Qual é, sergipano?

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Publicada em 21/03/2018 às 00:41:00

 

* Antonio Passos
Você sabe o que é Taieira, São Gonçalo, Cacumbi? Já ouviu falar alguma coisa sobre os Bacamarteiros, a guerra entre Lambe Sujo e Caboclinhos? E o boi do Reisado? Os Parafusos, a Chegança? O Barco de Fogo provavelmente você conhece... Ou não? Essas são as manifestações representadas no Largo da Gente Sergipana, inaugurado no dia 17 de março, no aniversário dos 163 anos de Aracaju.
Mesmo antes de ser oficialmente aberto ao público o Largo recebeu xingamentos. Vi gozações nas redes sociais e me disseram que foi conversa corrente no transporte coletivo - muitas linhas de ônibus passam na frente do novo espaço. Sei que muita gente xinga por xingar, por adesão, porque a revolta generalizada contra a política está na moda, porque dizer que nenhum presta é um modo de lavar as mãos...
As pessoas também xingam, certamente, porque não se identificam com as imagens ali colocadas. Se fosse, por exemplo, uma fileira de estátuas de santos católicos os seguidores de Roma iriam aplaudir, ou, ao menos respeitar. Já os evangélicos, com certeza, nem tanto. Fato é que, para se criticar alguma coisa, é importante saber-se um pouco sobre o que se está criticando. Senão, incorre-se em preconceito.
Mas, têm as pessoas culpa por não saberem nada ou quase nada sobre o que simbolizam as imagens no Largo da Gente Sergipana? A cultura popular, amiúde, é apresentada aos alunos na escola? A história cultural que compõe o que vem a ser o sergipano aparece na TV? Está nos jogos em vídeo ou nos aplicativos para celular? A Netflix tem em seu catálogo algum filme sobre a cultura sergipana?
Ocorre que somos, em grande parte ou na totalidade, uma sociedade de massa. Isso significa dizer que somos bombardeados desde a infância por informações e imagens externas à cultura do local no qual vivemos. O sistema quer nos fazer mais cidadãos do mundo, com hábitos de consumo bem padronizados, e menos cidadãos da nossa própria terra. O popular não se adequa bem aos interesses dominantes.
Então, se os desenraizados moradores da capital não sabem nada ou pouco sabem sobre a cultura sergipana, se sofrem uma violenta colonização da cultura de massa, não é difícil disseminar maledicências entre os aracajuanos, contra o até então inédito monumento erguido em homenagem a esses grupos que souberam preservar em seus corpos e em suas memórias os mais distantes ecos da nossa ancestralidade.
Penso que todo debate, desde que sustentado em sinceridade, é saudável. Quanto a esse tema especificamente, já que somos identificados como sergipanos e se trata de uma discussão bem sergipana, nada melhor do que começar refletindo sobre o que significa esse ser sergipano. Para você, essa identidade cultural tem importância? Você concorda que a cultura popular é fundamental na formação dessa identidade?
Bom, se eu achasse que a cultura popular tem um valor negativo que deve ser apagado da nossa história e não preservado. Se eu acreditasse que a total submissão à cultura de massa é o melhor caminho para a sociedade, eu seria contra o Largo da Gente Sergipana. Mais que isso, eu seria favorável ao fechamento do Museu da Gente Sergipana e a venda do prédio para um empreendimento empresarial qualquer.
E você?
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos


Você sabe o que é Taieira, São Gonçalo, Cacumbi? Já ouviu falar alguma coisa sobre os Bacamarteiros, a guerra entre Lambe Sujo e Caboclinhos? E o boi do Reisado? Os Parafusos, a Chegança? O Barco de Fogo provavelmente você conhece... Ou não? Essas são as manifestações representadas no Largo da Gente Sergipana, inaugurado no dia 17 de março, no aniversário dos 163 anos de Aracaju.
Mesmo antes de ser oficialmente aberto ao público o Largo recebeu xingamentos. Vi gozações nas redes sociais e me disseram que foi conversa corrente no transporte coletivo - muitas linhas de ônibus passam na frente do novo espaço. Sei que muita gente xinga por xingar, por adesão, porque a revolta generalizada contra a política está na moda, porque dizer que nenhum presta é um modo de lavar as mãos...
As pessoas também xingam, certamente, porque não se identificam com as imagens ali colocadas. Se fosse, por exemplo, uma fileira de estátuas de santos católicos os seguidores de Roma iriam aplaudir, ou, ao menos respeitar. Já os evangélicos, com certeza, nem tanto. Fato é que, para se criticar alguma coisa, é importante saber-se um pouco sobre o que se está criticando. Senão, incorre-se em preconceito.
Mas, têm as pessoas culpa por não saberem nada ou quase nada sobre o que simbolizam as imagens no Largo da Gente Sergipana? A cultura popular, amiúde, é apresentada aos alunos na escola? A história cultural que compõe o que vem a ser o sergipano aparece na TV? Está nos jogos em vídeo ou nos aplicativos para celular? A Netflix tem em seu catálogo algum filme sobre a cultura sergipana?
Ocorre que somos, em grande parte ou na totalidade, uma sociedade de massa. Isso significa dizer que somos bombardeados desde a infância por informações e imagens externas à cultura do local no qual vivemos. O sistema quer nos fazer mais cidadãos do mundo, com hábitos de consumo bem padronizados, e menos cidadãos da nossa própria terra. O popular não se adequa bem aos interesses dominantes.
Então, se os desenraizados moradores da capital não sabem nada ou pouco sabem sobre a cultura sergipana, se sofrem uma violenta colonização da cultura de massa, não é difícil disseminar maledicências entre os aracajuanos, contra o até então inédito monumento erguido em homenagem a esses grupos que souberam preservar em seus corpos e em suas memórias os mais distantes ecos da nossa ancestralidade.
Penso que todo debate, desde que sustentado em sinceridade, é saudável. Quanto a esse tema especificamente, já que somos identificados como sergipanos e se trata de uma discussão bem sergipana, nada melhor do que começar refletindo sobre o que significa esse ser sergipano. Para você, essa identidade cultural tem importância? Você concorda que a cultura popular é fundamental na formação dessa identidade?
Bom, se eu achasse que a cultura popular tem um valor negativo que deve ser apagado da nossa história e não preservado. Se eu acreditasse que a total submissão à cultura de massa é o melhor caminho para a sociedade, eu seria contra o Largo da Gente Sergipana. Mais que isso, eu seria favorável ao fechamento do Museu da Gente Sergipana e a venda do prédio para um empreendimento empresarial qualquer.
E você?
* Antonio Passos é jornalista