Frida Kahlo virou Barbie

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A forma esvaziada
A forma esvaziada

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Publicada em 08/03/2018 às 22:28:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Eu tenho um retrato 
de Frida Kahlo pen-
durado na parede. Gabi bateu o pé e eu tive de aceitar o rosto feio, de sobrancelhas unidas e expressão dura, lançando afrontas visuais dentro de nossa casa. Mais do que a figura com cara de poucos amigos, no entanto, me incomoda ainda o status vulgar do produto, incompatível com o restante de nosso acervo. A mulher e toda a tinta derramada ao longo de uma vida extraordinária rebaixada num produto de feira.
Outro dia, uma amiga confessou, depois de algumas cervejas: a admiração por Frida Kahlo, tatuada na batata da perna, não deriva da grandeza de sua obra. A artista, para ela, é só uma personagem, carrega nos próprios traços uma força simbólica. Eu entendi ali que o surrealismo mexicano havia sido definitivamente assimilado pela cultura de massas. Para o bem e para o mal, a artista foi alienada do próprio trabalho (e, nesse caso, com uma boa dose de ironia), feito o Che Guevara das camisetas baratas.
Sei agora que Frida Kahlo virou Barbie. Literalmente. Lançada ontem, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a nova coleção da Mattel, 'Barbie Mulheres Inspiradoras', é formada por 14 personagens femininas que se destacaram em suas áreas de conhecimento. Além da artista mexicana, a aviadora Amelia Earhart e a física e cientista da NASA Katherine Johnson também vão ganhar as formas impossíveis das bonecas conhecidas por disseminar um ideal de beleza sem nenhuma conexão com o mundo real e as mulheres de carne e osso. São exatamente iguais a toda Barbie, mudam apenas o figurino e o penteado.
O capitalismo malvadão, a máquina de moer trabalhadores dos panfletos engajados, sempre esteve atento à economia das trocas sensíveis. Se "Tudo o que é sólido desmancha no ar", também o ideal pode virar produto, um bem de consumo. A Barbie da Frida Kahlo martela mais um prego no caixão da artista, sucede as gravuras das feiras, as tatuagens nas pernas bronzeadas das meninas. Nas prateleiras infantis, nenhuma alusão à mulher e a suas lágrimas, resta somente a forma esvaziada.

Eu tenho um retrato  de Frida Kahlo pen- durado na parede. Gabi bateu o pé e eu tive de aceitar o rosto feio, de sobrancelhas unidas e expressão dura, lançando afrontas visuais dentro de nossa casa. Mais do que a figura com cara de poucos amigos, no entanto, me incomoda ainda o status vulgar do produto, incompatível com o restante de nosso acervo. A mulher e toda a tinta derramada ao longo de uma vida extraordinária rebaixada num produto de feira.
Outro dia, uma amiga confessou, depois de algumas cervejas: a admiração por Frida Kahlo, tatuada na batata da perna, não deriva da grandeza de sua obra. A artista, para ela, é só uma personagem, carrega nos próprios traços uma força simbólica. Eu entendi ali que o surrealismo mexicano havia sido definitivamente assimilado pela cultura de massas. Para o bem e para o mal, a artista foi alienada do próprio trabalho (e, nesse caso, com uma boa dose de ironia), feito o Che Guevara das camisetas baratas.
Sei agora que Frida Kahlo virou Barbie. Literalmente. Lançada ontem, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a nova coleção da Mattel, 'Barbie Mulheres Inspiradoras', é formada por 14 personagens femininas que se destacaram em suas áreas de conhecimento. Além da artista mexicana, a aviadora Amelia Earhart e a física e cientista da NASA Katherine Johnson também vão ganhar as formas impossíveis das bonecas conhecidas por disseminar um ideal de beleza sem nenhuma conexão com o mundo real e as mulheres de carne e osso. São exatamente iguais a toda Barbie, mudam apenas o figurino e o penteado.
O capitalismo malvadão, a máquina de moer trabalhadores dos panfletos engajados, sempre esteve atento à economia das trocas sensíveis. Se "Tudo o que é sólido desmancha no ar", também o ideal pode virar produto, um bem de consumo. A Barbie da Frida Kahlo martela mais um prego no caixão da artista, sucede as gravuras das feiras, as tatuagens nas pernas bronzeadas das meninas. Nas prateleiras infantis, nenhuma alusão à mulher e a suas lágrimas, resta somente a forma esvaziada.