Cultura popular, ou essa coisa da ralé

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Publicada em 14/03/2018 às 23:48:00

 

* Luiz Eduardo Costa
O Precajú durou mais de vinte anos. Fabiano conseguiu, sem dúvidas, fazer ressurgir em Aracaju o Carnaval, que há muito tempo sumira. A cidade movimentou-se com a festa, recebeu turistas, surgiram empregos, dinheiro circulando. O Precaju foi um bom negócio enquanto havia fartura de verbas federais estaduais e municipais, e as emendas parlamentares generosas para manter a folia. Mas, quase tudo nos chegava da Bahia. Do dinheiro que custeava a vinda das bandas, dos cantores e cantoras famosas e caras, da hospedagem de toda essa gente nos hotéis aracajuanos, uma boa parcela procedia do setor público, que patrocinava o Precaju. Assim, uma suculenta fatia do bolo era drenada para a Bahia.
Depois, as fontes secaram e a festa terminou. Nos tempos de euforia pintou-se o Precajú como se fosse um evento com raízes populares, algo assim muito ligado às tradições culturais da nossa gente. Não era nada disso, mas essa tintura ajudava muito na captação de recursos, recheava a argumentação para facilitar o transito pelo setor público. Não se poderia dizer que a festa era essencialmente elitista, mas a verdade é que, sem dinheiro, dela não se participava. O povão mesmo, que não precisa de fantasia para identificar-se como pobre, porque já é denunciado pelas próprias vestes, este, ficava do lado de fora das cordas esticadas pelos seguranças, que faziam o isolamento indispensável entre os pé de chinelo e o tênis de marca.
Na festa custeada na sua maior parte com dinheiro público, ao lado da exclusão social, havia o espaço do poder e do dinheiro: os camarotes exclusivos. Entre eles o mais badalado era aquele da Rede Ilha, o conglomerado de emissoras do empresário Edvan Amorim. Naquele camarote, em tempos de bonanças, juntavam-se o poder político e as vistosas contas bancárias. Nada contra a festança, a fruição, o prazer, a alegria, cada um leva a vida da melhor maneira que lhe aprouver, mas o ideal seria que tudo isso ocorresse sem essa desvirtuada mistura do privado com o publico.
Somados, todos os recursos públicos destinados ao Precaju, desde quando começou a festa até o seu último alento, teríamos dinheiro suficiente para manter a Orquestra Sinfônica de Sergipe durante cinco anos, e ainda sobrariam recursos para instalar bandas de musica em uns trinta municípios. Com instrumentos, farda, e o salário dos maestros. Haveria dinheiro para dar uma ajudazinha por modesta que fosse, aos grupos folclóricos sergipanos, que vivem sempre numa enorme pindaíba.
Pois é, o lado mais autêntico, o lado efetivamente popular da nossa cultura, esse, sempre foi o mais esquecido. E para isso contribuiu também a nossa sociedade que se deixa fascinar pelos acessórios, e faz pouco caso do essencial. Em Sergipe, temos sido tão descuidados com, digamos assim, as nossas coisas, aquilo que faz a nossa identidade, que nos marca ou distingue como povo. De tanto esquecermos isso, toleramos e até aplaudimos, um cantor tipo a Wesley Safadão, recebendo de uma prefeitura, trezentos, quatrocentos mil reais, para cantar diante de uma multidão de jovens, e fazer apologia ao álcool, entre outras marginalidades que acompanham o seu rastro.
Contra isso ninguém fala, ninguém diz nada, porque reclamar seria uma inconveniência.
Nada contra o axé ou o brega, mas, quando se passeia pela historia bem sucedida de outros países que se fizeram desenvolvidos, cultos, socialmente avançados, é fácil constatar que as suas raízes estão fincadas, sempre, no solo generoso da cultura popular, dos costumes, dos comportamentos secularmente transmitidos. É possível entender a Europa sem passear pela evolução da Ópera, ou entender a negritude do Deep-South americano sem incluir o jazz, o soul, os spiritual, o gospel?
Por que a cultura nordestina, sulista, amazônica, do Brasil central aparecem tão visivelmente identificadas?
A resposta é fácil, e vai ser encontrada na valorização que deram à cultura popular.
Já observaram a diferença existente nos carnavais do Recife, de Olinda, de Salvador, e o artificialismo vazio que dominava o pré-fabricado e precificado festejo que se fazia em Aracaju antes do carnaval?
Surgiu, no Executivo, a ideia de dar algum destaque às coisas essencialmente nossas, nada de novidades ou passageiros modismos, mas, tão somente, ir à raiz da formação dessa sergipanidade maltratada, para reencontrar a nossa por sinal rica cultura popular. A cultura popular ainda sobrevivendo escondida pelos recantos sertanejos, praianos, agresteiros, vive, suspira, resiste, no chão sertanejo, nos esconsos de São Cristovão, na Muçuca, massapês das Laranjeiras, e por ai vão espalhando o que oralmente lhes foi transmitido, faz séculos, isso agora e ainda, em plena era tecnológica, do e-mail, do zap, da instantaneidade da fala colada à imagem.
O destaque foi então sugerido pelo arquiteto que projeta, e poeticamente desenha, Ézio Déda. Gama, o secretário da Cultura gostou, Jackson entusiasmou- se e disse: Vamos fazer. Mas, e as restrições orçamentárias, os atrasos nos salários, os problemas nos hospitais, uma segurança que não vence a bandidagem. Enfim, essas considerações do presente tenso, difícil, constrangedor. Mas há um presente de problemas que não serão vencidos, se nos acomodarmos na frustração do nada fazer, então, na discricionaridade das verbas que o governo maneja, havia no orçamento da cultura alguma coisa reservada, lógico, especialmente para a cultura. No Instituto BANESE, criado exatamente para dar apoio à cultura, Fernando Motta anunciou algum recurso disponível. E foi assim, com os olhos também voltados para o futuro, para algo que confira a Aracaju mais uma referencia, com faz, por exemplo, a Orla da Atalaia, onde as estátuas dos vultos sergipanos e brasileiros lá estão, e neles os turistas se aglomeram fazendo selfies. É bom lembrar que quando João Alves fez a Orla choveram criticas.
Onde se quer que existam turistas satisfeitos, cidadãos de bem com a cidade onde vivem, a cidade há de ser aprazível, há de ser acolhedora, há de ter alguma coisa diferenciada e bem caracterizada. Nem é preciso alinhar exemplos.
E assim, debaixo de criticas, de incompreensões, de muito preconceito, e também alguma coisa de recalques ou do que seja lá o que for, será nesse sábado, 17, dia de aniversário de Aracaju, inaugurado o Largo da Gente Sergipana. Lá estão representados em vistosas e coloridas imagens emolduradas pelos horizontes do rio, do estuário e do mar, representando nossas manifestações, danças, folguedos, alegrias, até tristezas. São os Bacamarteiros, o Barco de Fogo, o Cacumbi, a Chegança, o Lambe Sujo e Caboclinho, o Parafuso, o Reisado, o São Gonçalo a Taieira.
Seria tão bom que o espaço se transformasse efetivamente no Largo da Gente Sergipana, e começássemos a pensar, mais criticamente, sobre as estreitezas que nos limitam.
* Luiz Eduardo Costa é jornalista e membro da Academia Sergipana de Letras

* Luiz Eduardo Costa
O Precajú durou mais de vinte anos. Fabiano conseguiu, sem dúvidas, fazer ressurgir em Aracaju o Carnaval, que há muito tempo sumira. A cidade movimentou-se com a festa, recebeu turistas, surgiram empregos, dinheiro circulando. O Precaju foi um bom negócio enquanto havia fartura de verbas federais estaduais e municipais, e as emendas parlamentares generosas para manter a folia. Mas, quase tudo nos chegava da Bahia. Do dinheiro que custeava a vinda das bandas, dos cantores e cantoras famosas e caras, da hospedagem de toda essa gente nos hotéis aracajuanos, uma boa parcela procedia do setor público, que patrocinava o Precaju. Assim, uma suculenta fatia do bolo era drenada para a Bahia.
Depois, as fontes secaram e a festa terminou. Nos tempos de euforia pintou-se o Precajú como se fosse um evento com raízes populares, algo assim muito ligado às tradições culturais da nossa gente. Não era nada disso, mas essa tintura ajudava muito na captação de recursos, recheava a argumentação para facilitar o transito pelo setor público. Não se poderia dizer que a festa era essencialmente elitista, mas a verdade é que, sem dinheiro, dela não se participava. O povão mesmo, que não precisa de fantasia para identificar-se como pobre, porque já é denunciado pelas próprias vestes, este, ficava do lado de fora das cordas esticadas pelos seguranças, que faziam o isolamento indispensável entre os pé de chinelo e o tênis de marca.
Na festa custeada na sua maior parte com dinheiro público, ao lado da exclusão social, havia o espaço do poder e do dinheiro: os camarotes exclusivos. Entre eles o mais badalado era aquele da Rede Ilha, o conglomerado de emissoras do empresário Edvan Amorim. Naquele camarote, em tempos de bonanças, juntavam-se o poder político e as vistosas contas bancárias. Nada contra a festança, a fruição, o prazer, a alegria, cada um leva a vida da melhor maneira que lhe aprouver, mas o ideal seria que tudo isso ocorresse sem essa desvirtuada mistura do privado com o publico.
Somados, todos os recursos públicos destinados ao Precaju, desde quando começou a festa até o seu último alento, teríamos dinheiro suficiente para manter a Orquestra Sinfônica de Sergipe durante cinco anos, e ainda sobrariam recursos para instalar bandas de musica em uns trinta municípios. Com instrumentos, farda, e o salário dos maestros. Haveria dinheiro para dar uma ajudazinha por modesta que fosse, aos grupos folclóricos sergipanos, que vivem sempre numa enorme pindaíba.
Pois é, o lado mais autêntico, o lado efetivamente popular da nossa cultura, esse, sempre foi o mais esquecido. E para isso contribuiu também a nossa sociedade que se deixa fascinar pelos acessórios, e faz pouco caso do essencial. Em Sergipe, temos sido tão descuidados com, digamos assim, as nossas coisas, aquilo que faz a nossa identidade, que nos marca ou distingue como povo. De tanto esquecermos isso, toleramos e até aplaudimos, um cantor tipo a Wesley Safadão, recebendo de uma prefeitura, trezentos, quatrocentos mil reais, para cantar diante de uma multidão de jovens, e fazer apologia ao álcool, entre outras marginalidades que acompanham o seu rastro.
Contra isso ninguém fala, ninguém diz nada, porque reclamar seria uma inconveniência.Nada contra o axé ou o brega, mas, quando se passeia pela historia bem sucedida de outros países que se fizeram desenvolvidos, cultos, socialmente avançados, é fácil constatar que as suas raízes estão fincadas, sempre, no solo generoso da cultura popular, dos costumes, dos comportamentos secularmente transmitidos. É possível entender a Europa sem passear pela evolução da Ópera, ou entender a negritude do Deep-South americano sem incluir o jazz, o soul, os spiritual, o gospel?
Por que a cultura nordestina, sulista, amazônica, do Brasil central aparecem tão visivelmente identificadas?
A resposta é fácil, e vai ser encontrada na valorização que deram à cultura popular.
Já observaram a diferença existente nos carnavais do Recife, de Olinda, de Salvador, e o artificialismo vazio que dominava o pré-fabricado e precificado festejo que se fazia em Aracaju antes do carnaval?
Surgiu, no Executivo, a ideia de dar algum destaque às coisas essencialmente nossas, nada de novidades ou passageiros modismos, mas, tão somente, ir à raiz da formação dessa sergipanidade maltratada, para reencontrar a nossa por sinal rica cultura popular. A cultura popular ainda sobrevivendo escondida pelos recantos sertanejos, praianos, agresteiros, vive, suspira, resiste, no chão sertanejo, nos esconsos de São Cristovão, na Muçuca, massapês das Laranjeiras, e por ai vão espalhando o que oralmente lhes foi transmitido, faz séculos, isso agora e ainda, em plena era tecnológica, do e-mail, do zap, da instantaneidade da fala colada à imagem.
O destaque foi então sugerido pelo arquiteto que projeta, e poeticamente desenha, Ézio Déda. Gama, o secretário da Cultura gostou, Jackson entusiasmou- se e disse: Vamos fazer. Mas, e as restrições orçamentárias, os atrasos nos salários, os problemas nos hospitais, uma segurança que não vence a bandidagem. Enfim, essas considerações do presente tenso, difícil, constrangedor. Mas há um presente de problemas que não serão vencidos, se nos acomodarmos na frustração do nada fazer, então, na discricionaridade das verbas que o governo maneja, havia no orçamento da cultura alguma coisa reservada, lógico, especialmente para a cultura. No Instituto BANESE, criado exatamente para dar apoio à cultura, Fernando Motta anunciou algum recurso disponível. E foi assim, com os olhos também voltados para o futuro, para algo que confira a Aracaju mais uma referencia, com faz, por exemplo, a Orla da Atalaia, onde as estátuas dos vultos sergipanos e brasileiros lá estão, e neles os turistas se aglomeram fazendo selfies. É bom lembrar que quando João Alves fez a Orla choveram criticas.
Onde se quer que existam turistas satisfeitos, cidadãos de bem com a cidade onde vivem, a cidade há de ser aprazível, há de ser acolhedora, há de ter alguma coisa diferenciada e bem caracterizada. Nem é preciso alinhar exemplos.
E assim, debaixo de criticas, de incompreensões, de muito preconceito, e também alguma coisa de recalques ou do que seja lá o que for, será nesse sábado, 17, dia de aniversário de Aracaju, inaugurado o Largo da Gente Sergipana. Lá estão representados em vistosas e coloridas imagens emolduradas pelos horizontes do rio, do estuário e do mar, representando nossas manifestações, danças, folguedos, alegrias, até tristezas. São os Bacamarteiros, o Barco de Fogo, o Cacumbi, a Chegança, o Lambe Sujo e Caboclinho, o Parafuso, o Reisado, o São Gonçalo a Taieira.
Seria tão bom que o espaço se transformasse efetivamente no Largo da Gente Sergipana, e começássemos a pensar, mais criticamente, sobre as estreitezas que nos limitam.
* Luiz Eduardo Costa é jornalista e membro da Academia Sergipana de Letras