Culturas, tradições e resistências no sertão sergipano

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Publicada em 16/03/2018 às 22:03:00

 

*Rangel Alves da Costa
Com o passar dos anos, as raízes culturais de um povo tendem a esmorecer, principalmente quando as novas gerações já não se interessam mais pelas tradições, pelos costumes e rituais de seus antepassados. Os mais jovens, envoltos que vivem perante as chamas e tentações dos modismos, passam a simplesmente relegar ao esquecimento aquilo que sua família ou sua comunidade sempre valorizou. 
Mas nem tudo está perdido. Pelo contrário, tudo ainda está garantido, não com a força que se esperaria, mas com a semeadura suficiente para a preservação. E assim por que as culturas, as manifestações folclóricas, os folguedos e outras tradições, ainda estão presentes por todo o sertão sergipano. E o mais impressionante que muito mais nas povoações e nos lugarejos mais afastados que mesmo nos centros urbanos. De repente, dos escondidos sertanejos vão aparecendo os reisados, os pastoris, as autênticas quadrilhas juninas, os xaxados, os sambas quebrados no miudinho do pé.
Da povoação ribeirinha de Bonsucesso, às margens do Rio São Francisco, no município sertanejo de Poço Redondo, chega a Cavalhada Mirim (cavalos de pau com cabeças de cavalos feitas de garrafas pet), o Reisado, o São Gonçalo e o Pastoril. Da região do Quilombo Serra da Guia, no mesmo município, Dona Zefa da Guia (parteira e rezadeira por excelência) traz o seu Samba-de-coco. De outras povoações locais vão surgindo grupos folclóricos com suas danças, seus batuques, suas enfeitadas encenações. 
Pela cidade já passaram a cavalgada e a apresentação da cavalhada. Cortejos azuis e encarnados, lanças com fitas, cavalos e cavaleiros em disputa. Mas não há vencedor senão a cultura local e a população que ávida e prazerosamente assiste e aplaude cada acerto na argola e cada lança colocada ao umbro daquele convidado a colocar uma nota de dinheiro como premiação. Avista-se em deslumbramento, mas nada de novo naquele chão. Ainda continuam famosos os antigos cavalheiros de imponência sem igual, fossem representando cristãos ou mouros, mais parecendo príncipes em cima de seus portentosos e enfeitados cavalos.
Igual encantamento quando os grupos de xaxado se apresentam nas feiras culturais ou noutras programações. O xaxado, um tipo de pisada dançante tipicamente nordestina, mais difundida como folguedo cangaceiro onde os bandoleiros marcavam na batida dos rifles o compasso de sua dança, torna-se mais atraente pelas vestes cangaceiras recobrindo seus integrantes. Lenços, embornais, cartucheiras, cantis, chapéus estrelas, ornamentos dourados, tudo muito colorido e brilhoso. Também os gritos de guerra, os cantos, toda uma teatralização que tornam ainda mais fascinantes as apresentações. Atualmente o mais famoso do sertão sergipano é o Xaxado na Pisada de Lampião, de Poço Redondo, que possui também uma versão mirim de igual qualidade.
Além dos gritos cangaceiros na marcação do xaxado, mesmo ao longe, inconfundíveis são os sons dos pífanos. Taboca furada nas laterais, canudo trabalhado com maestria, a flauta matuta ecoando os sons passados de gerações a gerações. O pífano em si é apenas um instrumento fazendo parte de um grupo maior de instrumentos, tendo sempre a inafastável companhia do surdo, do tarol e da zabumba. Tocadores do mato, homens da roça, de mãos calejadas, sempre com a mesma garbosidade dos grandes artistas. Na região sertaneja de Sergipe, famosos são os Pífanos da Família Vito, de longa raiz familiar e cujos integrantes vão se revezando com os avanços das idades.
Os Pífanos da Família Vito estão sempre presentes nas festas religiosase nos raros leilões caipiras que ainda persistem no sertão sergipano. Não leilão de gado, de prendas novas e modernas, mas um festejo diferente, nos moldes tradicionais, onde os objetos colocados em lance vão desde o bolo de milho à garrafa de cachaça. Em tempos mais antigos, quando as casas eram iluminadas por candeeiros ou lamparinas, ao longe se avistava a fogueira crepitando ao som do pífano, da sanfona e a voz aguda do leiloeiro perguntando quem dá mais por uma goiabada, uma panelada de galinha caipira, uma abóbora ou melancia.
As tradicionais novenas ainda são celebradas em ocasiões especiais, principalmente nas semanas dedicadas aos santos ou quando as secas se alastram e as forças sagradas são chamadas a agir. Agora em número reduzido de beatas e outras devotas, escolhem as casas dos ofícios daquela noite e pelas ruas seguem levando a imagem dos santos nas mãos.É, pois, através da fé, que a persistência de um povo se mostra em maior vigor. As procissões, contudo, tão costumeiras que eram noutros tempos, e mais de perto quando através delas se mostravam os sacrifícios pela fé, hoje ganharam lugar de destaque nas datas festivas da religiosidade, como quando das festas das padroeiras locais. 
Mas tradições religiosas existem que, mesmo com número cada vez menor de adeptos, ainda continuam pelos sertões. É neste sentido, como se pedissem um dia dadivoso para todos, que logo aos primeiros clarões do dia as beatas e outras senhoras se reúnem nas igrejas para rezas e orações. De suas vozes, e todas as vozes sertanejas, as canções e os hinos tão sublimemente enaltecedores como tristonhos, eis que também ecoados nos ofícios de despedidas, nas sentinelas e incelenças, como se aquelas vozes fossem ecos de um além tão próximo de todos e a todos chamam à reflexão da vida e da morte.
Resistências que persistem, puxando os legados através de frágeis cordas. Até que um dia tudo se arrebente ou se sustente pela luta incansável de alguns.
*Rangel Alves da Costa é advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Com o passar dos anos, as raízes culturais de um povo tendem a esmorecer, principalmente quando as novas gerações já não se interessam mais pelas tradições, pelos costumes e rituais de seus antepassados. Os mais jovens, envoltos que vivem perante as chamas e tentações dos modismos, passam a simplesmente relegar ao esquecimento aquilo que sua família ou sua comunidade sempre valorizou. 
Mas nem tudo está perdido. Pelo contrário, tudo ainda está garantido, não com a força que se esperaria, mas com a semeadura suficiente para a preservação. E assim por que as culturas, as manifestações folclóricas, os folguedos e outras tradições, ainda estão presentes por todo o sertão sergipano. E o mais impressionante que muito mais nas povoações e nos lugarejos mais afastados que mesmo nos centros urbanos. De repente, dos escondidos sertanejos vão aparecendo os reisados, os pastoris, as autênticas quadrilhas juninas, os xaxados, os sambas quebrados no miudinho do pé.
Da povoação ribeirinha de Bonsucesso, às margens do Rio São Francisco, no município sertanejo de Poço Redondo, chega a Cavalhada Mirim (cavalos de pau com cabeças de cavalos feitas de garrafas pet), o Reisado, o São Gonçalo e o Pastoril. Da região do Quilombo Serra da Guia, no mesmo município, Dona Zefa da Guia (parteira e rezadeira por excelência) traz o seu Samba-de-coco. De outras povoações locais vão surgindo grupos folclóricos com suas danças, seus batuques, suas enfeitadas encenações. 
Pela cidade já passaram a cavalgada e a apresentação da cavalhada. Cortejos azuis e encarnados, lanças com fitas, cavalos e cavaleiros em disputa. Mas não há vencedor senão a cultura local e a população que ávida e prazerosamente assiste e aplaude cada acerto na argola e cada lança colocada ao umbro daquele convidado a colocar uma nota de dinheiro como premiação. Avista-se em deslumbramento, mas nada de novo naquele chão. Ainda continuam famosos os antigos cavalheiros de imponência sem igual, fossem representando cristãos ou mouros, mais parecendo príncipes em cima de seus portentosos e enfeitados cavalos.
Igual encantamento quando os grupos de xaxado se apresentam nas feiras culturais ou noutras programações. O xaxado, um tipo de pisada dançante tipicamente nordestina, mais difundida como folguedo cangaceiro onde os bandoleiros marcavam na batida dos rifles o compasso de sua dança, torna-se mais atraente pelas vestes cangaceiras recobrindo seus integrantes. Lenços, embornais, cartucheiras, cantis, chapéus estrelas, ornamentos dourados, tudo muito colorido e brilhoso. Também os gritos de guerra, os cantos, toda uma teatralização que tornam ainda mais fascinantes as apresentações. Atualmente o mais famoso do sertão sergipano é o Xaxado na Pisada de Lampião, de Poço Redondo, que possui também uma versão mirim de igual qualidade.
Além dos gritos cangaceiros na marcação do xaxado, mesmo ao longe, inconfundíveis são os sons dos pífanos. Taboca furada nas laterais, canudo trabalhado com maestria, a flauta matuta ecoando os sons passados de gerações a gerações. O pífano em si é apenas um instrumento fazendo parte de um grupo maior de instrumentos, tendo sempre a inafastável companhia do surdo, do tarol e da zabumba. Tocadores do mato, homens da roça, de mãos calejadas, sempre com a mesma garbosidade dos grandes artistas. Na região sertaneja de Sergipe, famosos são os Pífanos da Família Vito, de longa raiz familiar e cujos integrantes vão se revezando com os avanços das idades.
Os Pífanos da Família Vito estão sempre presentes nas festas religiosase nos raros leilões caipiras que ainda persistem no sertão sergipano. Não leilão de gado, de prendas novas e modernas, mas um festejo diferente, nos moldes tradicionais, onde os objetos colocados em lance vão desde o bolo de milho à garrafa de cachaça. Em tempos mais antigos, quando as casas eram iluminadas por candeeiros ou lamparinas, ao longe se avistava a fogueira crepitando ao som do pífano, da sanfona e a voz aguda do leiloeiro perguntando quem dá mais por uma goiabada, uma panelada de galinha caipira, uma abóbora ou melancia.
As tradicionais novenas ainda são celebradas em ocasiões especiais, principalmente nas semanas dedicadas aos santos ou quando as secas se alastram e as forças sagradas são chamadas a agir. Agora em número reduzido de beatas e outras devotas, escolhem as casas dos ofícios daquela noite e pelas ruas seguem levando a imagem dos santos nas mãos.É, pois, através da fé, que a persistência de um povo se mostra em maior vigor. As procissões, contudo, tão costumeiras que eram noutros tempos, e mais de perto quando através delas se mostravam os sacrifícios pela fé, hoje ganharam lugar de destaque nas datas festivas da religiosidade, como quando das festas das padroeiras locais. 
Mas tradições religiosas existem que, mesmo com número cada vez menor de adeptos, ainda continuam pelos sertões. É neste sentido, como se pedissem um dia dadivoso para todos, que logo aos primeiros clarões do dia as beatas e outras senhoras se reúnem nas igrejas para rezas e orações. De suas vozes, e todas as vozes sertanejas, as canções e os hinos tão sublimemente enaltecedores como tristonhos, eis que também ecoados nos ofícios de despedidas, nas sentinelas e incelenças, como se aquelas vozes fossem ecos de um além tão próximo de todos e a todos chamam à reflexão da vida e da morte.
Resistências que persistem, puxando os legados através de frágeis cordas. Até que um dia tudo se arrebente ou se sustente pela luta incansável de alguns.
*Rangel Alves da Costa é advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com