, a meta é chegar aos 250. A obra deve prosseguir, chegando até a florescente Arapiraca, a Itabaiana alagoana, para onde se encaminha agora uma estrada com pista dupla, desde Maceió. O governador de 37 anos , pautou esse seu primeiro mandato pela busca da inovação. Agora quer dar máxima abrangência ao canal do sertão. Elaborou um projeto inteligente para expandir a distribuição da água, num sistema que poderia ser comparado a uma espinha de peixe, onde a vértebra básica seria o canal, e as espinhas as adutoras, levando água para barragens nas suas extremidades. Essas barragens, ai está o diferencial, serão alimentadas principalmente pela chuva, ficarão em locais e solos favoráveis, e a agua do canal garantiria o abastecimento nas ocasiões de secas alongadas, com a agua chegando por gravidade. Já existem grandes empresas transnacionais interessadas em instalar em Alagoas o agronegócio de frutas tropicais . A irrigação se fará pelos sistemas de gotejamento ou micro-aspersão.

Na educação, o carro chefe são as escolas em tempo integral. Já são doze mil e oitocentos alunos, e Renan Filho, coloca na sua plataforma de candidato à reeleição, uma meta, que é um desafio: oferecer matricula assegurada nos próximos quatro anos, a todos os alunos que desejem frequentar as escolas em horário integral.
Enquanto o São Francisco encolhe, e a salinidade já impede que em cidades como Piaçabuçu se faça a captação de água nas grandes marés, já existe um aumento da pressão arterial, verificado nas populações ribeirinhas, , atribuindo-se o fato ao consumo de água salinizada. Aqui em Sergipe o diretor presidente da DESO, Carlos Melo, afirma que este é o problema mais grave a ser enfrentado, porque não existem sistemas operacionais de tratamento de água, com capacidade para eliminar a salinidade. Diante do colapso do Velho Chico, na cabeça do governador Renan Filho já fervilha um projeto que seria a solução definitiva para a morte anunciada do São Francisco. Trata-se de uma barragem de foz, aliás, um assunto que aqui há uns quatro meses propusemos que entrasse como tema de debate. Mas o governador Renan, já trabalha na perspectiva desse projeto há mais de um ano, e tem o desenho mais lógico e econômico da barragem, que, em vez de ficar exatamente na foz, recuaria uns cinco quilômetros rio acima, cedendo o estuário para o mar, e represando as águas do rio sem que fossem salinizadas. É um projeto de alta complexidade, mas, sem ele, o baixo São Francisco todo se transformará nos próximos vinte anos num alongado braço de maré, com manguezais às suas margens. Teríamos , então, a desgraça inédita de caatinga e mangues se misturando no semiárido. Uma visão quase apocalíptica.
Mas anotem este nome : Renan Filho. É muito provável que, se ele for reeleito este ano, na próxima década dos vinte, esteja incluído na relação de candidatos à presidência da República, esta República hoje tão aviltada e à espera de uma regeneração possível, logo agora, em outubro.