A Cumbuca de Amaral Cavalcante

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Há 38 anos fazendo o que mais gosta e sabe bem
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Publicada em 14/03/2018 às 23:37:00

Cada número da revista Cumbuca é uma conquista. E como tal tem de ser celebrado. A publicação, de uma ansiedade parecida com a de seu próprio editor, o jornalista Amaral Cavalcante, o mais disposto ao curso dos acontecimentos, um olho nas próprias saudades, outro no olho do furacão, é dos poucos documentos a falar mais alto em favor dos valores da aldeia. A Cumbuca cultiva a memória em um lugar repleto de silêncio e esquecimentos.

A edição de nº17 da revista Cumbuca ganha lançamento sexta-feira, a partir das 15 horas, no Palácio Museu Olímpio Campos. E ofereceu o pretexto necessário para o Jornal do Dia ouvir o pai da criança. Segundo Amaral, as dificuldades existem, mas a publicação soube conquistar a atenção dos leitores, é consultada por todos os interessados na sensibilidade nativa, "agora e num futuro qualquer". 

 

Jornal do Dia - A Cumbuca talvez seja hoje a bandeira mais vistosa da maltratada sergipanidade. Os leitores locais estão merecendo o cuidado gráfico e editorial impressos nas páginas da revista?
Amaral Cavalcante - A Cumbuca já tem um número razoável de leitores e colecionadores atentos às suas qualidades gráficas e editoriais. Até porque a revista é diversa o suficiente para alcançar desde o leitor ocasional - aquele que é fisgado pela  beleza do design e por ele se inteira do conteúdo - até os mais exigentes. Desde o início procuramos pautá-la em função de certa atemporalidade, abordando temas contemporâneos e registrando fatos notáveis da nossa memória cultural, de modo a remetê-la ao interesse dos leitores, agora e num futuro qualquer.
Jornal do Dia - A publicação é conhecida também pelo amplo leque de colaboradores mais ou menos frequentes, de perfis os mais variados. Isso é, talvez, mostra da inteligência e sensibilidade nativa? Em matéria de Cultura, os sergipanos acompanham o curso dos acontecimentos?
Amaral - Confesso que enfrentamos dificuldades para conseguir bons textos, principalmente para a abordagem de temas atuais. No meio universitário, por exemplo, são raros os doutores que se debruçam na pesquisa da vida cultural; da emergência de novos atores; dos fatos contemporâneos que vão moldando a alma sergipana, em nosso tempo. A revista, também, não dispõe de recursos financeiros para remunerar, condignamente, o trabalho de profissionais que se dediquem a pesquisar e produzir exclusivamente para ela. Há pautas muito caras a esta editoria que ainda não puderam ser cumpridas, por falta de recursos.
Jornal do Dia - Como você se vira para se desdobrar entre a atividade literária, com a produção de crônicas, a edição do Folha da Praia e a Cumbuca?
Amaral - Esta sempre foi a minha vida. O Folha da Praia, criado há 38 anos, era uma Cumbuca pobrezinha e revelou alguns dos melhores jornalistas e escritores que temos. Gosto de reconhecer o talento alheio e de divulgá-lo. Ando, atualmente, meio entrevado nas juntas, o que tem dificultado este prazer, mas colecionei grandes amigos que conhecem a minha capacidade de produção e o nível de exigência estética que tento conservar nela; então, conto com muita gente disposta a me ajudar.
Jornal do Dia - É notável a sua desenvoltura em ambiente virtual, sobretudo no Facebook. Você acha que as redes sociais são mesmo a principal tribuna de nosso tempo? Há conflito entre os novos meios e a imprensa tradicional "de carne e osso"?
Amaral - Não sei se vocês já notaram, eu quase não escrevo nos veículos que edito. Não quero estabelecer para mim o privilégio da escolha. Encontro no Facebook a liberdade de escrever o que me der na telha, como e na hora que achar conveniente, sem precisar da anuência dos leitores. Não sou dos que acham que a internet vai sepultar os outros meios; antes, acho que ela dá uma velocidade à literatura, mais condizente com a modernidade, mas o livro, o papel como suporte, a confiabilidade do veículo impresso, não serão descartados.
Jornal do Dia - Há grande expectativa em relação à publicação de um volume reunindo as crônicas e memórias de Amaral Cavalcante. Como anda esse projeto?
Amaral - O livro já está em processo. As crônicas estão sendo ordenadas por uma professora de literatura que ama o que faz, Rosineide Santana, encarregada de selecionar 80 delas para o livro a ser editado por Mário Brito com a reconhecida excelência que ele imprime ao que faz. O título dirá bem do que se trata - Crônicas Sergipanas - em capa dura com luxuosas interferências de artistas plásticos e designers. Como não pretendo varar as fronteiras da província nem estourar nas prateleiras nacionais, considero o projeto de Mário Brito exatamente o que eu queria: um livro bonito de se ter, para ser guardado carinhosamente como um objeto doméstico pelos sergipanos e lido, eventualmente, por gerações futuras.