AS INCERTEZAS PERSISTEM

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Publicada em 16/03/2018 às 22:42:00

 

O PrecajU durou mais de vinte anos. Fabiano conseguiu, sem dúvidas, fazer ressurgir em Aracaju o Carnaval, que há muito tempo sumira. A cidade movimentou-se com a festa, recebeu turistas, surgiram empregos, dinheiro circulando. O Precaju foi um bom negócio enquanto havia fartura de verbas federais estaduais e municipais, e as emendas parlamentares generosas para manter a folia. Mas, quase tudo nos chegava da Bahia. Do dinheiro que custeava a vinda das bandas, dos cantores e cantoras famosas e caras, da hospedagem de toda essa gente nos hotéis aracajuanos, uma boa parcela procedia do setor público, que patrocinava o Precaju. Assim, uma suculenta fatia do bolo era drenada para a Bahia.
Depois, as fontes secaram e a festa terminou. Nos tempos de euforia pintou-se o Precajú como se fosse um evento com raízes populares, algo assim muito ligado às tradições culturais da nossa gente. Não era nada disso, mas essa tintura ajudava muito na captação de recursos, recheava a argumentação para facilitar o transito pelo setor público. Não se poderia dizer que a festa era essencialmente elitista, mas a verdade é que, sem dinheiro, dela não se participava. O povão mesmo, que não precisa de fantasia para identificar-se como pobre, porque já é denunciado pelas próprias vestes, este, ficava do lado de fora das cordas esticadas pelos seguranças, que faziam o isolamento indispensável entre os pé de chinelo e o tênis de marca.
Na festa custeada na sua maior parte com dinheiro público, ao lado da exclusão social, havia o espaço do poder e do dinheiro: os camarotes exclusivos. Entre eles o mais badalado era aquele da Rede Ilha, o conglomerado de emissoras do empresário Edvan Amorim. Naquele camarote, em tempos de bonanças, juntavam-se o poder político e as vistosas contas bancárias. Nada contra a festança, a fruição, o prazer, a alegria, cada um leva a vida da melhor maneira que lhe aprouver, mas o ideal seria que tudo isso ocorresse sem essa desvirtuada mistura do privado com o publico.
Somados, todos os recursos públicos destinados ao Precaju, desde quando começou a festa até o seu último alento, teríamos dinheiro suficiente para manter a Orquestra Sinfônica de Sergipe durante cinco anos, e ainda sobrariam recursos para instalar bandas de musica em uns trinta municípios. Com instrumentos, farda, e o salário dos maestros. Haveria dinheiro para dar uma ajudazinha por modesta que fosse, aos grupos folclóricos sergipanos, que vivem sempre numa enorme pindaíba.
Pois é, o lado mais autêntico, o lado efetivamente popular da nossa cultura, esse, sempre foi o mais esquecido. E para isso contribuiu também a nossa sociedade que se deixa fascinar pelos acessórios, e faz pouco caso do essencial. Em Sergipe, temos sido tão descuidados com, digamos assim, as nossas coisas, aquilo que faz a nossa identidade, que nos marca ou distingue como povo. De tanto esquecermos isso, toleramos e até aplaudimos, um cantor tipo a Wesley Safadão, recebendo de uma prefeitura, trezentos, quatrocentos mil reais, para cantar diante de uma multidão de jovens, e fazer apologia ao álcool, entre outras marginalidades que acompanham o seu rastro.
Contra isso ninguém fala, ninguém diz nada, porque reclamar seria uma inconveniência.
Nada contra o axé ou o brega, mas, quando se passeia pela historia bem sucedida de outros países que se fizeram desenvolvidos, cultos, socialmente avançados, é fácil constatar que as suas raízes estão fincadas, sempre, no solo generoso da cultura popular, dos costumes, dos comportamentos secularmente transmitidos. É possível entender a Europa sem passear pela evolução da Ópera, ou entender a negritude do Deep-South americano sem incluir o jazz, o soul, os spiritual, o gospel?
Por que a cultura nordestina, sulista, amazônica, do Brasil central aparecem tão visivelmente identificadas?
A resposta é fácil, e vai ser encontrada na valorização que deram à cultura popular.
Já observaram a diferença existente nos carnavais do Recife, de Olinda, de Salvador, e o artificialismo vazio que dominava o pré-fabricado e precificado festejo que se fazia em Aracaju antes do carnaval?
Surgiu, no Executivo, a ideia de dar algum destaque às coisas essencialmente nossas, nada de novidades ou passageiros modismos, mas, tão somente, ir à raiz da formação dessa sergipanidade maltratada, para reencontrar a nossa por sinal rica cultura popular. A cultura popular ainda sobrevivendo escondida pelos recantos sertanejos, praianos, agresteiros, vive, suspira, resiste, no chão sertanejo, nos esconsos de São Cristovão, na Muçuca, massapês das Laranjeiras, e por ai vão espalhando o que oralmente lhes foi transmitido, faz séculos, isso agora e ainda, em plena era tecnológica, do e-mail, do zap, da instantaneidade da fala colada à imagem.
O destaque foi então sugerido pelo arquiteto que projeta, e poeticamente desenha, Ézio Déda. Gama, o secretário da Cultura gostou, Jackson entusiasmou- se e disse: Vamos fazer. Mas, e as restrições orçamentárias, os atrasos nos salários, os problemas nos hospitais, uma segurança que não vence a bandidagem. Enfim, essas considerações do presente tenso, difícil, constrangedor. Mas há um presente de problemas que não serão vencidos, se nos acomodarmos na frustração do nada fazer, então, na discricionaridade das verbas que o governo maneja, havia no orçamento da cultura alguma coisa reservada, lógico, especialmente para a cultura. No Instituto BANESE, criado exatamente para dar apoio à cultura, Fernando Motta anunciou algum recurso disponível. E foi assim, com os olhos também voltados para o futuro, para algo que confira a Aracaju mais uma referencia, com faz, por exemplo, a Orla da Atalaia, onde as estátuas dos vultos sergipanos e brasileiros lá estão, e neles os turistas se aglomeram fazendo selfies. É bom lembrar que quando João Alves fez a Orla choveram criticas.
Onde se quer que existam turistas satisfeitos, cidadãos de bem com a cidade onde vivem, a cidade há de ser aprazível, há de ser acolhedora, há de ter alguma coisa diferenciada e bem caracterizada. Nem é preciso alinhar exemplos.
E assim, debaixo de criticas, de incompreensões, de muito preconceito, e também alguma coisa de recalques ou do que seja lá o que for, será nesse sábado, 17, dia de aniversário de Aracaju, inaugurado o Largo da Gente Sergipana. Lá estão representados em vistosas e coloridas imagens emolduradas pelos horizontes do rio, do estuário e do mar, representando nossas manifestações, danças, folguedos, alegrias, até tristezas. São os Bacamarteiros, o Barco de Fogo, o Cacumbi, a Chegança, o Lambe Sujo e Caboclinho, o Parafuso, o Reisado, o São Gonçalo a Taieira.
Seria tão bom que o espaço se transformasse efetivamente no Largo da Gente Sergipana, e começássemos a pensar, mais criticamente, sobre as estreitezas que nos limitam.

Nunca na história de Sergipe houve uma eleição tão prenhe de incertezas, de problemas presentes e questões inúmeras a resolver. Cerca de cinquenta por cento dos atuais detentores de mandatos não sabem ainda se poderão registrar as suas candidaturas. Isso é inédito, é quase inimaginável. Algo assim,  ou apenas parecido,  ocorreu durante o regime militar, quando mandatos eram frequentemente cassados e havia a ameaça sempre presente de punições a qualquer momento, porque pairava sobre tudo a força totalitária de um monstrengo,  a que deram o nome de Ato Institucional nº 5. Após aquele ato cuja perpetração fará em dezembro cinquenta anos, seis deputados estaduais  de uma só vez perderam os seus mandatos. Na área federal só um foi atingido, o deputado João Machado Rolemberg. Ele integrava a ampla base governista, mas recusou-se a votar a favor da cassação pela Câmara Federal do deputado Márcio Moreira Alves. O jovem parlamentar carioca fizera em setembro um discurso que muito irritou os militares, sugerindo que as pessoas não fossem assistir o desfile do dia sete, como demonstração de repúdio ao regime. 

O presidente marechal Costa e Silva posto nas cordas pela quase rebelião nos quarteis, esperou que a Câmara resolvesse o problema cassando o parlamentar alvo das iras fardadas. Os deputados reagiram, numa atitude quase suicida, todavia corajosa.  O discurso de Márcio fora apenas um episodio menor, proferido para um plenário quase vazio e sem repercussão numa mídia censurada. A Câmara negou a cassação, e registre-se no episódio, a atitude digna do sergipano João Machado Rolemberg. Mas o país pagou um alto preço, mergulhando na obscuridade de um tempo de completo autoritarismo. A Assembleia Legislativa de Sergipe foi fechada, e só veio a reabrir para participar de uma simulação que era a eleição indireta do governador de Sergipe em face da renuncia do governador Lourival Baptista, que se afastou contra a vontade do presidente Médici, para concorrer a uma cadeira no Senado, e, por isso, quase foi cassado também.

A partir do episódio do deputado Márcio Moreira Alves, agravou-se a crise, e as grandes manifestações nas ruas, fizeram a ¨linha dura¨ assumir o protagonismo, exigindo que em vez de diálogo o governo aumentasse a força da repressão.

Na vigência da democracia cassações de mandatos não são fatos corriqueiros.

Agora, até mesmo candidatos prováveis a cargos majoritários, também não têm certeza sobre o futuro próximo. Além dos problemas que já enfrenta o todo poderoso representante de Temer em Sergipe, o deputado federal André Moura, surge essa nova investigação autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, que começa com a quebra do sigilo bancário. Na mesma investigação foram incluídos o senador Eduardo Amorim, e o deputado estadual Luciano Pimentel. As investigações abrangem um período retroativo até 2012. É algo bastante sensível, porque envolve diálogos telefônicos entre cabos eleitorais, e dessas injunções sobre exigências de recursos para custar campanhas, quase nenhum político escapa. O problema mais grave surgirá, se na conta dos senhores parlamentares figurar algum depósito um tanto atípico. Não havendo isso, não haverá maiores problemas, a não ser, no caso específico de André, mais pedras colocadas no seu caminho, onde já existem obstáculos, até mesmo, o fato de estar agora exercendo um mandato a custa de uma liminar.

Além desses prováveis empecilhos de ordem legal, há os desencontros de ordem política que continuam assolando tanto o campo oposicionista como o do governo.

Na oposição se desentendem os Valadares com André Moura, e a sintonia entre o senador Eduardo e o deputado líder de Temer no Congresso não é das mais perfeitas.

No governo já ocorreram algumas defecções, como a do ex-deputado Bosco Costa, e o ex-deputado Heleno Silva e o deputado federal Joni Marcos estariam, ensaiando uma possível retirada do PRB da base do governo. Com relação às duvidas que pairavam sobre o afastamento de Jackson para candidatar-se ao Senado, tudo já parece superado, e o governador age agora fazendo uma contagem regressiva até o dia D, que será seis de abril. Assim, Belivaldo assume e será candidato a reeleição.

Mas apesar do prazo tão curto, até lá surpresas mil poderão acontecer, o que torna esses dias que restam até meados de abril, um período de fortes emoções. As atenções se voltam todas para o que será decidido em Brasília a partir da próxima semana.

 

COMO SE FAZ TRISTE O BRASIL

O Brasil anda triste, e não há nada pior do que um país tristonho. O povo brasileiro está depressivo ou se pondo em pé de guerra. Que desconsolo enorme o de uma geração que se vai findando, e tendo vivido os anos dourados, aqueles quase todos coincidindo com o qüinqüênio alegre, febricitante, criativo e esperançoso, a era JK. Que desconsolo enorme para uma geração que sobreviveu a tantas peripécias da História sem ter perdido a confiança num país que conseguia galvanizar a força criadora de um povo ainda cordial , e que agora se depara com a opressividade desses tempos violentos, ásperos,  carregados de  absurdas odiosidades. Que desconsolo enorme ver um país que o mundo admirava, a terra da tolerância, da ausência de radicalismo, da mistura  benfazeja de todas as raças,  e onde agora se apagam as luzes do bom senso e da esperança , dando lugar à obscuridade que nos remete à truculência  dos insanos.

Não é só desconsolo, é também frustração junto com desilusão e medo, tudo aquilo que faz o cenário lúgubre do pessimismo sem cura.

Essa coisa inominável, a estupidez da execução da vereadora carioca Marielli Franco, nos deixa a sensação de que a barbárie se instalou entre nós, porque muito pior do que o crime foi a ¨justificação¨ que surgiu na selvageria instalada nas redes sociais, aquela foto da vereadora com a inscrição que nos faz descrentes da nossa própria condição humana: ¨Trate bandidos como vítimas e um dia a vítima será você¨.

Marielli venceu os obstáculos enfrentados por quem nasce negro e é morador de favela. Aliás ela é um exemplo i dessa superação feita por muitos outros.  Nas Favelas, em quase todas elas há centros dinâmicos de iniciativas. Deles saem empreendedores que se destacam fazendo negócios inovadores, surgem líderes, pessoas intelectualmente qualificadas.

Uma coisa em tudo isso é claro e evidente: não se poderá vencer o crime, começando por criminalizar todos os favelados.  Contra essa criminalização é que se insurgia a vereadora.

Lembre-se que Brizola, determinou que as polícias não fizesse incursões armadas pelas favelas, até porque elas são no Rio mais de mil, e nelas vivem centenas de milhares de pessoas. Essas questões precisam ser discutidas, analisadas, sopesadas, diante do clima caótico que se instalou no Rio, onde a maior e mais pesada ameaça parte das milícias, os corpos armados formados na sua maioria por policiais, reformados, expulsos, ou na ativa.As milícias já têm sob seu controle absoluto mais de cento e cinquenta áreas no Rio de Janeiro.

Estão fazendo algo que poderá ser pior do que o próprio crime, estão partidarizando a tragédia, e os extremos se encontram na mesma insensatez, até se esquecem que não só a vereadora foi executada, também morreu um cidadão que apenas trabalhava para ganhar o  pão, o motorista de uber Anderson Gomes. Se acham os extremistas de um lado que a vereadora, a sua família não merecem respeito, pelo menos que respeitem, manifestem solidariedade, à família do trabalhador executado.

A saída estaria apenas nos aeroportos internacionais? E o que será do povão que nem sabe o que é passaporte?

 

CULTURA POPULAR, OU ESSA COISA DA RALÉ

O PrecajU durou mais de vinte anos. Fabiano conseguiu, sem dúvidas, fazer ressurgir em Aracaju o Carnaval, que há muito tempo sumira. A cidade movimentou-se com a festa, recebeu turistas, surgiram empregos, dinheiro circulando. O Precaju foi um bom negócio enquanto havia fartura de verbas federais estaduais e municipais, e as emendas parlamentares generosas para manter a folia. Mas, quase tudo nos chegava da Bahia. Do dinheiro que custeava a vinda das bandas, dos cantores e cantoras famosas e caras, da hospedagem de toda essa gente nos hotéis aracajuanos, uma boa parcela procedia do setor público, que patrocinava o Precaju. Assim, uma suculenta fatia do bolo era drenada para a Bahia.
Depois, as fontes secaram e a festa terminou. Nos tempos de euforia pintou-se o Precajú como se fosse um evento com raízes populares, algo assim muito ligado às tradições culturais da nossa gente. Não era nada disso, mas essa tintura ajudava muito na captação de recursos, recheava a argumentação para facilitar o transito pelo setor público. Não se poderia dizer que a festa era essencialmente elitista, mas a verdade é que, sem dinheiro, dela não se participava. O povão mesmo, que não precisa de fantasia para identificar-se como pobre, porque já é denunciado pelas próprias vestes, este, ficava do lado de fora das cordas esticadas pelos seguranças, que faziam o isolamento indispensável entre os pé de chinelo e o tênis de marca.
Na festa custeada na sua maior parte com dinheiro público, ao lado da exclusão social, havia o espaço do poder e do dinheiro: os camarotes exclusivos. Entre eles o mais badalado era aquele da Rede Ilha, o conglomerado de emissoras do empresário Edvan Amorim. Naquele camarote, em tempos de bonanças, juntavam-se o poder político e as vistosas contas bancárias. Nada contra a festança, a fruição, o prazer, a alegria, cada um leva a vida da melhor maneira que lhe aprouver, mas o ideal seria que tudo isso ocorresse sem essa desvirtuada mistura do privado com o publico.
Somados, todos os recursos públicos destinados ao Precaju, desde quando começou a festa até o seu último alento, teríamos dinheiro suficiente para manter a Orquestra Sinfônica de Sergipe durante cinco anos, e ainda sobrariam recursos para instalar bandas de musica em uns trinta municípios. Com instrumentos, farda, e o salário dos maestros. Haveria dinheiro para dar uma ajudazinha por modesta que fosse, aos grupos folclóricos sergipanos, que vivem sempre numa enorme pindaíba.
Pois é, o lado mais autêntico, o lado efetivamente popular da nossa cultura, esse, sempre foi o mais esquecido. E para isso contribuiu também a nossa sociedade que se deixa fascinar pelos acessórios, e faz pouco caso do essencial. Em Sergipe, temos sido tão descuidados com, digamos assim, as nossas coisas, aquilo que faz a nossa identidade, que nos marca ou distingue como povo. De tanto esquecermos isso, toleramos e até aplaudimos, um cantor tipo a Wesley Safadão, recebendo de uma prefeitura, trezentos, quatrocentos mil reais, para cantar diante de uma multidão de jovens, e fazer apologia ao álcool, entre outras marginalidades que acompanham o seu rastro.Contra isso ninguém fala, ninguém diz nada, porque reclamar seria uma inconveniência.
Nada contra o axé ou o brega, mas, quando se passeia pela historia bem sucedida de outros países que se fizeram desenvolvidos, cultos, socialmente avançados, é fácil constatar que as suas raízes estão fincadas, sempre, no solo generoso da cultura popular, dos costumes, dos comportamentos secularmente transmitidos. É possível entender a Europa sem passear pela evolução da Ópera, ou entender a negritude do Deep-South americano sem incluir o jazz, o soul, os spiritual, o gospel?
Por que a cultura nordestina, sulista, amazônica, do Brasil central aparecem tão visivelmente identificadas?A resposta é fácil, e vai ser encontrada na valorização que deram à cultura popular.
Já observaram a diferença existente nos carnavais do Recife, de Olinda, de Salvador, e o artificialismo vazio que dominava o pré-fabricado e precificado festejo que se fazia em Aracaju antes do carnaval?
Surgiu, no Executivo, a ideia de dar algum destaque às coisas essencialmente nossas, nada de novidades ou passageiros modismos, mas, tão somente, ir à raiz da formação dessa sergipanidade maltratada, para reencontrar a nossa por sinal rica cultura popular. A cultura popular ainda sobrevivendo escondida pelos recantos sertanejos, praianos, agresteiros, vive, suspira, resiste, no chão sertanejo, nos esconsos de São Cristovão, na Muçuca, massapês das Laranjeiras, e por ai vão espalhando o que oralmente lhes foi transmitido, faz séculos, isso agora e ainda, em plena era tecnológica, do e-mail, do zap, da instantaneidade da fala colada à imagem.
O destaque foi então sugerido pelo arquiteto que projeta, e poeticamente desenha, Ézio Déda. Gama, o secretário da Cultura gostou, Jackson entusiasmou- se e disse: Vamos fazer. Mas, e as restrições orçamentárias, os atrasos nos salários, os problemas nos hospitais, uma segurança que não vence a bandidagem. Enfim, essas considerações do presente tenso, difícil, constrangedor. Mas há um presente de problemas que não serão vencidos, se nos acomodarmos na frustração do nada fazer, então, na discricionaridade das verbas que o governo maneja, havia no orçamento da cultura alguma coisa reservada, lógico, especialmente para a cultura. No Instituto BANESE, criado exatamente para dar apoio à cultura, Fernando Motta anunciou algum recurso disponível. E foi assim, com os olhos também voltados para o futuro, para algo que confira a Aracaju mais uma referencia, com faz, por exemplo, a Orla da Atalaia, onde as estátuas dos vultos sergipanos e brasileiros lá estão, e neles os turistas se aglomeram fazendo selfies. É bom lembrar que quando João Alves fez a Orla choveram criticas.
Onde se quer que existam turistas satisfeitos, cidadãos de bem com a cidade onde vivem, a cidade há de ser aprazível, há de ser acolhedora, há de ter alguma coisa diferenciada e bem caracterizada. Nem é preciso alinhar exemplos.
E assim, debaixo de criticas, de incompreensões, de muito preconceito, e também alguma coisa de recalques ou do que seja lá o que for, será nesse sábado, 17, dia de aniversário de Aracaju, inaugurado o Largo da Gente Sergipana. Lá estão representados em vistosas e coloridas imagens emolduradas pelos horizontes do rio, do estuário e do mar, representando nossas manifestações, danças, folguedos, alegrias, até tristezas. São os Bacamarteiros, o Barco de Fogo, o Cacumbi, a Chegança, o Lambe Sujo e Caboclinho, o Parafuso, o Reisado, o São Gonçalo a Taieira.
Seria tão bom que o espaço se transformasse efetivamente no Largo da Gente Sergipana, e começássemos a pensar, mais criticamente, sobre as estreitezas que nos limitam.