Alegria made in Sergipe

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Parece que foi ontem...
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Publicada em 06/02/2018 às 10:09:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Ontem mesmo, Alex Sant'Anna recla-mou a ausência de canções autorais, paridas no coração da aldeia, animando os diversos blocos de rua que tomaram a cidade para inventar o Carnaval em Aracaju. E o fez postando um disco, o filho único da Cabedal. Cá pra nós, o barrigudo da naurÊa não poderia ter sido mais feliz. Não faltam por essas praias músicos e músicas com o propósito declarado de fazer o populacho rebolar, fazendo a festa o ano inteiro. E, neste particular, poucos foram tão finos quanto os meninos da Cabedal.

Com o diabo na munheca - O primeiro trabalho da Cabedal provocou uma reação parecida com o bulício suscitado por suas aparições públicas, invariavelmente festejadas com uma exultação sintomática, que revelava a disposição com que a cena local acolhia novos personagens, ao mesmo tempo em que atestava a importância do momento singular vivido por nossa música.
'O novo pastiche' (2010), primeiro e único disco da Cabedal, guarda nuances preciosas, que passavam despercebidas no meio da farra, quando os acordes carregados de suingue colocavam a galera pra balançar embalada pela urgência de vida impregnada nas canções de Saulo Sandes.

A primeira coisa que chama a atenção no disco, contudo, é a diversidade de gêneros distribuídos entre as 10 faixas que o compõe. Samba, frevo, rock, pagode, e o que mais der na telha dos caras, sempre guarnecidos por uma divisão rítmica característica - que algumas vezes remete sem querer, com muito recato, ao fraseado particular de Jackson do Pandeiro -, e por um timbre vigoroso, que transpira das guitarras sem ofuscar o volume do baixo bem marcado, a precisão da bateria e o colorido emprestado por uma percussão sempre oportuna, embora discreta.

A segurança esbanjada pelo sexteto responsável pelo registro - Saulo Sandes (vocal e guitarras), Alexandre Marreta (guitarras), Manuel Carvalho (Baixo), Ravy Bezerra (Bateria), Adriano Cavalcanti (Percussão) e Diego Menezes (Percussão) - impressiona. Músicos jovens, os meninos demonstraram uma intimidade com seus instrumentos capaz de dar inveja em qualquer casal idoso, farto dos esforços exigidos pelos exercícios do amor.
Parece que os caras amarraram o diabo na munheca. Além das letras inspiradas, canções como "Emplastro brasileiro", "Menina", "O girassol do teu vestido" e "Batucada" possuem uma pegada irresistível, cujo ápice alcança nossos nervos com a explosão do Wah-Wah de "A consolação".

'O novo pastiche' provou, sem dar chance de contestação, que é possível enterrar os pés na aldeia sem ignorar a circunferência do mundo. Ao seguir na direção apontada pelas cenas mais fecundas do cenário independente brasileiro, se apropriando dos elementos presentes na tradição musical brasileira para reescrever a história a seu modo, a Cabedal não apenas dialogou com seus pares, mas encarnou uma nuance do fazer musical que está se tornando, felizmente, cada vez mais local.