Faca na caveira!

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Capitão Nascimento, um dos personagens incômodos do cinema nacional
Capitão Nascimento, um dos personagens incômodos do cinema nacional

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Publicada em 29/03/2018 às 04:41:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O bulício nas redes 
sociais quase me 
convenceu a perder tempo com 'O mecanismo', série de José Padilha inspirada pelos incontáveis capítulos da Operação Lava Jato. O ridículo do boicote sugerido contra a Netflix, em função de eventuais liberdades narrativas, o ódio declarado ao diretor do filme 'Tropa de Elite', no entanto, não justificam o menor espanto. As Jornadas de Junho despertaram paixões primitivas. Quem agora aponta o dedo para a plataforma de streaming gritou antes que haveria Copa, sim senhor! E ai de quem considerasse, no evento esportivo, os diversos indícios de superfaturamento e argumentasse contra o seu legado.
Faca na caveira, portanto. Selton Melo não me desce, mas o Capitão Nascimento vivido por Wagner Moura é, sem nenhum exagero, dos personagens mais fortes, ambivalentes e incômodos do cinema nacional. Há, no maior sucesso comercial de Padilha (o documentário 'Ônibus 174' é um trabalho de méritos reconhecidos, mas não entra nessa conta), um dado de violência doendo na pele dos pretos e pobres à margem. O resto do País só sabia dos abusos policiais por "ouvir dizer". 'Tropa de elite' apresentou a classe média maconheira das universidades ao saco.
A verdade peca muita vezes por inconveniente. A sentença vale para o aquecimento global e para as fraturas expostas da nossa democracia racial, também. A violência de Estado, criminosa, as suas razões e estratégias, estão perfeitamente materializadas no Caveirão, o blindado utilizado pela polícia militar do Rio de Janeiro para entrar na favela. O filme de Padilha não o rechaça em nenhum momento. Os soldados do Bope, treinados para a guerra, torturam e matam, mas jamais adquirem a feição de monstros. E isso, a esquerda religiosa, do bem contra o mal, jamais perdoará a Padilha.
Nenhuma palavra sobre a série da Netflix - você não pode deixar de perder. Mas, a bem da verdade, a birra com o seu diretor é mais antiga. Ele teve a audácia de colocar o País onde bandido bom é bandido morto diante de um espelho, sem fazer nenhuma concessão às sociologias de araque. Uma posição política legítima, alheia ao código binário que anima a militância da internet. Daí o escândalo e o escárnio.

O bulício nas redes  sociais quase me  convenceu a perder tempo com 'O mecanismo', série de José Padilha inspirada pelos incontáveis capítulos da Operação Lava Jato. O ridículo do boicote sugerido contra a Netflix, em função de eventuais liberdades narrativas, o ódio declarado ao diretor do filme 'Tropa de Elite', no entanto, não justificam o menor espanto. As Jornadas de Junho despertaram paixões primitivas. Quem agora aponta o dedo para a plataforma de streaming gritou antes que haveria Copa, sim senhor! E ai de quem considerasse, no evento esportivo, os diversos indícios de superfaturamento e argumentasse contra o seu legado.
Faca na caveira, portanto. Selton Melo não me desce, mas o Capitão Nascimento vivido por Wagner Moura é, sem nenhum exagero, dos personagens mais fortes, ambivalentes e incômodos do cinema nacional. Há, no maior sucesso comercial de Padilha (o documentário 'Ônibus 174' é um trabalho de méritos reconhecidos, mas não entra nessa conta), um dado de violência doendo na pele dos pretos e pobres à margem. O resto do País só sabia dos abusos policiais por "ouvir dizer". 'Tropa de elite' apresentou a classe média maconheira das universidades ao saco.
A verdade peca muita vezes por inconveniente. A sentença vale para o aquecimento global e para as fraturas expostas da nossa democracia racial, também. A violência de Estado, criminosa, as suas razões e estratégias, estão perfeitamente materializadas no Caveirão, o blindado utilizado pela polícia militar do Rio de Janeiro para entrar na favela. O filme de Padilha não o rechaça em nenhum momento. Os soldados do Bope, treinados para a guerra, torturam e matam, mas jamais adquirem a feição de monstros. E isso, a esquerda religiosa, do bem contra o mal, jamais perdoará a Padilha.
Nenhuma palavra sobre a série da Netflix - você não pode deixar de perder. Mas, a bem da verdade, a birra com o seu diretor é mais antiga. Ele teve a audácia de colocar o País onde bandido bom é bandido morto diante de um espelho, sem fazer nenhuma concessão às sociologias de araque. Uma posição política legítima, alheia ao código binário que anima a militância da internet. Daí o escândalo e o escárnio.