Na resistência de Lula, a capacidade de ouvir

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Publicada em 06/04/2018 às 23:31:00

 

* Paulo Moreira Leite 
Quem passou a noite de quinta-feira no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e conversou com aliados e interlocutores próximos de Lula sabe duas coisas: a)  a decisão de prender Lula provocou uma indignação profunda; b) a exigência de que ele se apresentasse por conta própria em Curitiba, as 17 horas desta sexta-feira, era vista como inaceitável.
Conversei dirigentes sindicais veteranos e lideranças do MST, parlamentares do PC do B e dirigentes PSOL, deputados do PT e sindicalistas da CUT. Com mudanças de vocabulário e tonalidade na voz, todos estavam convencidos de que seria uma forma de humilhação, uma maneira de obrigar Lula a se curvar perante a autoridade de Sérgio Moro -- a qual todo cidadão comum pode ter obrigado de  acatar, mas não é obrigado a reconhecer.
Qualquer que fosse a opinião inicial de Lula sobre o caso, a decisão desta manhã confirma um dos traços principais de seu método de liderança, que tanto tem a ver com sua história no sindicato. Ele passou a noite de ontem na mesma entidade no qual teve início, há 40 anos, o principal projeto  de combate a desigualdade da história do país, poucas horas depois de ter sido convocado por Sérgio Moro para se apresentar à sede da Polícia Federal de Curitiba. Numa pequena sala na ala reservada ao presidente da entidade, a qual se têm acesso após atravessar um pequeno labirinto de divisórias de madeira laminada, ali compareceram Dilma Rousseff e o presidente da CUT, Vagner Freitas, Fernando Haddad e Luiz Marinho, ministros do governo Lula, e também os candidatos a presidente Guilherme Boulos, do PSOL, e Manuela Dávila, do PC do B.
Se naquele ambiente as conversas eram mantidas com voz baixa, no quarto andar formavam-se rodas em torno das mesas do restaurante da Branca, que substituiu o antigo Bar da Tia,  uma cantina que já funcionava ali na década de 70, quando recebia operários cansados da labuta pesada das fábricas - muitos deles, aos poucos, se transformaram nas lideranças que se tornavam referência em todo o país.
Demonstrando que havia acompanhado com atenção redobrada os debates da tenebrosa sessão do STF que terminou com a derrota do artigo 5 LVII da Constituição, uma liderança ligada a área de segurança pública fez um comentário amargo sobre Luiz Roberto Barroso, o ministro que sugeriu que a prisão em segunda instância em nada iria afetar o cotidiano da população pobre das grandes cidades, vítima preferencial da violência policial. "Eu sei por experiência própria que isso não é verdade. E acho que ele também deveria saber. A pressão para reprimir mais, prender mais, sem ligar para os direitos das pessoas pobres, sem defesa alguma, já está aumentando e vai aumentar ainda mais".  
Encostado no balcão a espera de um salgadinho, um sindicalista era capaz de repetir de memória os principais debates do julgamento, com frases literais, dizendo a um interlocutor: "temos de achar uma esperança. É preciso encontrar uma saída". Após uma pausa: "sempre existe uma saída".
Entre trabalhadores, militantes e lideranças sociais, em ar compenetrado, num carro de som instalado na rua em frente a entrada principal da entidade, o ambiente era outro. O líder do MST João Paulo Rodrigues arrancou aplausos de uma massa com ânimo para bater palmas e gritos a plenos pulmões depois da meia noite, quando revelou que nesta sexta-feira os movimentos sociais planejavam fechar 100 estradas com pneus queimados. 
A platéia ficou ainda mais animada quando João Paulo disse que, em 17 de abril, o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, o MST também vai combater "o latifúndio da TV Globo". 
Saindo de uma conversa com Lula, a deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ), fez um belo discurso para denunciar a perseguição a ao ex-presidente mas fez questão de registar que "o brilho nos olhos" do Lula.
Preso e torturado durante a ditadura militar, o ex-deputado Adriano Diogo falava de suas impressões após um encontro com Lula:
- Toda pessoa que sabe que vai ser presa fica calculando o que pode lhe acontecer, minuto a minuto. Não pode ser diferente, é claro. Mas Lula não demonstra a menor preocupação. Fala de tudo e quer saber de tudo. Está mais preocupado com o país do que com ele. Nunca vi isso.
A permanente serenidade que Lula exibe nestes tempos tão difíceis para todos - inclusive para ele - costuma ser explicada pela certeza de que nada poderá mudar seu lugar na História. Têm certeza das vitórias que obteve e do papel que desempenhou. Sem perder a capacidade de ouvir, entendeu-se com o país e consigo mesmo.
* Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA

* Paulo Moreira Leite 


Quem passou a noite de quinta-feira no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e conversou com aliados e interlocutores próximos de Lula sabe duas coisas: a)  a decisão de prender Lula provocou uma indignação profunda; b) a exigência de que ele se apresentasse por conta própria em Curitiba, as 17 horas desta sexta-feira, era vista como inaceitável.
Conversei dirigentes sindicais veteranos e lideranças do MST, parlamentares do PC do B e dirigentes PSOL, deputados do PT e sindicalistas da CUT. Com mudanças de vocabulário e tonalidade na voz, todos estavam convencidos de que seria uma forma de humilhação, uma maneira de obrigar Lula a se curvar perante a autoridade de Sérgio Moro -- a qual todo cidadão comum pode ter obrigado de  acatar, mas não é obrigado a reconhecer.
Qualquer que fosse a opinião inicial de Lula sobre o caso, a decisão desta manhã confirma um dos traços principais de seu método de liderança, que tanto tem a ver com sua história no sindicato. Ele passou a noite de ontem na mesma entidade no qual teve início, há 40 anos, o principal projeto  de combate a desigualdade da história do país, poucas horas depois de ter sido convocado por Sérgio Moro para se apresentar à sede da Polícia Federal de Curitiba. Numa pequena sala na ala reservada ao presidente da entidade, a qual se têm acesso após atravessar um pequeno labirinto de divisórias de madeira laminada, ali compareceram Dilma Rousseff e o presidente da CUT, Vagner Freitas, Fernando Haddad e Luiz Marinho, ministros do governo Lula, e também os candidatos a presidente Guilherme Boulos, do PSOL, e Manuela Dávila, do PC do B.
Se naquele ambiente as conversas eram mantidas com voz baixa, no quarto andar formavam-se rodas em torno das mesas do restaurante da Branca, que substituiu o antigo Bar da Tia,  uma cantina que já funcionava ali na década de 70, quando recebia operários cansados da labuta pesada das fábricas - muitos deles, aos poucos, se transformaram nas lideranças que se tornavam referência em todo o país.
Demonstrando que havia acompanhado com atenção redobrada os debates da tenebrosa sessão do STF que terminou com a derrota do artigo 5 LVII da Constituição, uma liderança ligada a área de segurança pública fez um comentário amargo sobre Luiz Roberto Barroso, o ministro que sugeriu que a prisão em segunda instância em nada iria afetar o cotidiano da população pobre das grandes cidades, vítima preferencial da violência policial. "Eu sei por experiência própria que isso não é verdade. E acho que ele também deveria saber. A pressão para reprimir mais, prender mais, sem ligar para os direitos das pessoas pobres, sem defesa alguma, já está aumentando e vai aumentar ainda mais".  
Encostado no balcão a espera de um salgadinho, um sindicalista era capaz de repetir de memória os principais debates do julgamento, com frases literais, dizendo a um interlocutor: "temos de achar uma esperança. É preciso encontrar uma saída". Após uma pausa: "sempre existe uma saída".
Entre trabalhadores, militantes e lideranças sociais, em ar compenetrado, num carro de som instalado na rua em frente a entrada principal da entidade, o ambiente era outro. O líder do MST João Paulo Rodrigues arrancou aplausos de uma massa com ânimo para bater palmas e gritos a plenos pulmões depois da meia noite, quando revelou que nesta sexta-feira os movimentos sociais planejavam fechar 100 estradas com pneus queimados. 
A platéia ficou ainda mais animada quando João Paulo disse que, em 17 de abril, o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, o MST também vai combater "o latifúndio da TV Globo". Saindo de uma conversa com Lula, a deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ), fez um belo discurso para denunciar a perseguição a ao ex-presidente mas fez questão de registar que "o brilho nos olhos" do Lula.
Preso e torturado durante a ditadura militar, o ex-deputado Adriano Diogo falava de suas impressões após um encontro com Lula:
- Toda pessoa que sabe que vai ser presa fica calculando o que pode lhe acontecer, minuto a minuto. Não pode ser diferente, é claro. Mas Lula não demonstra a menor preocupação. Fala de tudo e quer saber de tudo. Está mais preocupado com o país do que com ele. Nunca vi isso.
A permanente serenidade que Lula exibe nestes tempos tão difíceis para todos - inclusive para ele - costuma ser explicada pela certeza de que nada poderá mudar seu lugar na História. Têm certeza das vitórias que obteve e do papel que desempenhou. Sem perder a capacidade de ouvir, entendeu-se com o país e consigo mesmo.
* Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA