Novos tempos - novo tipo de educação

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Publicada em 08/03/2018 às 22:50:00

 

* Leonardo Boff 
 
A realidade nos últimos decênios mu
dou tanto que afetou também nosso 
estilo de educação. Cito algumas destas mudanças:
 -Construímos o princípio de nossa auto-destruição com armas nucleares, químicas e biológicas. Nada é absolutamente seguro e um acidente qualquer poderá destruir nossa civilização.
 -O aquecimento global cresce dia a dia. Se nada fizermos, como a comunidade científica norte-americana advertiu, podemos conhecer dentro de alguns anos, um  aquecimento abrupto de ate 4-6 graus Celsius. Com isso, a maioria das vidas conhecidas não resistirá e vai desaparecer. Parte também da humanidade.
 -A escassez de água potável (só 0,3% é acessível aos seres humanos e aos animais) poderá provocar guerras letais para garantir acesso a fontes de água doce.  Ou também alianças de cooperação.
 -A planetização é um fato novo na história da Terra e da Humanidade. Saímos um dia da África, onde ficamos por lá por 4-5 milhões de anos e por isso somos todos africanos e nos espalhamos depois  pelos continentes; agora estamos voltando e nos encontrando num único lugar: a Casa Comum,a Terra.
 -A crise ecológica afeta diretamente o sistema-vida e o sistema-Terra. Estamos destruindo as bases físico-química que sustentam a  vida. A continuar a super-exploração da Terra, ela não aguentará e nossa civilização estará ameaçada.
Há o risco de super-bactérias que perderam seu habitat pelo desmatamento e podem invadir cidades e dizimar milhares de pessoas sem sabermos como enfrentá-las com potentes antibióticos.
 Estes são dados e não fantasias. A grande maioria não tem consciência dos riscos que corre. É como no tempo de Noé: todos se divertiam e riam do velho. E veio o dilúvio. Só que hoje é diferente: não temos uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os outros. Todos podemos perecer.
Tudo isso nos obriga a pensar sobre  o futuro comum de nossa espécie e da Casa Comum. Tudo deve começar com uma sensibilização geral. É em casa e na escola que tal nova consciência deve surgir.
Vejam que tarefas novas se apresentam aos mestres e que nova percepção  devem desenvolver nos educandos. Logicamente a escola deve levar avante sua tarefa básica como a UNESCO elencou:
Aprender (1) a conhecer tudo o que o passado nos legou. Como escreveu Montaigne (1533-1592) nos seus Ensaios: "o educador deve ter antes a cabeça bem feita do que bem cheia".Vale dizer, saber a situação real da Terra e passá-la aos estudantes; (2) aprender a pensar; sabemos muito e tudo está no Google, mas não pensamos o que sabemos. O saber é um poder que pode construir uma bomba atômica ou um antibiotico. O saber não  é neutro. Pensar é detectar a quem ele serve e quem são os donos do saber; (3) aprender a viver que é criar um caráter reto, amante da verdade, é ser um bom cidadão participativo com um projeto solidário de vida; (4) aprender a conviver, pois hoje vivemos no meio das maiores diferenças de raça, religião, ideias, opções sexuais; não permitir que a diferença se transforme em desigualdade; todos têm direito de viver seu modo de ser; importa estar aberto pelas redes sociais ao destino dos povos, muitas vezes trágico como agora na Síria; interessar-se pelo sofrimento dos mais pobres e excluidos; (5) aprender a cuidar; isso é novo pois sabemos que o cuidado é a lei básica de todos os seres vivos e também do universo; se não cuidamos da água, do lixo,de nós mesmos e das relações sociais, podemos dar espaço à  degração; tudo o que amamos cuidamos e tudo o que cuidamos amamos; (6) aprender a ter uma ética e uma espiritualidade; a religião pode ajudar mas não necessariamente, pois muitas fazem guerra e matam; ser ético é orientar-se pelo bem, é assumir as consequências de nossos atos, bons ou maleficos; optar pelo bem comum, pela verdade contra toda a corrupção; espiritualidade é uma dimensão antropológica como é a razão, a vontade e a libido; somos espirituais quando colocamos a perguntas derradeiras: por que estou aqui, qual é o sentido do universo, da vida e de minha própria existência? Ser espiritual é desenvolver o que os neurólogos e neurolinguistas chamam de "ponto Deus no cérebro": sempre que abordamos assuntos do sagrado e do sentido ultimo da vida há uma aceleração de nossos neurônios; é o "ponto Deus"; ele nos permite intuir que por detrás de todas as coisas há uma Realidade amorosa e poderosa que tudo sustenta, as estrelas e também nossas vidas. O "ponto Deus"é feito de amor, de compaixão, de solidariedade e de devoção; ele nos torna mais sensíveis aos outros e mais humanos; cultivar o "ponto Deus"é superar o materialism atual e nutrir uma esperança sobre o fim bom de tudo.
Desses novos desafios os educadores devem eles mesmos se imbuir e repassá-los aos educandos. Só assim estaremos à altura dos graves riscos que se nos apresentam.
* Leonardo Boff é escritor e publicou um livro sobre a nova cosmologia:"De onde vem, o universo, a vida, o espírito", Mar de Ideias, Rio 2016.

* Leonardo Boff 


 A realidade nos últimos decênios mu dou tanto que afetou também nosso  estilo de educação. Cito algumas destas mudanças:
 -Construímos o princípio de nossa auto-destruição com armas nucleares, químicas e biológicas. Nada é absolutamente seguro e um acidente qualquer poderá destruir nossa civilização.
 -O aquecimento global cresce dia a dia. Se nada fizermos, como a comunidade científica norte-americana advertiu, podemos conhecer dentro de alguns anos, um  aquecimento abrupto de ate 4-6 graus Celsius. Com isso, a maioria das vidas conhecidas não resistirá e vai desaparecer. Parte também da humanidade.
 -A escassez de água potável (só 0,3% é acessível aos seres humanos e aos animais) poderá provocar guerras letais para garantir acesso a fontes de água doce.  Ou também alianças de cooperação.
 -A planetização é um fato novo na história da Terra e da Humanidade. Saímos um dia da África, onde ficamos por lá por 4-5 milhões de anos e por isso somos todos africanos e nos espalhamos depois  pelos continentes; agora estamos voltando e nos encontrando num único lugar: a Casa Comum,a Terra.
 -A crise ecológica afeta diretamente o sistema-vida e o sistema-Terra. Estamos destruindo as bases físico-química que sustentam a  vida. A continuar a super-exploração da Terra, ela não aguentará e nossa civilização estará ameaçada.
Há o risco de super-bactérias que perderam seu habitat pelo desmatamento e podem invadir cidades e dizimar milhares de pessoas sem sabermos como enfrentá-las com potentes antibióticos.
 Estes são dados e não fantasias. A grande maioria não tem consciência dos riscos que corre. É como no tempo de Noé: todos se divertiam e riam do velho. E veio o dilúvio. Só que hoje é diferente: não temos uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os outros. Todos podemos perecer.
Tudo isso nos obriga a pensar sobre  o futuro comum de nossa espécie e da Casa Comum. Tudo deve começar com uma sensibilização geral. É em casa e na escola que tal nova consciência deve surgir.
Vejam que tarefas novas se apresentam aos mestres e que nova percepção  devem desenvolver nos educandos. Logicamente a escola deve levar avante sua tarefa básica como a UNESCO elencou:
Aprender (1) a conhecer tudo o que o passado nos legou. Como escreveu Montaigne (1533-1592) nos seus Ensaios: "o educador deve ter antes a cabeça bem feita do que bem cheia".Vale dizer, saber a situação real da Terra e passá-la aos estudantes; (2) aprender a pensar; sabemos muito e tudo está no Google, mas não pensamos o que sabemos. O saber é um poder que pode construir uma bomba atômica ou um antibiotico. O saber não  é neutro. Pensar é detectar a quem ele serve e quem são os donos do saber; (3) aprender a viver que é criar um caráter reto, amante da verdade, é ser um bom cidadão participativo com um projeto solidário de vida; (4) aprender a conviver, pois hoje vivemos no meio das maiores diferenças de raça, religião, ideias, opções sexuais; não permitir que a diferença se transforme em desigualdade; todos têm direito de viver seu modo de ser; importa estar aberto pelas redes sociais ao destino dos povos, muitas vezes trágico como agora na Síria; interessar-se pelo sofrimento dos mais pobres e excluidos; (5) aprender a cuidar; isso é novo pois sabemos que o cuidado é a lei básica de todos os seres vivos e também do universo; se não cuidamos da água, do lixo,de nós mesmos e das relações sociais, podemos dar espaço à  degração; tudo o que amamos cuidamos e tudo o que cuidamos amamos; (6) aprender a ter uma ética e uma espiritualidade; a religião pode ajudar mas não necessariamente, pois muitas fazem guerra e matam; ser ético é orientar-se pelo bem, é assumir as consequências de nossos atos, bons ou maleficos; optar pelo bem comum, pela verdade contra toda a corrupção; espiritualidade é uma dimensão antropológica como é a razão, a vontade e a libido; somos espirituais quando colocamos a perguntas derradeiras: por que estou aqui, qual é o sentido do universo, da vida e de minha própria existência? Ser espiritual é desenvolver o que os neurólogos e neurolinguistas chamam de "ponto Deus no cérebro": sempre que abordamos assuntos do sagrado e do sentido ultimo da vida há uma aceleração de nossos neurônios; é o "ponto Deus"; ele nos permite intuir que por detrás de todas as coisas há uma Realidade amorosa e poderosa que tudo sustenta, as estrelas e também nossas vidas. O "ponto Deus"é feito de amor, de compaixão, de solidariedade e de devoção; ele nos torna mais sensíveis aos outros e mais humanos; cultivar o "ponto Deus"é superar o materialism atual e nutrir uma esperança sobre o fim bom de tudo.
Desses novos desafios os educadores devem eles mesmos se imbuir e repassá-los aos educandos. Só assim estaremos à altura dos graves riscos que se nos apresentam.
* Leonardo Boff é escritor e publicou um livro sobre a nova cosmologia:"De onde vem, o universo, a vida, o espírito", Mar de Ideias, Rio 2016.