Nem sequer educação... Apenas "saúde" e dominação

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Publicada em 20/03/2018 às 01:10:00

 

* Antonio Passos
A escola continua sendo um investimento relativamente barato, se comparada a outros direitos sociais. Por mais que se fale em novas tecnologias da educação, um professor e uma sala de aula em condições razoáveis ainda fazem muito. O mesmo não se pode dizer se olharmos para aquilo que a ideologia dominante chama de "saúde".
Na minha infância, em Nossa Senhora das Dores, na década de 1960, um único médico residente no município cuidava da saúde - chamava-se Doutor Milton. Tenho vaga lembrança de uma ida ao consultório dele. O suficiente para recordar que, com recursos bem básicos, ele diagnosticou e orientou o tratamento de uma hepatite em mim.
Faz uns quatro anos, eu fui a um consultório médico buscar tratamento para fortes dores que estava sentindo no pulso esquerdo e no ombro direito. Um médico muito jovem me atendeu de pé e, após um brevíssimo relato que fiz sobre as dores, prescreveu diversos exames, seguramente caros por envolver muita tecnologia.
Eu poderia providenciar os exames, o plano de saúde pagaria tudo. Porém, já havia uma pulga atrás da minha orelha em relação aos novos rumos que estavam tomando os atendimentos médicos. Saí do consultório, rasguei a requisição dos exames e joguei na lata de lixo, ali mesmo na pomposa sala de espera da clínica.
Procurei um segundo profissional, esse já sexagenário. Dessa vez o atendimento ocorreu com médico e paciente sentados. Não houve pressa nem desinteresse aparentes. Após uma conversa tranquila sobre as dores que incomodavam, foram pedidas apenas duas radiografias. Em poucos dias os problemas foram diagnosticados.
Ainda mais recentemente, por força de uma viagem, precisei tomar vacina contra a febre amarela. Fui então ao Posto Médico Sinhazinha e lá assisti cenas terríveis de arrogância. Enquanto dedicadas enfermeiras atendiam às demandas constantes, algumas pessoas quase crucificaram as atendentes acusando-as de negligência.
Estamos no tempo do direito ao que a ideologia dominante chama de "saúde". Trata-se de uma "saúde" caríssima, pois, totalmente subordinada ao que se pode chamar a indústria: dos exames, dos laboratórios e farmacêutica. Não por acaso, Aracaju e muitas outras cidades brasileiras por onde tenho andado, estão infestadas de farmácias.
Que os ricos se submetam à indústria da "saúde" parece-me cabível, frente aos recursos dos quais dispõem, embora insano. O mesmo faz a classe média, agarrada aos planos de saúde que ainda pode pagar, não sem aflição. Mas, de modo geral, está massificada entre o povo a ideologia dominante da "saúde", pela qual todos clamam.
Uma amiga que mora em Nossa Senhora do Socorro e vai de transporte público ao trabalho, na zona sul de Aracaju, me contou que só se fala nisso no ônibus. A revolta é geral com os péssimos serviços de "saúde". Não se fala quase mais em educação, muito menos em esporte, em cultura, em nada... Só em segurança e saúde.
Sei que as pessoas que estão diariamente nos ônibus não vão ler este texto. Elas, de modo geral, estão muito ocupadas para isso. Publico aqui reflexões como quem lança mensagens em garrafas ao mar. É isso que queremos? Uma sociedade embrutecida e desesperada, clamando por um sistema que nunca será possível pagar para todos?
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos


A escola continua sendo um investimento relativamente barato, se comparada a outros direitos sociais. Por mais que se fale em novas tecnologias da educação, um professor e uma sala de aula em condições razoáveis ainda fazem muito. O mesmo não se pode dizer se olharmos para aquilo que a ideologia dominante chama de "saúde".
Na minha infância, em Nossa Senhora das Dores, na década de 1960, um único médico residente no município cuidava da saúde - chamava-se Doutor Milton. Tenho vaga lembrança de uma ida ao consultório dele. O suficiente para recordar que, com recursos bem básicos, ele diagnosticou e orientou o tratamento de uma hepatite em mim.
Faz uns quatro anos, eu fui a um consultório médico buscar tratamento para fortes dores que estava sentindo no pulso esquerdo e no ombro direito. Um médico muito jovem me atendeu de pé e, após um brevíssimo relato que fiz sobre as dores, prescreveu diversos exames, seguramente caros por envolver muita tecnologia.
Eu poderia providenciar os exames, o plano de saúde pagaria tudo. Porém, já havia uma pulga atrás da minha orelha em relação aos novos rumos que estavam tomando os atendimentos médicos. Saí do consultório, rasguei a requisição dos exames e joguei na lata de lixo, ali mesmo na pomposa sala de espera da clínica.
Procurei um segundo profissional, esse já sexagenário. Dessa vez o atendimento ocorreu com médico e paciente sentados. Não houve pressa nem desinteresse aparentes. Após uma conversa tranquila sobre as dores que incomodavam, foram pedidas apenas duas radiografias. Em poucos dias os problemas foram diagnosticados.
Ainda mais recentemente, por força de uma viagem, precisei tomar vacina contra a febre amarela. Fui então ao Posto Médico Sinhazinha e lá assisti cenas terríveis de arrogância. Enquanto dedicadas enfermeiras atendiam às demandas constantes, algumas pessoas quase crucificaram as atendentes acusando-as de negligência.
Estamos no tempo do direito ao que a ideologia dominante chama de "saúde". Trata-se de uma "saúde" caríssima, pois, totalmente subordinada ao que se pode chamar a indústria: dos exames, dos laboratórios e farmacêutica. Não por acaso, Aracaju e muitas outras cidades brasileiras por onde tenho andado, estão infestadas de farmácias.
Que os ricos se submetam à indústria da "saúde" parece-me cabível, frente aos recursos dos quais dispõem, embora insano. O mesmo faz a classe média, agarrada aos planos de saúde que ainda pode pagar, não sem aflição. Mas, de modo geral, está massificada entre o povo a ideologia dominante da "saúde", pela qual todos clamam.
Uma amiga que mora em Nossa Senhora do Socorro e vai de transporte público ao trabalho, na zona sul de Aracaju, me contou que só se fala nisso no ônibus. A revolta é geral com os péssimos serviços de "saúde". Não se fala quase mais em educação, muito menos em esporte, em cultura, em nada... Só em segurança e saúde.
Sei que as pessoas que estão diariamente nos ônibus não vão ler este texto. Elas, de modo geral, estão muito ocupadas para isso. Publico aqui reflexões como quem lança mensagens em garrafas ao mar. É isso que queremos? Uma sociedade embrutecida e desesperada, clamando por um sistema que nunca será possível pagar para todos?
* Antonio Passos é jornalista