Fernando Soutelo e a memória cultural de Sergipe

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Publicada em 21/03/2018 às 00:42:00

 

* Claudefranklin Monteiro Santos
** Raianne Pereira de Oliveira
Enquanto as pessoas se debatem e deba
tem sobre o Largo da Gente Sergipana, a 
meu nosso ver uma iniciativa bastante legítima, um personagem se destaca e merece a nossa atenção, sobretudo quando o assunto é memória cultural.
Prestes a completar 70 anos de idade, em plena forma intelectual, Luís Fernando Ribeiro Soutelo, filho de pais sergipanos, Antônio Ribeiro Soutello (Santa Luzia do Itanhy) e Maria Luíza Ribeiro Soutello (Estância), nasceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 15 de junho de 1949. 
Sua avó paterna, Arabela Ribeiro Soutelo, ficou viúva com pouco mais de dois anos de casada. Depois de doze anos resolveu se casar novamente, com outro português, e foi morar no Rio de Janeiro, em 1935, juntamente com o pai de Soutelo. Lá, fez o resto do ginásio, fez o curso que naquela época era o atual segundo grau, e fez o vestibular para Engenharia no Rio de Janeiro. Fez, também, em Juiz de Fora, e começou o primeiro período, se transferindo para a Capital Federal. Desde os quinze anos namorava com a sua mãe, casaram e foram morar por lá até 1952, quando resolveram mudar-se para Sergipe, na Fazenda Castelo, em Santa Luzia Itanhy. Soutelo tinha três anos incompletos. Ali viveu boa parte de sua infância, numa prole de seis irmãos, entre eles: Luís, Paulo César, Arabela.
A família vivia na usina. Começou a estudar com a avó materna, que o ensinou o ABC e depois passou a estudar na Escola Antônio Vieira, que era uma instituição mantida pela usina para os filhos dos funcionários. Depois foi morar em Estância, e estudou no Instituto Dom Quirino, quando foi colega do médico Paulo Amado, recém-eleito imortal da Academia Sergipana de Letras.
Eles foram colegas de turma e dividiram o mesmo banco. De lá, foi pra Aracaju, fazer exame de qualificação, permanecendo até então. Estudou no Ginásio de Aplicação, na Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe, atual prédio do IPES, na Rua de Campos. Sua aptidão inicial era o Direito, depois decidiu fazer economia.
Sua significativa trajetória cultural deu início no jornalzinho do mural do Aplicação. Em 1964, a Professora Lindalva Cardoso Dantas criou uma coisa que chamava "Clube de Ciências", onde também desenvolvida atividades de redator.
 No ano seguinte, foi para o Atheneu, fazer o "Curso Clássico", num prédio da Praça Graccho Cardoso. Ali, foi membro da Arcádia Estudantil do Colégio Estadual de Sergipe, ocupando uma cadeira que tinha como patrono Joaquim Nabuco. 
Ainda nos anos 60, antes da arcádia, em 13 de março de 1966, esteve no grupo (João de Barros - "barrinhos", José Roriz Silva, José Lacerda de Oliveira, Djaldino Mota Moreno, João Ferreira Lima, Garibaldi Nascimento e Carlos Alberto Porto) que criou a Associação Sergipana de Cultura - ASC. Era uma entidade que promovia atividades culturais, como, por exemplo, a primeira exposição de Adalto Machado 
Foi aluno da primeira turma de economia que entrou na UFS, em 1968. O curso funcionava no prédio da Justiça Federal, na Praça Camerino. Na ocasião, foi estagiário da "CONDESE" - uma divisão de estudos e pesquisas. No ano seguinte, foi trabalhar na Prefeitura de Aracaju, como oficial de gabinete do prefeito Aloísio Campos. Isso até 1970, quando foi para o Palácio do Governo, na Casa Civil.
Em 1971, na posse do Governador Paulo Barreto de Menezes, recebeu um desafio, que foi o de ser Secretário de Imprensa do Gabinete do Governador, adentrando numa área que irá marcou sua carreira por longos anos: o cerimonial
 Por ocasião do Sesquicentenário da Independência, acompanhou a chegada dos restos mortais de Dom. Pedro I e participou ativamente daquela efeméride. Era a porta de entrada para o ambiente cultural da Sergipanidade. Em 1972 e 1973, foi economista da "Telergipe", depois Energipe.
Em 1974, esteve também envolvido em outra importante efeméride da memória cultural de Sergipe: os 400 anos da presença jesuítica. Naquela ocasião, Urbano de Oliveira Lima Neto lhe comunicou que ele o havia indicado para o Conselho de Cultura, quando ficou até 1980. Em outras ocasiões, retornou à instituição, ocupando diversas funções, entre elas a de Presidente (1979-1986). Em 2015, encerrou sua longa trajetória por lá, para se dedicar à última administração municipal de João Alves, em Aracaju.
No Governo de Djenal Queiroz em 1982, retomou a atividade de cerimonial como chefe do gabinete do Secretário de Indústria e Comércio. Daí em diante, esteve nos governos de João Alves, saindo com Valadares, quando foi trabalhar com Luís Antônio Barreto, na Fundação Joaquim Nabuco, retornando a Sergipe em 1988, para a Energipe. 
Em 1991, voltou para o cerimonial com João Alves, ficando ainda no período de Albano.
Atualmente, tem atuado mais de perto na Academia Sergipana de Letras. Frequenta o Sodalício desde os anos 70, mas só se tornou seu membro em 1985. Sua posse se deu no dia 05 de novembro daquele ano e foi recebido por seu amigo, o saudoso Luiz Antônio Barreto. À época, era Presidente Luiz Antônio Garcia.
Também é sócio do Instituto Histórico desde os anos 70. Chegou à Casa de Sergipe, onde hoje faz parte da atual Diretoria, por intermédio da Professora Maria Thétis Nunes, que havia sido sua professora de Geografia Econômica no primeiro ano de Faculdade e por quem passou a nutrir uma grande estima, logo uma amizade de longa data.
Em todos os lugares por onde passou, Fernando Soutelo adquiriu o hábito de ler, anotar e consultar as principais fontes da História de Sergipe, produzindo inúmeros textos, capítulos de livro e pareceres do Conselho Estadual de Cultura, estes últimos, primorosas peças da mais alta qualidade, um verdadeiro banquete para pesquisadores.
Frente ao exposto, qualquer investida no campo da memória cultural sergipana terá que ter como mote um mergulho na lavra literária e intelectual de Luiz Fernando Ribeiro Soutelo. Talvez assim, discussões em torno do Largo da Gente Sergipana possam se tornar mais lúcidas e menos barulhentas, movidas unicamente pela marca identitária que enverga e representa.
* Claudefranklin Monteiro Santos é professor doutor da UFS; ** Raianne Pereira de Oliveira é mestranda em História da UFS

* Claudefranklin Monteiro Santos*

* Raianne Pereira de Oliveira


Enquanto as pessoas se debatem e deba tem sobre o Largo da Gente Sergipana, a  meu nosso ver uma iniciativa bastante legítima, um personagem se destaca e merece a nossa atenção, sobretudo quando o assunto é memória cultural.
Prestes a completar 70 anos de idade, em plena forma intelectual, Luís Fernando Ribeiro Soutelo, filho de pais sergipanos, Antônio Ribeiro Soutello (Santa Luzia do Itanhy) e Maria Luíza Ribeiro Soutello (Estância), nasceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 15 de junho de 1949. 
Sua avó paterna, Arabela Ribeiro Soutelo, ficou viúva com pouco mais de dois anos de casada. Depois de doze anos resolveu se casar novamente, com outro português, e foi morar no Rio de Janeiro, em 1935, juntamente com o pai de Soutelo. Lá, fez o resto do ginásio, fez o curso que naquela época era o atual segundo grau, e fez o vestibular para Engenharia no Rio de Janeiro. Fez, também, em Juiz de Fora, e começou o primeiro período, se transferindo para a Capital Federal. Desde os quinze anos namorava com a sua mãe, casaram e foram morar por lá até 1952, quando resolveram mudar-se para Sergipe, na Fazenda Castelo, em Santa Luzia Itanhy. Soutelo tinha três anos incompletos. Ali viveu boa parte de sua infância, numa prole de seis irmãos, entre eles: Luís, Paulo César, Arabela.
A família vivia na usina. Começou a estudar com a avó materna, que o ensinou o ABC e depois passou a estudar na Escola Antônio Vieira, que era uma instituição mantida pela usina para os filhos dos funcionários. Depois foi morar em Estância, e estudou no Instituto Dom Quirino, quando foi colega do médico Paulo Amado, recém-eleito imortal da Academia Sergipana de Letras.
Eles foram colegas de turma e dividiram o mesmo banco. De lá, foi pra Aracaju, fazer exame de qualificação, permanecendo até então. Estudou no Ginásio de Aplicação, na Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe, atual prédio do IPES, na Rua de Campos. Sua aptidão inicial era o Direito, depois decidiu fazer economia.
Sua significativa trajetória cultural deu início no jornalzinho do mural do Aplicação. Em 1964, a Professora Lindalva Cardoso Dantas criou uma coisa que chamava "Clube de Ciências", onde também desenvolvida atividades de redator.
 No ano seguinte, foi para o Atheneu, fazer o "Curso Clássico", num prédio da Praça Graccho Cardoso. Ali, foi membro da Arcádia Estudantil do Colégio Estadual de Sergipe, ocupando uma cadeira que tinha como patrono Joaquim Nabuco. 
Ainda nos anos 60, antes da arcádia, em 13 de março de 1966, esteve no grupo (João de Barros - "barrinhos", José Roriz Silva, José Lacerda de Oliveira, Djaldino Mota Moreno, João Ferreira Lima, Garibaldi Nascimento e Carlos Alberto Porto) que criou a Associação Sergipana de Cultura - ASC. Era uma entidade que promovia atividades culturais, como, por exemplo, a primeira exposição de Adalto Machado 
Foi aluno da primeira turma de economia que entrou na UFS, em 1968. O curso funcionava no prédio da Justiça Federal, na Praça Camerino. Na ocasião, foi estagiário da "CONDESE" - uma divisão de estudos e pesquisas. No ano seguinte, foi trabalhar na Prefeitura de Aracaju, como oficial de gabinete do prefeito Aloísio Campos. Isso até 1970, quando foi para o Palácio do Governo, na Casa Civil.
Em 1971, na posse do Governador Paulo Barreto de Menezes, recebeu um desafio, que foi o de ser Secretário de Imprensa do Gabinete do Governador, adentrando numa área que irá marcou sua carreira por longos anos: o cerimonial
 Por ocasião do Sesquicentenário da Independência, acompanhou a chegada dos restos mortais de Dom. Pedro I e participou ativamente daquela efeméride. Era a porta de entrada para o ambiente cultural da Sergipanidade. Em 1972 e 1973, foi economista da "Telergipe", depois Energipe.
Em 1974, esteve também envolvido em outra importante efeméride da memória cultural de Sergipe: os 400 anos da presença jesuítica. Naquela ocasião, Urbano de Oliveira Lima Neto lhe comunicou que ele o havia indicado para o Conselho de Cultura, quando ficou até 1980. Em outras ocasiões, retornou à instituição, ocupando diversas funções, entre elas a de Presidente (1979-1986). Em 2015, encerrou sua longa trajetória por lá, para se dedicar à última administração municipal de João Alves, em Aracaju.
No Governo de Djenal Queiroz em 1982, retomou a atividade de cerimonial como chefe do gabinete do Secretário de Indústria e Comércio. Daí em diante, esteve nos governos de João Alves, saindo com Valadares, quando foi trabalhar com Luís Antônio Barreto, na Fundação Joaquim Nabuco, retornando a Sergipe em 1988, para a Energipe. 
Em 1991, voltou para o cerimonial com João Alves, ficando ainda no período de Albano.
Atualmente, tem atuado mais de perto na Academia Sergipana de Letras. Frequenta o Sodalício desde os anos 70, mas só se tornou seu membro em 1985. Sua posse se deu no dia 05 de novembro daquele ano e foi recebido por seu amigo, o saudoso Luiz Antônio Barreto. À época, era Presidente Luiz Antônio Garcia.
Também é sócio do Instituto Histórico desde os anos 70. Chegou à Casa de Sergipe, onde hoje faz parte da atual Diretoria, por intermédio da Professora Maria Thétis Nunes, que havia sido sua professora de Geografia Econômica no primeiro ano de Faculdade e por quem passou a nutrir uma grande estima, logo uma amizade de longa data.
Em todos os lugares por onde passou, Fernando Soutelo adquiriu o hábito de ler, anotar e consultar as principais fontes da História de Sergipe, produzindo inúmeros textos, capítulos de livro e pareceres do Conselho Estadual de Cultura, estes últimos, primorosas peças da mais alta qualidade, um verdadeiro banquete para pesquisadores.
Frente ao exposto, qualquer investida no campo da memória cultural sergipana terá que ter como mote um mergulho na lavra literária e intelectual de Luiz Fernando Ribeiro Soutelo. Talvez assim, discussões em torno do Largo da Gente Sergipana possam se tornar mais lúcidas e menos barulhentas, movidas unicamente pela marca identitária que enverga e representa.
* Claudefranklin Monteiro Santos é professor doutor da UFS; ** Raianne Pereira de Oliveira é mestranda em História da UFS