Ao molho de mentiras

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Publicada em 04/04/2018 às 06:33:00

 

* Antonio Passos
Em alguns dos poucos grupos dos quais participo, em redes sociais, verifico uma recorrência quando o assunto é política: uma grande quantidade de postagens nitidamente falsas. Não estou me referindo a informações duvidosas, que poderiam ser postadas de boa fé. Além dessas, há uma enxurrada - como já escrito antes - de postagens grosseiramente enganosas, intencionalmente difamatórias.
Conheço pessoalmente os integrantes desses grupos e sei que têm razoável escolaridade. Todos concluíram o ensino médio, muitos cursaram graduação acadêmica. São, na maioria, moralmente conservadores e cristãos de diferentes igrejas. Nesses grupos, basicamente, circulam três tipos de postagens - não necessariamente separadas: temas políticos, gozações e mensagens religiosas.
No acompanhamento que venho fazendo me espanta, além das informações falsas, a solidariedade que essas recebem ao serem postadas. Quase sempre, por mais grosseira que seja a maledicência difundida, chovem comentários de apoio. As pessoas expressam satisfação em ver publicadas informações que reforçam suas opiniões ou desejos, mesmo havendo explícitos indícios ou clara evidência de falsidade.
De início, eu quis acreditar que não caberia generalizar as minhas observações. Entretanto, matéria publicada no portal El País Brasil, no dia 29/03, demonstra que o problema tem grande dimensão. Referindo-se especificamente aos tiros disparados no Paraná contra ônibus da caravana de Lula, o jornal afirma que seis das dez notícias mais compartilhadas sobre o tema, no Facebook, eram falsas.
Conforme o El País, o levantamento foi feito pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, um projeto ligado à USP, que mapeia os conteúdos mais compartilhados e com mais interação naquela rede social. Em números, a notícia campeã, com 195 mil compartilhamentos, foi originada no portal Pensa Brasil - "Jornalista dentro no ônibus entrega PT. Foi tudo armação os tiros". Restou falsa.
A vice-campeã, com 110 mil compartilhamentos, nasceu no portal Jornal da Cidade Online - "Vereza advertiu sobre o atentado que o PT iria encenar". Para não variar, também é falsa. A primeira notícia não falsificada aparece apenas em terceiro lugar, com 72 mil compartilhamentos, vinda do portal Folha de S. Paulo - "Dois ônibus da caravana de Lula são atingidos por quatro tiros no Paraná".
Há - suponho - um estranho deleite na degustação de mentiras virtuais. Faço, então, uma pergunta: são saudáveis proposições temperadas em mentiras? Antes disso - porque também se pode apelar para a relatividade quando o tema é verdade e mentira - não seria necessário adotar alguns outros critérios, além do gosto ou desgosto que a notícia nos causa, para validar e compartilhar?
Parece-me que o sedutor sabor presente na mentira virtual advém do fato dela representar a realização de um desejo, mesmo que violentando a realidade.  Ou ainda, dito de outro modo, da crença já experimentada em outros contextos históricos, dos quais parte dos brasileiros parece querer se aproximar: a imposição de uma verdade por meio de uma mentira muitas vezes repetida. Será isso mesmo?
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos


Em alguns dos poucos grupos dos quais participo, em redes sociais, verifico uma recorrência quando o assunto é política: uma grande quantidade de postagens nitidamente falsas. Não estou me referindo a informações duvidosas, que poderiam ser postadas de boa fé. Além dessas, há uma enxurrada - como já escrito antes - de postagens grosseiramente enganosas, intencionalmente difamatórias.
Conheço pessoalmente os integrantes desses grupos e sei que têm razoável escolaridade. Todos concluíram o ensino médio, muitos cursaram graduação acadêmica. São, na maioria, moralmente conservadores e cristãos de diferentes igrejas. Nesses grupos, basicamente, circulam três tipos de postagens - não necessariamente separadas: temas políticos, gozações e mensagens religiosas.
No acompanhamento que venho fazendo me espanta, além das informações falsas, a solidariedade que essas recebem ao serem postadas. Quase sempre, por mais grosseira que seja a maledicência difundida, chovem comentários de apoio. As pessoas expressam satisfação em ver publicadas informações que reforçam suas opiniões ou desejos, mesmo havendo explícitos indícios ou clara evidência de falsidade.
De início, eu quis acreditar que não caberia generalizar as minhas observações. Entretanto, matéria publicada no portal El País Brasil, no dia 29/03, demonstra que o problema tem grande dimensão. Referindo-se especificamente aos tiros disparados no Paraná contra ônibus da caravana de Lula, o jornal afirma que seis das dez notícias mais compartilhadas sobre o tema, no Facebook, eram falsas.
Conforme o El País, o levantamento foi feito pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, um projeto ligado à USP, que mapeia os conteúdos mais compartilhados e com mais interação naquela rede social. Em números, a notícia campeã, com 195 mil compartilhamentos, foi originada no portal Pensa Brasil - "Jornalista dentro no ônibus entrega PT. Foi tudo armação os tiros". Restou falsa.A vice-campeã, com 110 mil compartilhamentos, nasceu no portal Jornal da Cidade Online - "Vereza advertiu sobre o atentado que o PT iria encenar". Para não variar, também é falsa. A primeira notícia não falsificada aparece apenas em terceiro lugar, com 72 mil compartilhamentos, vinda do portal Folha de S. Paulo - "Dois ônibus da caravana de Lula são atingidos por quatro tiros no Paraná".
Há - suponho - um estranho deleite na degustação de mentiras virtuais. Faço, então, uma pergunta: são saudáveis proposições temperadas em mentiras? Antes disso - porque também se pode apelar para a relatividade quando o tema é verdade e mentira - não seria necessário adotar alguns outros critérios, além do gosto ou desgosto que a notícia nos causa, para validar e compartilhar?
Parece-me que o sedutor sabor presente na mentira virtual advém do fato dela representar a realização de um desejo, mesmo que violentando a realidade.  Ou ainda, dito de outro modo, da crença já experimentada em outros contextos históricos, dos quais parte dos brasileiros parece querer se aproximar: a imposição de uma verdade por meio de uma mentira muitas vezes repetida. Será isso mesmo?
* Antonio Passos é jornalista