Uma paróquia com nome de Aracaju

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Aline Barros ganha a maior fatia do bolo no aniversário de Aracaju
Aline Barros ganha a maior fatia do bolo no aniversário de Aracaju

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Publicada em 15/03/2018 às 23:01:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Se Aracaju fosse uma 
igreja, povoada ex
clusivamente pelos devotos de uma determinada religião, o aniversário da capital sergipana poderia muito bem ser celebrado com cultos e aleluias, um coro de anjos em asas de papel celofane, e os louvores próprios da liturgia cristã. Entre os seus quase 700 mil habitantes, no entanto, há gente de todos os credos e crenças. Somos católicos, evangélicos, macumbeiros, ateus e boêmios. E segundo a noção republicana consagrada pela Constituição Federal, qualquer festa bancada pelos cofres públicos teria de contemplar toda a nossa gente.
Não é assim que vem ocorrendo, contudo. Cultos milionários, celebrados por cantores evangélicos contratados a peso de ouro, tomam a praça do mercado municipal todos os anos. O prefeito de plantão pede a bênção aos santos de pau oco, de olho no voto dos convertidos, e o resto da cidade faz vista grossa para o absurdo. Agora, no entanto, a pantomina ganhou um elemento novo. Ao contrário do divulgado, não foi uma emenda parlamentar que garantiu a contratação da artista gospel Aline Barros. A verba foi empenhada sim pelo Fundo de Desenvolvimento Cultural e Artístico (Funcart).
Procurada pelo Jornal do Dia, a Secretaria de Estado da Cultura confirmou a informação. Segundo nota encaminhada pela jornalista Maíra Andrade, o envolvimento da Secult se deu em função de um acordo de cavalheiros, celebrado entre o deputado federal Jony Marcos, integrante da bancada da bíblia, e as autoridades estaduais.
Em nota, a Secult destaca as emendas destinadas pelo parlamentar para a aquisição de instrumentos musicais, em benefício da Orquestra Sinfônica de Sergipe; a realização do IV Festival Sergipano de Artes Cênicas (recurso este contingenciado pelo Ministério da Cultura); e a promoção de um festival praieiro, a ser realizado em abril. 
"Sendo assim, como contrapartida, o Governo do Estado, através da Secretaria de Estado da Cultura e por meio do Fundo de Desenvolvimento Cultural e Artístico (Funcart), destinou recursos para o Aniversário de Aracaju, evento que é realizado todos os anos através de parceria entre o Governo e a Prefeitura de Aracaju".
Estaria tudo certo, não fosse o proselitismo religioso orientando a negociação. Alguém precisa lembrar aos membros do conselho e o deputado federal Jony Marcos que o dinheiro público não é dízimo, para ser usado em negociações pouco republicanas, como eles bem entenderem. Aracaju não é uma paróquia, pronta a lhes dizer amém ante o primeiro sinal de boa vontade. Verbas de emenda parlamentar não exigem contrapartida.
Ao fim e ao cabo, o aniversário de Aracaju revela as verdadeiras prioridades dos gestores com as chaves do cofre na mão. No ano quando a Cultura Popular finalmente dominou o debate sobre a sensibilidade nativa, ainda que por linhas tortas, sob o pretexto dos bonecos vigiando o Largo da Gente Sergipana, com semblante fechado, a cantora Aline Barros abocanha a maior fatia do bolo no aniversário da capital sergipana. Deus seja louvado!

Se Aracaju fosse uma  igreja, povoada ex clusivamente pelos devotos de uma determinada religião, o aniversário da capital sergipana poderia muito bem ser celebrado com cultos e aleluias, um coro de anjos em asas de papel celofane, e os louvores próprios da liturgia cristã. Entre os seus quase 700 mil habitantes, no entanto, há gente de todos os credos e crenças. Somos católicos, evangélicos, macumbeiros, ateus e boêmios. E segundo a noção republicana consagrada pela Constituição Federal, qualquer festa bancada pelos cofres públicos teria de contemplar toda a nossa gente.
Não é assim que vem ocorrendo, contudo. Cultos milionários, celebrados por cantores evangélicos contratados a peso de ouro, tomam a praça do mercado municipal todos os anos. O prefeito de plantão pede a bênção aos santos de pau oco, de olho no voto dos convertidos, e o resto da cidade faz vista grossa para o absurdo. Agora, no entanto, a pantomina ganhou um elemento novo. Ao contrário do divulgado, não foi uma emenda parlamentar que garantiu a contratação da artista gospel Aline Barros. A verba foi empenhada sim pelo Fundo de Desenvolvimento Cultural e Artístico (Funcart).
Procurada pelo Jornal do Dia, a Secretaria de Estado da Cultura confirmou a informação. Segundo nota encaminhada pela jornalista Maíra Andrade, o envolvimento da Secult se deu em função de um acordo de cavalheiros, celebrado entre o deputado federal Jony Marcos, integrante da bancada da bíblia, e as autoridades estaduais.
Em nota, a Secult destaca as emendas destinadas pelo parlamentar para a aquisição de instrumentos musicais, em benefício da Orquestra Sinfônica de Sergipe; a realização do IV Festival Sergipano de Artes Cênicas (recurso este contingenciado pelo Ministério da Cultura); e a promoção de um festival praieiro, a ser realizado em abril. 
"Sendo assim, como contrapartida, o Governo do Estado, através da Secretaria de Estado da Cultura e por meio do Fundo de Desenvolvimento Cultural e Artístico (Funcart), destinou recursos para o Aniversário de Aracaju, evento que é realizado todos os anos através de parceria entre o Governo e a Prefeitura de Aracaju".
Estaria tudo certo, não fosse o proselitismo religioso orientando a negociação. Alguém precisa lembrar aos membros do conselho e o deputado federal Jony Marcos que o dinheiro público não é dízimo, para ser usado em negociações pouco republicanas, como eles bem entenderem. Aracaju não é uma paróquia, pronta a lhes dizer amém ante o primeiro sinal de boa vontade. Verbas de emenda parlamentar não exigem contrapartida.
Ao fim e ao cabo, o aniversário de Aracaju revela as verdadeiras prioridades dos gestores com as chaves do cofre na mão. No ano quando a Cultura Popular finalmente dominou o debate sobre a sensibilidade nativa, ainda que por linhas tortas, sob o pretexto dos bonecos vigiando o Largo da Gente Sergipana, com semblante fechado, a cantora Aline Barros abocanha a maior fatia do bolo no aniversário da capital sergipana. Deus seja louvado!