Cazuza, partidário do coração partido

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Cazuza cantou o mel e a ferida
Cazuza cantou o mel e a ferida

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Publicada em 06/04/2018 às 06:26:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Estivesse vivo, Cazuza te-
ria completado agora o 
60º aniversário. Impossível imaginar aquela alma liberta entre os nossos, flanando altiva em cenário de polarização ideológica. Partidário do coração partido, Cazuza celebrou as liberdades individuais encastelado no próprio umbigo. Isento, sim senhor. Direto do túnel do tempo. 
Há oito anos, uma data emblemática, os 20 anos da morte de Cazuza serviram de pretexto para algumas digressões a respeito do chamado Rock Brasil, um apelido sem muito sentido, à luz dos versos berrados em alto e bom som. O artigo publicado neste mesmo Jornal do Dia não caducou, mais oportuno agora do que nunca.
20 anos de saudade - Amanhã o rock brasileiro completa vinte anos de saudade. No distante 07 de julho de 1990, Cazuza saía de cena como nunca deixou um bar, sem direito a uma última dose, descobrindo, finalmente, de maneira dolorosa, que toda noite tem fim. O seu prazer era um risco de vida, e após um sono tranquilo, como informariam os jornais do dia seguinte, ele exalou seu último suspiro, vitimado pela tuberculose do século XX. Não havia como o dia nascer feliz…
Hoje eu reconheço em Cazuza uma das pedras fundamentais do chamado Rock Brasil - um conjunto disforme do que a playboyzada produzia nos gloriosos anos 80 -, mas à época, minha atenção estava completamente voltada para a Legião Urbana de Renato Russo, com quem Cazuza era constantemente comparado. Azar o meu. Depois de me livrar de todos os discos da Legião, já macaco velho, acabei tropeçando na discografia do Barão Vermelho. Aquilo, sim, parecia rock de verdade.
Não me entendam mal. A Legião exerceu um papel fundamental na formação musical de minha geração. Foi através das "composições" de Renato Russo que a maior parte da informação ligada ao universo pop chegou a nossos ouvidos. Frustrante foi a descoberta do pastiche. The Cure, The Smiths, Joy Division, entre tantas outras, eram mais do que simples influência para Renato Russo. Ainda pior do que isso, no entanto, foi desmascarar o poeta alardeado pelos meios de comunicação. E é aqui que Cazuza ganha todos os pontos.
Auxiliado por uma banda de rock autêntica, energia garageira no talo (o primeiro disco do Barão Vermelho foi gravado em quatro dias), Cazuza guardava uma poesia totalmente particular em seu peito. Renato Russo era o eterno adolescente, romântico e angustiado, de versos como "me fiz em mil pedaços pra você juntar". Cazuza, maduro na flor da idade, era carne, osso e um monte nervos. Cazuza era um cara de verdade, e deixava isso claro quando lembrava que "o banheiro é a igreja de todos os bêbados".
Era 1984, um mundo completamente diferente. As pessoas experimentavam as delícias de berrar qualquer coisa que lhes desse na telha, e Cazuza o fazia com volúpia, paixão e violência. Mesmo quando ele acenava para o amor, vislumbrava um sentimento com sabor de fruta mordida. Cazuza queria o mel e a ferida. E foi isso o que ele cantou pra gente.

Estivesse vivo, Cazuza te- ria completado agora o  60º aniversário. Impossível imaginar aquela alma liberta entre os nossos, flanando altiva em cenário de polarização ideológica. Partidário do coração partido, Cazuza celebrou as liberdades individuais encastelado no próprio umbigo. Isento, sim senhor. Direto do túnel do tempo. 
Há oito anos, uma data emblemática, os 20 anos da morte de Cazuza serviram de pretexto para algumas digressões a respeito do chamado Rock Brasil, um apelido sem muito sentido, à luz dos versos berrados em alto e bom som. O artigo publicado neste mesmo Jornal do Dia não caducou, mais oportuno agora do que nunca.
20 anos de saudade - Amanhã o rock brasileiro completa vinte anos de saudade. No distante 07 de julho de 1990, Cazuza saía de cena como nunca deixou um bar, sem direito a uma última dose, descobrindo, finalmente, de maneira dolorosa, que toda noite tem fim. O seu prazer era um risco de vida, e após um sono tranquilo, como informariam os jornais do dia seguinte, ele exalou seu último suspiro, vitimado pela tuberculose do século XX. Não havia como o dia nascer feliz…
Hoje eu reconheço em Cazuza uma das pedras fundamentais do chamado Rock Brasil - um conjunto disforme do que a playboyzada produzia nos gloriosos anos 80 -, mas à época, minha atenção estava completamente voltada para a Legião Urbana de Renato Russo, com quem Cazuza era constantemente comparado. Azar o meu. Depois de me livrar de todos os discos da Legião, já macaco velho, acabei tropeçando na discografia do Barão Vermelho. Aquilo, sim, parecia rock de verdade.
Não me entendam mal. A Legião exerceu um papel fundamental na formação musical de minha geração. Foi através das "composições" de Renato Russo que a maior parte da informação ligada ao universo pop chegou a nossos ouvidos. Frustrante foi a descoberta do pastiche. The Cure, The Smiths, Joy Division, entre tantas outras, eram mais do que simples influência para Renato Russo. Ainda pior do que isso, no entanto, foi desmascarar o poeta alardeado pelos meios de comunicação. E é aqui que Cazuza ganha todos os pontos.
Auxiliado por uma banda de rock autêntica, energia garageira no talo (o primeiro disco do Barão Vermelho foi gravado em quatro dias), Cazuza guardava uma poesia totalmente particular em seu peito. Renato Russo era o eterno adolescente, romântico e angustiado, de versos como "me fiz em mil pedaços pra você juntar". Cazuza, maduro na flor da idade, era carne, osso e um monte nervos. Cazuza era um cara de verdade, e deixava isso claro quando lembrava que "o banheiro é a igreja de todos os bêbados".
Era 1984, um mundo completamente diferente. As pessoas experimentavam as delícias de berrar qualquer coisa que lhes desse na telha, e Cazuza o fazia com volúpia, paixão e violência. Mesmo quando ele acenava para o amor, vislumbrava um sentimento com sabor de fruta mordida. Cazuza queria o mel e a ferida. E foi isso o que ele cantou pra gente.