Menos flores, mais respeito

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 13/03/2018 às 23:07:00

 

* Vânia Azevedo
Como acontece em todo oito de março, esse dia de tantas - e merecidas - homenagens se reflete na vida das pessoas como mais um compromisso que movimenta as redes sociais, incrementa o comércio de flores, desencadeia uma corrida desenfreada às lojas de chocolates entre outros mimos que as empresas, namorados, esposos e amigos(as)  fazem questão de utilizar para homenagear às mulheres com as quais se relacionam.
Que a homenagem é justa, quanto a isso, nada a questionar se pequenos gestos de gentileza e reconhecimento não tivessem que esperar uma data formalmente fixada para ocorrer. Não que seja necessário presentear ou parabenizar a mulher diariamente quando as conquistas a própria história não nos deixa esquecer! Quem sabe seria bem mais simples transformar o ambiente de trabalho numa convivência mais igualitária e o próprio lar numa relação mais harmoniosa; onde o poder masculino não precisasse se impor e/ou se opor a cada situação - desde os afazeres domésticos até o cuidado com os filhos. Até porque, são inúmeras as mulheres que hoje detêm o poder econômico na relação.No entanto, isso não as isenta das funções outrora designadas "coisas de mulher", responsabilidade sua, quando apenas o homem tinha o compromisso de trabalhar fora. E o que mudou? A mulher com um acúmulo maior de responsabilidades que, se por um lado torna mais independente no aspecto financeiro, por outro, faz disparar as estatísticas de doenças cardíacas, no passado mais comum aos homens. Sem falar na concorrência desigual enfrentada no ambiente de trabalho que começa desde a seleção - quando muitas são preteridas pelo estigma da maternidade - e se estende no dia a dia. Não esquecendo que mulheres negras também veem, em determinadas ocasiões, seu curriculum preterido em face da sua etnia.
Ainda que as Políticas públicas de proteção à mulher não representem efetivamente a garantia desejada, já é um grande avanço vê-la transitar no mercado de trabalho ocupando cargos antes jamais pensados - o que não quer dizer que a força do trabalho feminino não sofra ainda discriminações. A divergência salarial entre gêneros ocupando a mesma função ainda denota o desrespeito que existe/resiste, mesmo quando estas pessoas possuem o mesmo tempo e patamar de carreira, realidade vivida pelas grandes executivas, constituindo-se grande obstáculo o acesso a cargos elevados onde reside a maior concentração do poder.
Contudo, o mais lamentável - e não é raro, acredite - é ouvirmos relatos de mulheres que se sentem perseguidas por mulheres na chefia, tornando a convivência inviável naquele ambiente tão hostil. Este, sabidamente, é um comportamento indigno e antiprofissional, claro. Mas quando se trata de uma mulher, é como ignorar anos de luta de mulheres que se tornaram ícones para o movimento feminista; que dedicaram suas vidas a enriquecer a historiografia da mulher, através da luta contra a discriminação racial e de gênero, tornando-se símbolos - que transcenderam à sua época - de empoderamento e resistência.
O regime do Patriarcalismo nos rendeu séculos de omissão, silêncio e submissão, sobretudo obliteração, em função do exclusivo protagonismo masculino. Por isso, já não há mais razão para tolerar atitudes machistas ou mesmo entender uma sociedade que assiste passivamente a grande incidência de casos de violência doméstica ou a atitude de mulheres que se tornam reféns de relações doentias onde a violência diária engorda as estatísticas de feminicídio. Ainda mais quando vivemos numa sociedade que condena suas vítimas responsabilizando-as por atitudes machistas, incriminando a própria vítima de provocar o estupro pelo fato de usar "roupas inadequadas", "estar em lugares inadequados" ou até mesmo por ser "atraente demais".E é justamente esse pensamento visceral que contribui para a impunidade de estupradores. Até porque vivemos num país onde a impunidade é a regra. Onde jogadores de futebol, figuras públicas endeusadas por torcedores, cada vez mais se tornam presentes nos noticiários policiais e ampliam as estatísticas de estupro.
À luz do legado, a própria lei Maria da Penha em seu oitavo artigo, visa promover "o respeito, nos meios de comunicação social, dos valores éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e familiar". No entanto, ainda que haja atualmente aparatos do Estado para a proteção à mulher, a exemplo das delegacias especializadas e atendimento às vítimas de violência sexual, somente 7% dos crimes são investigados e punidos, conforme Luiza Nagib, procuradora da Justiça.
Partindo desse principio, oferecer flores, mensagens, chocolates, etc, será sempre um gesto de carinho que só terá sentido se na relação diária forem respeitados princípios como, a liberdade e a igualdade de direitos. A partir daí, certamente será possível sonhar. Até lá, "(...) quem sabe, o super-homem venha nos restituir a glória, mudando como um Deus o curso da história, por causa da mulher". Que assim seja, Gilberto Gil.
* Vânia Azevedo é professora

* Vânia Azevedo


Como acontece em todo oito de março, esse dia de tantas - e merecidas - homenagens se reflete na vida das pessoas como mais um compromisso que movimenta as redes sociais, incrementa o comércio de flores, desencadeia uma corrida desenfreada às lojas de chocolates entre outros mimos que as empresas, namorados, esposos e amigos(as)  fazem questão de utilizar para homenagear às mulheres com as quais se relacionam.
Que a homenagem é justa, quanto a isso, nada a questionar se pequenos gestos de gentileza e reconhecimento não tivessem que esperar uma data formalmente fixada para ocorrer. Não que seja necessário presentear ou parabenizar a mulher diariamente quando as conquistas a própria história não nos deixa esquecer! Quem sabe seria bem mais simples transformar o ambiente de trabalho numa convivência mais igualitária e o próprio lar numa relação mais harmoniosa; onde o poder masculino não precisasse se impor e/ou se opor a cada situação - desde os afazeres domésticos até o cuidado com os filhos. Até porque, são inúmeras as mulheres que hoje detêm o poder econômico na relação.No entanto, isso não as isenta das funções outrora designadas "coisas de mulher", responsabilidade sua, quando apenas o homem tinha o compromisso de trabalhar fora. E o que mudou? A mulher com um acúmulo maior de responsabilidades que, se por um lado torna mais independente no aspecto financeiro, por outro, faz disparar as estatísticas de doenças cardíacas, no passado mais comum aos homens. Sem falar na concorrência desigual enfrentada no ambiente de trabalho que começa desde a seleção - quando muitas são preteridas pelo estigma da maternidade - e se estende no dia a dia. Não esquecendo que mulheres negras também veem, em determinadas ocasiões, seu curriculum preterido em face da sua etnia.
Ainda que as Políticas públicas de proteção à mulher não representem efetivamente a garantia desejada, já é um grande avanço vê-la transitar no mercado de trabalho ocupando cargos antes jamais pensados - o que não quer dizer que a força do trabalho feminino não sofra ainda discriminações. A divergência salarial entre gêneros ocupando a mesma função ainda denota o desrespeito que existe/resiste, mesmo quando estas pessoas possuem o mesmo tempo e patamar de carreira, realidade vivida pelas grandes executivas, constituindo-se grande obstáculo o acesso a cargos elevados onde reside a maior concentração do poder.
Contudo, o mais lamentável - e não é raro, acredite - é ouvirmos relatos de mulheres que se sentem perseguidas por mulheres na chefia, tornando a convivência inviável naquele ambiente tão hostil. Este, sabidamente, é um comportamento indigno e antiprofissional, claro. Mas quando se trata de uma mulher, é como ignorar anos de luta de mulheres que se tornaram ícones para o movimento feminista; que dedicaram suas vidas a enriquecer a historiografia da mulher, através da luta contra a discriminação racial e de gênero, tornando-se símbolos - que transcenderam à sua época - de empoderamento e resistência.
O regime do Patriarcalismo nos rendeu séculos de omissão, silêncio e submissão, sobretudo obliteração, em função do exclusivo protagonismo masculino. Por isso, já não há mais razão para tolerar atitudes machistas ou mesmo entender uma sociedade que assiste passivamente a grande incidência de casos de violência doméstica ou a atitude de mulheres que se tornam reféns de relações doentias onde a violência diária engorda as estatísticas de feminicídio. Ainda mais quando vivemos numa sociedade que condena suas vítimas responsabilizando-as por atitudes machistas, incriminando a própria vítima de provocar o estupro pelo fato de usar "roupas inadequadas", "estar em lugares inadequados" ou até mesmo por ser "atraente demais".E é justamente esse pensamento visceral que contribui para a impunidade de estupradores. Até porque vivemos num país onde a impunidade é a regra. Onde jogadores de futebol, figuras públicas endeusadas por torcedores, cada vez mais se tornam presentes nos noticiários policiais e ampliam as estatísticas de estupro.
À luz do legado, a própria lei Maria da Penha em seu oitavo artigo, visa promover "o respeito, nos meios de comunicação social, dos valores éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e familiar". No entanto, ainda que haja atualmente aparatos do Estado para a proteção à mulher, a exemplo das delegacias especializadas e atendimento às vítimas de violência sexual, somente 7% dos crimes são investigados e punidos, conforme Luiza Nagib, procuradora da Justiça.
Partindo desse principio, oferecer flores, mensagens, chocolates, etc, será sempre um gesto de carinho que só terá sentido se na relação diária forem respeitados princípios como, a liberdade e a igualdade de direitos. A partir daí, certamente será possível sonhar. Até lá, "(...) quem sabe, o super-homem venha nos restituir a glória, mudando como um Deus o curso da história, por causa da mulher". Que assim seja, Gilberto Gil.
* Vânia Azevedo é professora