POBRE, UMA PALAVRA QUE SUMIU

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Publicada em 04/02/2018 às 00:31:00

Procura-se, nas narrativas deste governo Temer a palavra pobre. Ela desapareceu, ou foi desterrada . Há tempos assim, em que palavras incomodas somem do léxico, nem chegam a ser insinuadas através de metáforas. Às vezes , surgem sorrateiramente, contidas em mesóclises um tanto barrocas. Algo assim : ¨Disseram que este país ter-se - ia enriquecido, mas, na verdade, empobreceram-no.¨
A pobreza nos cerca, a muitos constrange, a outros, serve de massa de manobra, e há também os que a admitem, mas apenas como uma cifra nos cálculos econométricos.
A palavra pobre foi sumariamente arquivada. A turma da grife detesta a sulanca, com ela não se mistura, sequer pronuncia o vocábulo que revela a existência da anomalia social, porque sua abordagem parece sugerir uma mistura indigesta do champagne com mão de vaca.

O governo das mesóclises enfeita-se com a pose vernacular, mas não escapa das adjetivações sem elegância nenhuma, saídas, como desabafo, daquele irreverente repertório da linguagem popular. O governo cercou-se de cuidados assépticos para não dar o nome verdadeiro a quem forma a maioria da nossa população. O Brasil tem 150 milhões de pobres, dos quais 30 a 40 milhões deles , na categoria deprimente dos miseráveis. O resto é classe média, remediada , e a que está no andar superior, menos distante dos ricos, que andam pela casa dos cinco por cento. Por sua vez , os super ricos, em torno de cinco mil, controlam mais da metade do PIB brasileiro.
Num país assim, com essas características haitianas, falar claramente sobre os pobres, sobre a pobreza, é fundamental, não se trata de demagogia ou ¨populismo , ¨ esta palavra da qual inverteram o significado, para que se tornasse símbolo de irresponsabilidade fiscal. Em sintonia com esse conceito depreciativo das políticas sociais, desenharam todos os mecanismos financeiros, fiscais, monetários, econômicos, para a blindagem perfeita dos manipuladores do mercado financeiro, os que lucram à custa da produção que outros geram , principalmente a multidão gigantesca dos pobres.

Não se trata, ao lembrar que o pobre existe, de reeditar saudosismos daquela era das revoluções, ou de uma já superada luta de classes, menos ainda, de ditaduras do proletariado, apenas, do reconhecimento claro, sem fricotes, de que o povo pobre precisa ser visto como uma camada social para a qual se devem tornar permanentes, políticas sociais específicas, enquanto se cuida do desenvolvimento inclusivo. Um sonho possível, com uma social - democracia que mereça efetivamente o nome, e não seja um disfarce para ocultar o comodismo conservador. O Brasil imenso, tão repleto de potencialidades, pode, se houver vontade e competência política, imitar o que fazem os miudinhos nórdicos, Suécia, Noruega , Dinamarca, ou o também gigante Canadá, a ilha quase perfeita Nova Zelândia, e até os Emirados Árabes, todavia, sem que a eles se dê o nome de democráticos, mas, eficientes e completos provedores das necessidades sociais. Por aqui, desgraçadamente, o pobre fica cada vez mais longe das considerações de um governo que se instalou cercado pela mesma patota do atraso, da ojeriza a pobres, e sedução pelos cofres. Um dândi que se fez politico, e com inegável sucesso, até agora, o prefeito paulistano João Doria, fala em ¨menos favorecidos¨, ¨¨ carentes,¨¨ menos aquinhoados¨,  já o porta - voz dos rentistas, Ministro da Fazenda , gostaria mesmo de classificar os pobres como a ralé indolente, mas se contem, e os chama de ¨menos abastados,¨ como se fossemos mesmo um país de abastados, e alguns o fossem um pouco menos.
Diziam os jornais desde o império, até quase recentemente : ¨Aniversaria hoje o abastado comerciante, comendador fulano de tal...¨
Com essa gente aí chamando os pobres de ¨ menos abastados,¨ os pobres continuarão sendo pobres mesmo.
Menos abastado é a p... que o pariu, diriam os pobres ofendidos.