DO CRIME PASSIONAL À GUERRA DO TRÁFICO

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Publicada em 10/02/2018 às 12:31:00

Aracaju, desgraçadamente, está figurando como a capital onde mais se mata. Já são mais de sessenta pessoas por cada cem mil habitantes, contra pouco mais de trinta no Rio de Janeiro, uma cidade que parece viver em guerra. Quem chega a Aracaju, vindo do Rio, Fortaleza, Natal, observa que a capital sergipana transmite uma situação de tranquilidade, de segurança. Muitos idosos, até programam vir morar aqui, exatamente pelo clima tranquilo. O que estaria então acontecendo ? A criminalidade em Aracaju e no estado todo foi reduzida, no que se refere a assaltos, latrocínios, roubo de carros, furtos nas ruas, Mas os assassinatos registram-se cada vez mais numerosos. Houve, semana passada, um crime passional, que, como antigamente, chocou a cidade. Um homem de 36 anos, bem estabelecido na sua profissão de eletricista, formava um casal equilibrado com a esposa de 33, com quem tinha um filho de um ano. Ela era funcionária qualificada de uma rede de supermercados, cuidava da contabilidade. Há três meses separados ele chegou ao local de trabalho da ex-esposa, convidou-a para uma conversa no lado de fora, e lá matou-a com um tiro na cabeça. Em seguida fugiu no seu carro, entrou num motel e matou-se com um tiro. A tragédia completa e clássica, resultante do desvario da paixão. alucinante, do sentimento de perda e posse, misturados num caldo mental estranho, onde se confundem o amor, a frustração, e também a vontade inexplicável de revelar a paixão pelo sacrifício imposto a si mesmo , e nele incluindo a pessoa amada. Ou seja, uma espécie de nem eu, nem você.

Há quanto tempo dramas assim aqui não acontecem, há quanto tempo o crime que antes tinha, por assim dizer, a sua forma mais comum, que eram o adultério, patrimonialismo, vingança, ciúme, até mesmo o latrocínio, deixaram de frequentar com destaque os espaços agora enormes dos noticiários policiais ?
Mas a nossa cidade desponta na estatística tenebrosa dos assassinatos. O que estaria acontecendo?

A resposta não é difícil. Vivemos uma guerra travada entre as facções do tráfico. Aqui, as gangues disputam terreno, pontos de venda, também exterminam devedores, traidores, os que rompem o pacto, o juramento da ala criminosa a que pertencem. Daí os massacres, os assassinatos, de jovens principalmente. tudo isso acontecendo nas periferias, onde as faixas mais baixas da hierarquia do tráfico instalam seus quarteis. Os da cúpula, estão em outros locais ao aconchego do ar condicionado, da visão que têm da cidade do alto de apartamentos luxuosos onde vivem. Alguém já calculou quanto em dinheiro o tráfico em Sergipe movimenta? E dele quanto é reservado para corromper autoridades, para assalariar ajudantes, mototaxisistas, taxistas, enfim, a cadeia complexa de transporte, guarda e comercialização da droga? A Polícia sergipana tem estes números, sabe que aproximadamente umas oito mil pessoas vivem diretamente do negócio ilícito do tráfico. A Policia só não disse ainda, e isso seria perigoso afirmar, que a guerra contra o tráfico, tal e qual se pratica, não apenas aqui, porque o modelo fracassado o brasileiro em geral, é incapaz de vencê-la.

Solução? Por enquanto nenhuma, enquanto o governo federal não assumir a tarefa central de coordenar ações, e a responsabilidade pela segurança for equitativamente dividida entre os entes federados: União, estados, municípios. E mais ainda: alterada completamente a estratégia baseada apenas na repressão. É preciso com urgência começar a pensar numa descriminalização progressiva e seletiva das drogas.
De que adianta prender um infeliz traficante de maconha com 200 gramas da erva no bolso e encafuá-lo por alguns anos numa cadeia, que é a escola superior do crime organizado?
Ou seja, a sociedade, pelas suas normas e comportamentos defasados ou apenas hipócritas, está ajudando a fortalecer o tráfico, oferecendo-lhe a cada dia mais soldados para a tropa que sabe como fazer correr sangue.