Música e poesia em Aracaju ( I )

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Publicada em 13/03/2018 às 00:49:00

 

* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
No próximo sábado, 17/03, estaremos fes-
tejando o 163.º aniversário de Aracaju, 
celebrando a data em que o 'Dr. Ignacio Joaquim Barboza' assinou a Resolução elevando à categoria de cidade o povoado de 'Santo Antônio do Aracaju' e transferindo de 'São Cristóvão' para cá, desde aquele dia, a capital da então 'Província de Sergipe'.
Anualmente acontecem programações variadas lembrando a efeméride e, não raro, Aracaju é exaltada como uma cidade moderna, já com seus tons de cidade grande e com os problemas necessariamente advindos com o "progresso" (entre aspas mesmo).
Prefiro pensar na Aracaju bucólica, provinciana até, a "Cidade Menina" eternizada na canção de Ewerton Valadão. Ainda pude alcançar 'um restinho' desse tempo...
Assim, nestas duas publicações que cercam a data, hoje e terça-feira próxima (20/03), trago para os caros leitores um pouco da música e da poesia de Aracaju nos anos 30 a 50, resgatando uma memória de meu pai, publicada na 'Gazeta de Sergipe', edição de 12 de junho de 2002, sob o título "Laranjeiras com Santo Amaro e Capela".
Por questão de espaço, dividi o texto em duas partes. O relato, escrito num tom coloquial, é uma 'etnografia' de um ambiente mui culturalmente rico, embora, quem por ali hoje passa nem consiga imaginar que existiu um dia. Ainda bem que Raymundo Mello - "o Memorialista das coisas simples e dos fatos cotidianos" (segundo Luiz Antônio Barreto) - deixou registrado.
Fala, Raymundo Mello!
"Dito assim, simplesmente, "Rua Laranjeiras com Santo Amaro e Capela", parece que estamos indicando um endereço com referenciais, para a entrega de alguma encomenda ou solicitando uma prestação de serviços públicos ou de particulares.
Na verdade, estamos relacionando aquele pequeno trecho de uma das ruas centrais mais tradicionais de Aracaju, com arte, ambiente artístico-musical do melhor nível que já experimentou e vivenciou a nossa cidade.
De fato, era naquele trecho que, especialmente do final da década de 30 até a primeira metade da década de 50, fervilhava o ambiente musical de nossa cidade. E tinha uma razão especial para isso: é que exatamente naquele trecho, moravam artistas que lideravam como músicos, cantores e compositores, o ambiente artístico, os programas de rádio, os festivais lítero-musicais, as serenatas.
Assim, vejamos: no n.º 395 morava Guaracy Leite França, a melhor cantora popular de sua época, intérprete fiel e especial de "Cidade Menina", verdadeiro hino de louvor a Aracaju que, segundo o seu autor, Ewerton Valadão, era um "presente que Papai Noel ofereceu para o orgulho do Brasil". Já no n.º 448, morava o Sr. Urcino Fontes de Araújo Góis, pouco identificado pelo seu legítimo nome, mas conhecido pelo inexplicável apelido de "Carnera", ele que pelo seu porte físico era exatamente o oposto do famoso boxeador ítalo-americano Primo Carnera. Acontece que o nosso Carnera era um exímio violonista, citado, entre outros, por João Gilberto, o mais internacional intérprete da Bossa Nova, ritmo que popularizou a música brasileira em todo o mundo, violonista do mais alto nível e que faz questão de dizer, "urbi et orbis", que aprendeu a tocar violão com Carnera.
Além de tudo isso, Carnera era o titular do melhor conjunto regional do nordeste e acompanhou grandes intérpretes nacionais e internacionais que visitaram Aracaju naquele período.
Já no n.º 447, morava João Mello, compositor, intérprete, também violonista e grande seresteiro, intitulado, à época, "O cantor máximo de Sergipe", poeta de grande porte (apesar de modesto), cultor da boa linguagem em seus versos e canções sempre lembradas.
E, finalmente, já no finalzinho do trecho, no n.º 487, morava "João de Dó", violonista, base do regional de Carnera, capaz de acompanhar e dar segurança interpretativa a cantores e músicos que aqui se apresentavam, inclusive grandes cantores nacionais que visitaram e exibiram-se em nossa cidade.
O regional de Carnera, que animava e assegurava as apresentações dos artistas na única emissora de rádio então aqui existente, a PRJ-6 - Rádio Aperipê de Sergipe, constantemente fazia os seus ensaios na casa de um desses quatro moradores do trecho. Assim, era comum, a partir das 7 horas da noite, assistir-se à chegada de seus componentes para os ensaios.
Se o ensaio era, por exemplo, na casa de Guaracy, a partir daquele horário iam chegando, com seus respectivos instrumentos: Carnera e João de Dó (violões), Miguel Alves (clarinete), José Carvalho (cavaquinho) e Cacetete (pandeiro). Eventualmente compareciam, também, Edmundo Maia, com o seu triolim (um bandolim avançado e eximiamente executado por Edmundo), e Guinho, ritmista que, posteriormente, substituiu Cacetete como pandeirista.
Os ensaios prolongavam-se noite adentro com a chegada dos cantores e cantoras: João Mello, Dão, Manoel Aragão, Bissextino, Dalva Cavalcante, Guaracy, etc. Lá também comparecia Pedro Teles, o conhecidíssimo humorista Zé Dendê, que ia ensaiar seus esquetes e paródias bem produzidas, algumas com textos sobre temas sociais, onde eram sempre lembrados os sofrimentos dos mais simples.
Ensaiava-se para os programas de rádio, para os shows que constantemente eram apresentados em cinemas da capital e do interior e, volta e meia, do ensaio, saíam para mais uma noite de seresta, a depender do coração dos artistas ou para atender convites de amigos do grupo que desejavam homenagear suas amadas, tocando-lhes os corações com os acordes do regional e as músicas românticas dos intérpretes. Isso quando os interessados não eram eles mesmos".
A narrativa prossegue na edição da próxima terça-feira, se Deus quiser. Até lá! 
 
* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

* Raymundo Mello

(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)


No próximo sábado, 17/03, estaremos fes- tejando o 163.º aniversário de Aracaju,  celebrando a data em que o 'Dr. Ignacio Joaquim Barboza' assinou a Resolução elevando à categoria de cidade o povoado de 'Santo Antônio do Aracaju' e transferindo de 'São Cristóvão' para cá, desde aquele dia, a capital da então 'Província de Sergipe'.
Anualmente acontecem programações variadas lembrando a efeméride e, não raro, Aracaju é exaltada como uma cidade moderna, já com seus tons de cidade grande e com os problemas necessariamente advindos com o "progresso" (entre aspas mesmo).
Prefiro pensar na Aracaju bucólica, provinciana até, a "Cidade Menina" eternizada na canção de Ewerton Valadão. Ainda pude alcançar 'um restinho' desse tempo...
Assim, nestas duas publicações que cercam a data, hoje e terça-feira próxima (20/03), trago para os caros leitores um pouco da música e da poesia de Aracaju nos anos 30 a 50, resgatando uma memória de meu pai, publicada na 'Gazeta de Sergipe', edição de 12 de junho de 2002, sob o título "Laranjeiras com Santo Amaro e Capela".
Por questão de espaço, dividi o texto em duas partes. O relato, escrito num tom coloquial, é uma 'etnografia' de um ambiente mui culturalmente rico, embora, quem por ali hoje passa nem consiga imaginar que existiu um dia. Ainda bem que Raymundo Mello - "o Memorialista das coisas simples e dos fatos cotidianos" (segundo Luiz Antônio Barreto) - deixou registrado.
Fala, Raymundo Mello!
"Dito assim, simplesmente, "Rua Laranjeiras com Santo Amaro e Capela", parece que estamos indicando um endereço com referenciais, para a entrega de alguma encomenda ou solicitando uma prestação de serviços públicos ou de particulares.
Na verdade, estamos relacionando aquele pequeno trecho de uma das ruas centrais mais tradicionais de Aracaju, com arte, ambiente artístico-musical do melhor nível que já experimentou e vivenciou a nossa cidade.
De fato, era naquele trecho que, especialmente do final da década de 30 até a primeira metade da década de 50, fervilhava o ambiente musical de nossa cidade. E tinha uma razão especial para isso: é que exatamente naquele trecho, moravam artistas que lideravam como músicos, cantores e compositores, o ambiente artístico, os programas de rádio, os festivais lítero-musicais, as serenatas.
Assim, vejamos: no n.º 395 morava Guaracy Leite França, a melhor cantora popular de sua época, intérprete fiel e especial de "Cidade Menina", verdadeiro hino de louvor a Aracaju que, segundo o seu autor, Ewerton Valadão, era um "presente que Papai Noel ofereceu para o orgulho do Brasil". Já no n.º 448, morava o Sr. Urcino Fontes de Araújo Góis, pouco identificado pelo seu legítimo nome, mas conhecido pelo inexplicável apelido de "Carnera", ele que pelo seu porte físico era exatamente o oposto do famoso boxeador ítalo-americano Primo Carnera. Acontece que o nosso Carnera era um exímio violonista, citado, entre outros, por João Gilberto, o mais internacional intérprete da Bossa Nova, ritmo que popularizou a música brasileira em todo o mundo, violonista do mais alto nível e que faz questão de dizer, "urbi et orbis", que aprendeu a tocar violão com Carnera.
Além de tudo isso, Carnera era o titular do melhor conjunto regional do nordeste e acompanhou grandes intérpretes nacionais e internacionais que visitaram Aracaju naquele período.
Já no n.º 447, morava João Mello, compositor, intérprete, também violonista e grande seresteiro, intitulado, à época, "O cantor máximo de Sergipe", poeta de grande porte (apesar de modesto), cultor da boa linguagem em seus versos e canções sempre lembradas.
E, finalmente, já no finalzinho do trecho, no n.º 487, morava "João de Dó", violonista, base do regional de Carnera, capaz de acompanhar e dar segurança interpretativa a cantores e músicos que aqui se apresentavam, inclusive grandes cantores nacionais que visitaram e exibiram-se em nossa cidade.
O regional de Carnera, que animava e assegurava as apresentações dos artistas na única emissora de rádio então aqui existente, a PRJ-6 - Rádio Aperipê de Sergipe, constantemente fazia os seus ensaios na casa de um desses quatro moradores do trecho. Assim, era comum, a partir das 7 horas da noite, assistir-se à chegada de seus componentes para os ensaios.
Se o ensaio era, por exemplo, na casa de Guaracy, a partir daquele horário iam chegando, com seus respectivos instrumentos: Carnera e João de Dó (violões), Miguel Alves (clarinete), José Carvalho (cavaquinho) e Cacetete (pandeiro). Eventualmente compareciam, também, Edmundo Maia, com o seu triolim (um bandolim avançado e eximiamente executado por Edmundo), e Guinho, ritmista que, posteriormente, substituiu Cacetete como pandeirista.
Os ensaios prolongavam-se noite adentro com a chegada dos cantores e cantoras: João Mello, Dão, Manoel Aragão, Bissextino, Dalva Cavalcante, Guaracy, etc. Lá também comparecia Pedro Teles, o conhecidíssimo humorista Zé Dendê, que ia ensaiar seus esquetes e paródias bem produzidas, algumas com textos sobre temas sociais, onde eram sempre lembrados os sofrimentos dos mais simples.
Ensaiava-se para os programas de rádio, para os shows que constantemente eram apresentados em cinemas da capital e do interior e, volta e meia, do ensaio, saíam para mais uma noite de seresta, a depender do coração dos artistas ou para atender convites de amigos do grupo que desejavam homenagear suas amadas, tocando-lhes os corações com os acordes do regional e as músicas românticas dos intérpretes. Isso quando os interessados não eram eles mesmos".
A narrativa prossegue na edição da próxima terça-feira, se Deus quiser. Até lá!  * Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br