Sessão da Tarde no STF

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O STF virou um teatro
O STF virou um teatro

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Publicada em 22/03/2018 às 23:03:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
"Vossa excelência" virou xingamento dos mais cabeludos. E as câmeras de prontidão nos tribunais superiores se encarregaram de divulgar a ofensa entre os pobres mortais, no meio do populacho.
Há quem lamente a espetacularização do processo judicial. Eu não. Há no palavrório próprio dos homens de toga um valor de grandeza estética, a delícia de mesuras estranhas ao comum das gentes, um show de civilidade digno de monarquias seculares. 
Na Sessão da Tarde, o Rei com a coroa cravejada de todos os brilhos e diamantes jamais mandou alguém para a forca por força de um ofício, num gesto meramente burocrático. A execução, ao contrário, sempre é precedida do vocabulário mais grandiloquente. Do mesmo modo, os senhores ministros capricham sob os holofotes da opinião pública. Na corte, brilham os doutos, com uma inflexão de fazer inveja a muito ator agraciado com o Oscar.
O texto declamado com heroísmo ensaiado no plenário do Supremo Tribunal Federal ataca de latim, francês e, se vacilar, até aramaico. A defesa menciona "a volúpia do encarceramento", sugerindo as manchetes do dia seguinte. O povão acompanha, tentando entender: Finalmente, Lula verá o sol nascer quadrado?
As sessões do STF, com transmissão ao vivo, são fenômeno revelador de uma sensibilidade embrutecida. Assim, pouco importa a jurisprudência e uma eventual repercussão de qualquer julgamento nas instâncias inferiores. Mais importante é o placar, a comoção do prezado público, a adesão irrefletida e o aplauso das plateias.
Gladiadores da retórica, os ministros do STF esgrimem votos, considerações e, principalmente, adjetivos fora de moda. Nos embates de maior escândalo, um e outro é ferido de morte, e ergue a voz esgoelada, vencido, com o ego em sangue, e vive o drama completo da própria vaidade. O STF virou um teatro.

"Vossa excelência" virou xingamento dos mais cabeludos. E as câmeras de prontidão nos tribunais superiores se encarregaram de divulgar a ofensa entre os pobres mortais, no meio do populacho.
Há quem lamente a espetacularização do processo judicial. Eu não. Há no palavrório próprio dos homens de toga um valor de grandeza estética, a delícia de mesuras estranhas ao comum das gentes, um show de civilidade digno de monarquias seculares. 
Na Sessão da Tarde, o Rei com a coroa cravejada de todos os brilhos e diamantes jamais mandou alguém para a forca por força de um ofício, num gesto meramente burocrático. A execução, ao contrário, sempre é precedida do vocabulário mais grandiloquente. Do mesmo modo, os senhores ministros capricham sob os holofotes da opinião pública. Na corte, brilham os doutos, com uma inflexão de fazer inveja a muito ator agraciado com o Oscar.
O texto declamado com heroísmo ensaiado no plenário do Supremo Tribunal Federal ataca de latim, francês e, se vacilar, até aramaico. A defesa menciona "a volúpia do encarceramento", sugerindo as manchetes do dia seguinte. O povão acompanha, tentando entender: Finalmente, Lula verá o sol nascer quadrado?
As sessões do STF, com transmissão ao vivo, são fenômeno revelador de uma sensibilidade embrutecida. Assim, pouco importa a jurisprudência e uma eventual repercussão de qualquer julgamento nas instâncias inferiores. Mais importante é o placar, a comoção do prezado público, a adesão irrefletida e o aplauso das plateias.
Gladiadores da retórica, os ministros do STF esgrimem votos, considerações e, principalmente, adjetivos fora de moda. Nos embates de maior escândalo, um e outro é ferido de morte, e ergue a voz esgoelada, vencido, com o ego em sangue, e vive o drama completo da própria vaidade. O STF virou um teatro.